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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quando li Schopenhauer...

Quando Schopenhauer  fala do amor, da morte, da arte, da moral, da religião, da política e da relação homem e sociedade, ele nos mostra suas inquietações, fazendo referência o contexto histórico em que viveu. Mas, também daquilo que não preenche a alma humana, tais como o egoísmo, o falso moralismo e o lado abjeto do animal humano.

Arthur Schopenhauer (1788-1860)

    Em Dores do Mundo, Artur Schopenhauer, mediante sua filosofia, aponta diante as dores e as misérias humanas, “que na Terra um  sofre a pena da sua existência, e cada um a seu modo.”  Essa premissa  nos possibilita pensar, que temos que buscar uma inspiração nobre ou algo “mágico” para (sobre) viver. É imprescindível, buscarmos uma maneira de proceder, “de se fazer ouvir” para  não sentirmos a dor da vida prática.

    Assim, compreendo o quanto a felicidade é algo difícil de encontrar quando nos encharcamos com “os erros funestos  da vida inteira”. Afinal, nosso mundo é senão o inferno de Dante. Em lugar das alegrias do Paraíso, temos a nossa volta as dores e as misérias desenhadas na página infinita do espaço e do tempo.

    Portanto, me pego a perguntar: Porque o desejo e o sofrimento caminham lado a lado, desenvolvendo-se sem limites?

    O social é que nos orienta e regula a nossa conduta, estabelecendo normas e valores para as coisas. É verdade que vivemos uma época trágica, onde é visível a angústia infinita das almas livres. Mas, toda essa gente resiste a todas as chuvas e ao vento da vida diária...

Algo me faz pensar, que estamos submersos na terrível velhice (deste último século), que os anos imprimem. Talvez, a humanidade esteja a espera de Prometeu, que desejou salvarmos da miséria dos homens.

A revelação dos dias nos mostra que na luminosidade das manhãs ou na opulência natural das noites, os homens terminam anulados pelo cotidiano. Onde, gotas de luzes e cores oferecem à alma um gozo desmensurado.

Por entre  ruas escuras caí o amor dos homens em fontes profundas. Eis, ali, o afã que cavalga o presente futuro. Corações endurecidos, sórdidos e velhos invadem os jardins, onde o vento das alturas desprendem açoites que condicionam em nós o abrasamento das fogueiras vivas.

Que brota da alma, um corpo febril, símbolo e expressão de si mesmo. Que desterra de cânticos sagrados, o bem e o mal. E, arrebanha da obscuridade da sombra noturna a natureza humana.

Criaturas que se entregam a loucura dos sacerdotes. Falsos sábios, que divulgam uma pseudo-sabedoria, que glorifica o eu e santifica a alienação. Assim, vejo os homens submissos aos pés divinos, receberem na face o cuspe do bendito egoísmo.

A manhã que está oculta, à tarde que se descobre. Assim, nos arrastamos sobre duros ombros e somos tolhidos pela, mormente cotidianidade. Uns ajoelham-se e deixam-se carregar pelas falsas promessas. Outros resistem às palavras e aos valores estranhos.

O interior da luz é vicioso, cheio de nobres adornos, de bela aparência. Alma minha que se lança no olhar dos teus olhos. Que chora as lágrimas e os prantos alheios.

Com um facho de claridade caminho pelo passado, onde jogo dados com os deuses, na mesa divina da terra. É, esse o meu universo! No domínio dessa órbita persigo o tempo, onde não deixo escapar uma verdade fugidia. Porém, degusto e como do puro alimento da vossa ciência. Mas, dificilmente, "estendem-se em mim, tua negra ignorância".

Não quero ser hóspede de teu corpo, o que me atrai é a tua doutrina, que explica à própria a gênese da vida. A dor tem que morrer, pois a vida é um espetáculo, embora nos conduza às angústias cotidianas.

Atrás das formas e cores variadas, sou visto como um pensamento inefável, oculto e espantoso. Um cego que pede e dar esmola, mas que não enche sua sacola. Contemplo a escuridão e me curvo diante de um deus desconhecido, incógnito.

Setes olhos trespassam e perseguem. Arranca(m) torturas, lhe impõe suplícios. Funesto e encantador é teu riso colérico, que anuncia em pensamentos falsas verdades. Desse modo escuto uma voz que diz:

-- Quem és tu?
Exclamou o velho sábio, dizendo tristemente:
-- Eu sou um deus verdugo, cansado dos tormentos humanos.

Desviando o olhar para o céu, procuro a grandeza do brilho da luz. Os olhos marejam, procurando por entre os bosques lunares à singular humanidade. Ao longe, vejo, os homens como "insetos cegos voando sem direção".

Agora, o subúrbio é um mundo estranho, que já não existe para o centro -- urbano e capitalizado -- de sonhos e prazeres. Do lado de cá, toda àquela gente louva com cantos, odes e poemas um deus diminuto.

À pobreza do alto e baixo sertão está regada pela fome, miséria e analfabetismo.       Que oportunidade terão àqueles de seguirem seus destinos? Triste verdade não proporciona o disfarce de tal situação. As esmolas que recebem são acondicionadas em pacotes distintos. De distantes paragens, desvalidas criaturas esbarram na contramão da vida retirada.

Por aí, além, morrem-se da seca, da morte matada, dos esforços fracassados, das dificuldades invencíveis... Dotara a natureza a sombra de um velho juazeiro, que naturalmente remove o óbice da secura dos ares.

Com lágrimas nos olhos o sertanejo aprecia espantado o velho torrão. Fugindo dos raios do sol, caminha lentamente por sobre a aridez da terra inóspita. Seus olhos brilham diante da profunda solidão. A pele luzidia contrasta com o suor que escorre pelo rosto evidenciando as marcas que a vida imprime. Mesmo turvas, clama aos céus pelas águas da chuva.

Por entre o crepúsculo, rompe a luz, um vulto humano que salta em órbitas, cujos olhos adornados pelos espaços vazios em estilhaços, em meio a patéticos anos, condicionam em negras cores a dureza e o peso da vida diária.

Figura humana que responde em silêncio. Como a morte, colhe o ímpeto que nos obriga a mergulhar na extrema solidão dessa dor profunda, desfigurando a luz da manhã e a fisionomia de todo homem, descrevendo em diferentes fases o desespero de criaturas inanimadas, cujas mãos piedosas arrastam-se em busca de Deus.

Depois de longo e profundo silêncio, o velho Chicó sucumbiu... Voz altaneira das terras longínquas, morrera suspenso na cruz por não suportar seu inferno. De expressão dolorosa e sombria, aquele pobre homem de aparente palidez anunciava uma excessiva piedade, estava cansado do mundo dos homens.


P.S.: O velho Chicó é a expressão da dignidade das personagens trágicas que encontramos na vida diária.

    O livro Dores do Mundo nos traz diversos aspectos do pensamento de sua época e procura estabelecer uma ligação com o sofrimento humano do passado e o estado em que se encontra o pensamento filosófico, científico, religioso do século XIX e tenta vislumbrar as perspectivas para um “melhor dos mundos possíveis”. Por essa razão, creio que haja um futuro seguro para a humanidade, a partir do momento em que sejam purificadas as inverdades, que não haja espaço para as superstições e os preconceitos, que as religiões impostas e desumanas, porquanto unicamente divinas e tirânicas, não sejam capazes de impedir a liberdade, sobretudo do espírito, do passado histórico cristalizado, enfim, depurado de tudo o que é fantasia, crendice, pura imaginação.  Para sim, como bem observou Nietzsche sermos humano, demasiado humano.

Por José  Lima Dias Júnior

sábado, 28 de janeiro de 2012

Democracia: um risco necessário

 Por Pablo Capistrano - Escritor

Walt Whitman, o profeta das modernas ordens democráticas, poetizou um dia: “resisto melhor a tudo que não seja minha própria diversidade”.
Hoje, amigo velho, as escolas cantam a canção da diversidade e da cidadania em seus projetos político-pedagógicos. Nossas escolas estão antenadas, pelo menos nas escrituras que as regem e nas fundamentações teóricas que as instauram, com um tipo de ordem democrática muito semelhante àquela que Whitman vislumbrou no século XIX em pleno entusiasmo maníaco de seu alumbramento poético.
O grande problema é que uma escola não se faz com leis, regulamentações ou tratados de intensões. São as práticas, amigo velho, que constituem uma escola. É sua disposição geométrica, seu modo de se apropriar do tempo dos outros, suas sirenes, seus “bimestres”, suas reuniões pedagógicas, suas cadernetas preenchidas de notas e seus “conteúdos de aula” (como se uma aula não fosse essencialmente forma). São suas coordenações, seu planejamento orçamentário, seus conselhos de classe, seus cargos comissionados. É tudo isso que constitui aquilo que alguém chamou um dia de “processo de ensino-aprendizagem”.
É cruel, amigo velho, que se fale a um professor que ele é obrigado a “ensinar cidadania” a seus alunos, quando a escola em que trabalha não pratica a democracia. Quando as reuniões de gestão são fechadas, quando a comunidade não participa dos conselhos, quando os alunos não têm voz nas reuniões pedagógicas, quando os cargos em comissão não são eleitos e continuam a ser tratados como “cargos de confiança” como se fossem propriedade dos diretores e não da comunidade que os sustenta.
Não é possível “ensinar cidadania” onde a democracia não é praticada. Não é possível “trabalhar a diversidade com os alunos” em ambientes nos quais as deliberações de gestão não são transparentes, públicas, coletivas, plurais.
É uma tortura que se apresente aos professores das humanidades a tarefa de transmutar a alma dos alunos e torná-los cidadãos, se a lógica que fundamenta a escola brasileira ainda for excludente e aristocrática. Não há sortilégio filosófico nem malabarismo sociológico que permitam um milagre alquímico desta magnitude.
Esse é um dos mais constrangedores impasses da escola burguesa que nasce no século XVI e chega a esse século XXI com as mesmas carteiras postas em fila, com o mesmo quadro branco (ou negro), como mesmo retrato três por quatro na ficha (agora digitalizada) do aluno, com as mesmas marcas de tinta vermelha nos boletins em notas de zero a dez.
A náusea da escola brasileira é de saber-se detentora de uma tarefa para qual não foi pensada. Nosso desconforto, amigo velho, é o de sentir que nenhum aluno vai acreditar no velho professor que recita Whitman na sala de aula, se a escola pública e gratuita em que ele estuda não for gerenciada pela comunidade para a qual foi criada.
Como dizia a poesia do velho Tio Walt na tradução de Bruno Gambarotto: “Sou de toda cor e casta, de toda religião ou classe, fazendeiro, artesão, artista, cavalheiro, marinheiro, amante, quacre, prisioneiro, rufião, baderneiro, advogado, médico, padre”. Resisto melhor a tudo que não seja a minha própria diversidade.




Fonte: Jornal "O Mossoroense", Mossoró - RN, 28 de janeiro de 2012 - Nº 15.956

sexta-feira, 17 de junho de 2011

UNIVERSIDADE, POLÍTICA E PARTIDOS

Alípio de Sousa Filho [ professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN ]
 
Pode a Universidade permitir o seu rebaixamento a interesses de partidos políticos? A submissão da Universidade a interesses políticos de partidos é compatível com o ideal de universidade?  Desde seu surgimento no século XII, na Europa, tem sido a procura pela autonomia aquilo que distingue as universidades entre todas as outras instituições e que igualmente explica, na história de diversos países, sua longevidade e resistência às investidas, sob diversas formas, para seu fracasso ou destruição. 
O ideal de universidade, afirmado na independência acadêmica e na liberdade intelectual, recrutou seu prestígio ao não permitir que currículos, pesquisas, debates, ações de seus integrantes e atuações de seus dirigentes obedecessem a interesses políticos particulares. Continua sendo tarefa de todos e de seus dirigentes manter a Universidade livre de qualquer subordinação que ameace a sua liberdade e independência política. Uma tarefa a ser realizada nas práticas cotidianas e em exemplos concretos, não podendo ser substituídos pela retórica que consagra, em cerimônias e rituais, a dissimulação da verdade: enquanto se permite a prática do aparelhamento político-partidário de universidades, no loteamento de cargos e funções, em tomadas de decisões, e em dirigentes que assumem o papel de ventríloquos de partidos, apregoa-se uma independência que não se verifica em algumas delas. 
Dirigentes universitários ou integrantes das mais diversas categorias que aceitam de bom grado ou por fraqueza a subordinação da Universidade a partidos políticos talvez não tenham noção do mal que fazem a um dos mais importantes legados da história humana. Ao se permitir que militantes ou representantes partidários transformem as universidades em "aparelhos" políticos, abandona-se o espaço universitário ao risco de vir a ser o lugar daquilo que Kenneth Monogue chamou "tribalismo acadêmico". Tribalismo que se exprime nas práticas clientelistas, patrimonialistas, do favoritismo, do fisiologismo. Tudo isso mascarado nos jogos de cena, na hipocrisia dos rituais acadêmicos, e mesmo no silêncio cúmplice. E mascarado também retóricas "pragmáticas": "o pensamento adequado", "oportuno", "experiente", "profissional", "válido", "útil", "equilibrado". Discurso de desqualificação e invalidação permanente de tudo aquilo ou de todo outro que seja a ameaça do desvelamento de atores, personagens e scripts que põem em cena os movimentos de "canalhocracias acadêmicas" (Maffesoli) que visam suplantar o mérito intelectual, o prestígio da docência, a exigência de qualidade na produção do conhecimento.
Aparelhamentos político-partidários da Universidade levarão a que esta desça de nível, e como observou Karl Jaspers, "se a universidade baixa de nível, a sociedade e o Estado naufragam juntos". O controle da instituição universitária por partido político - e qualquer que seja a cor de sua bandeira -  a conduzirá à vala comum do pensamento político subordinado, para prejuízo do conhecimento livre, autônomo e desinteressado. E como ensina também Schopenhauer (aquí, em fonte direta), "na universidade, a atmosfera de liberdade é indispensável à verdade".
A política que a Universidade deve fazer é outra. É a política de seu compromisso com a transformação social, com projetos de ensino, pesquisa e extensão que pensem os problemas sociais, as questões da vida coletiva de nossa sociedade, da humanidade: desigualdades sociais, violências, misérias, racismo, homofobia, justiça, educação, saúde. Participação no debate político-público: politização sem partidarização.
Dirigentes e integrantes da Universidade não podem, a pretexto de apoios (financeiros ou outros?), tornarem-se reféns de partidos ou admitirem chantagens políticas. E não é demais lembrar os muitos casos na história nos quais os apoiadores de hoje são os traidores de amanhã. E, onde não há sentimentos e propósitos autênticos, não há amizade e confiança possíveis, mas conluio provisório, sempre às vésperas de seu próprio final. Como escreveu La Boétie, "a amizade [...] nunca se entrega senão entre pessoas de bem e só se deixa apanhar por mútua estima [...]. Não pode haver amizade onde está a deslealdade; e entre os maus, quando se juntam, há uma conspiração, não uma companhia; eles não se entre-amam, mas se entre-temem; não são amigos, mas cúmplices." Nas universidades, aliás, deslealdade e mentira se dão as mãos num longo enlace.
O bem social que constitui a Universidade não pode ser ameaçado por inautênticos propósitos de agentes partidários que, entre outras coisas, não têm projetos nem para a universidade nem para a educação. É a sociedade inteira, seus diversos segmentos, setores e representantes que devem ficar atentos para não deixar que a Universidade se torne trincheira de interesses menores, destruindo o próprio sentido para o qual uma Universidade deve existir.
  Fonte: Jornal Tribuna do Norte, p. 2,  Natal, 15/06/2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma lei de responsabilidade sócio-ambiental?

Leonardo Boff

Já existe a lei de responsabilidade fiscal. Um governante não pode gastar mais do que lhe permite o montante dos  impostos recolhidos. Isso melhorou significativamente a gestão pública.

O acúmulo de desastres sócio-ambientais ocorridos nos últimos tempos, com desabamentos de encostas, enchentes avassaladoras e centenas de vítimas fatais junto com a destruição de inteiras paisagens, nos obrigam a pensar na instauração  de uma lei nacional de responsabilidade sócio-ambiental, com pesadas penas para os que não a respeitarem.


Já se deu um passo com a consciência da responsabilidade social das empresas. Elas não podem pensar somente em si mesmas e nos lucros de seus acionistas. Devem assumir uma clara responsabilidade social. Pois não vivem num mundo a parte: são inseridas  numa determinada sociedade, com um Estado que dita leis, se situam num determinado ecossistema e são pressionadas por uma consciência cidadã que cada vez mais cobra o direito à uma boa qualidade de vida.


Mas fique claro: responsabilidade social não é a mesma coisa que
obrigação social prevista em lei quanto ao pagamento dos impostos e dos salários; nem pode ser confundida com a resposta social que é a capacidade das empresas  de criativamente se adequarem às mudanças no campo social, econômico e técnico. A responsabilidade social é a obrigação que as  empresas assumem de buscar metas que, a meio e longo prazo, sejam boas para elas e também  para o conjunto da sociedade na qual estão inseridas.

Não se trata de fazer
para a sociedade o que seria filantropia, mas com a sociedade, se envolvendo nos projetos elaborados em comum  com os municípios, ONGs e outras entidades.

Mas sejamos realistas: num regime neoliberal como o nosso,  sempre que os negócios não são tão rentáveis, diminui ou até desaparece a responsabilidade social. O maior inimigo da responsabilidade social é o capital especulativo. Seu objetivo é maximizar os lucros das carteiras e portofólios que controlam. Não vêem outra responsabilidade, senão a de garantir ganhos.


Mas a responsabilidade social é insuficiente, pois ela não inclui o ambiental. São poucos os que perceberam a relação do social com o ambiental. Ela é intrínseca. Todas empresas e cada um de nós vivemos no chão, não nas nuvens: respiramos, comemos, bebemos, pisamos os solos, estamos expostos à mudanças dos climas, mergulhados na natureza com sua biodiversidade, somos habitados por bilhões de bactérias e outros microorganismos. Quer dizer, estamos dentro da natureza e somos parte dela. Ela pode viver sem nós como o fez por bilhões de anos. Nós não podemos viver sem ela. Portanto, o social sem o ambiental é irreal. Ambos vêm  sempre juntos.


Isso que parece óbvio, não o é para a grande parte das pessoas. Por que excluimos a natureza? Porque somos todos antropocêntricos, quer dizer, pensamos apenas em nós próprios. A natureza é exterior,  posta ao nosso bel-prazer.


Somos irresponsáveis face à natureza quando desmatamos, jogamos bilhões e litros de agrotóxicos no solo, lançamos na atmosfera, anualmente, cerca de 21 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa, contaminamos as águas, destruímos a mata ciliar, não respeitamos o declive das montanhas que podem desmoronar e matar pessoas nem observamos o curso dos rios que nas enchentes podem levar tudo de roldão.


Não interiorizamos os dados que biólogos e astrofísicos nos apresentam: Todos possuímos o mesmo alfabeto genético de base, por isso somos todos primos e irmãos e irmãs e formamos assim a comunidade de vida. Cada ser possui valor intrínseco e por isso tem direitos. Nossa democracia não pode incluir apenas os seres humanos. Sem os outros membros da comunidade de vida, não somos nada. Eles valem como novos cidadãos que devem ser incorporados na nossa compreensão de democracia que então será uma democracia sócio-ambiental. A natureza e as coisas dão-nos sinais. Elas nos chamam atenção para os eventuais riscos que podemos evitar.


Não basta a responsabilidade social, ela deve ser
sócio-ambiental. É urgente que o Parlamento vote uma lei de responsabilidade sócio-ambiental imposta a todos os gestores da coisa pública. Só assim evitaremos tragédias e mortes.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal: ver com os olhos do coração

É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonadas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.

Leonardo Boff



Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau – Santa Claus - cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.
Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.
Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu:”Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato”. Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:
Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.
É o que mais nos falta hoje: a capacidade de resgatar a imaginação criadora para projetar melhores mundos e ver com o coração. Se isso existisse, não haveria tanta violência, nem crianças abandonadas nem o sofrimento da Mãe Terra devastada.
Para os cristãos vale a figura do menino Jesus que tirita sobre as palhinhas sendo aquecido pelo bafo do boi e do jumento. Disseram-me que ele misteriosamente através de um dos anjos que cantaram nos campos de Belém enviou a todas as crianças do mundo uma cartãozinho de Natal no qual dizia:
Queridos irmãozinhos e irmãzinhas:

Se vocês olhando o presépio e me virem aí, sabendo pelo coração que sou o Deus-criança que não veio para julgar mas para estar, alegre, com todos vocês,

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente no mais pobrezinhos, a minha presença neles,

Se vocês conseguirem fazer renascer a criança escondida no seus pais e nos adultoss para que surja nelas o amor a ternura,

Se vocês ao olharem para o presépio perceberem que estou quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e desejarem que ela mude de fato,
Se vocês ao verem a vaca, o boi, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante pensarem que o universo inteiro recebe meu amor e minha luz e que todos, estrelas, pedras, árvores, animais e humanos formamos a grande Casa de Deus,

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma estrela sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos,

Então saibam que eu estou chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia que só Deus sabe quando estaremos todos juntos na Casa de nosso Pai e de nossa Mãe de bondade para vivermos bem felizes para sempre.

Belém, 25 de dezembro do ano 1.
Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Fonte: Revista Carta Maior, 2010.





quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A memória histórica como campo de luta de classes (II)

O artigo é de Augusto Buonicore*
D. Pedro I: um grito parado no ar

Vejamos agora como se constroem socialmente os fatos e personagens históricos, tendo como referência a história Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos mais comemorados a proclamação ocorrida em 7 de setembro de 1822. É incontestável que esta data se constitui um típico fato histórico. Acredito que ninguém, atualmente, negaria isto ou proporia eliminá-lo do calendário cívico nacional.

É claro, as coisas não ocorreram como estão descritas na clássica pintura de Pedro Américo, que se encontra num lugar de honra no Museu do Ipiranga. A referida tela foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Dom Pedro. Seu objetivo, não declarado, era enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Bragança, naquele momento, passavam por graves dificuldade. Estávamos em 1888, às vésperas da proclamação da República.

O jovem príncipe não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não trajavam vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior do país. Contudo, foi aquela cena deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário da Nação. Para que isso ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didáticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como “Independência ou morte”. Na época, o trabalho de Pedro Américo custou uma pequena fortuna aos cofres públicos — cerca de 30 contos de réis.

Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de D. Pedro dado às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo, que conheceu vários episódios desde a revolta de Bequimão (1684), a revolta de Felipe dos Santos (1720), a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1799) e a Insurreição Pernambucana (1817).

No 7 de setembro de 1822, proclamou-se a Independência, preservando a monarquia, a supremacia da Casa de Bragança e os interesses econômicos e sociais fundamentais das classes dominantes brasileiras: a escravidão, o latifúndio e o predomínio da agroexportação do açúcar e do café. O Brasil ficou sendo o único Estado monárquico da América Latina.

Mesmo assim, não se pode chamar o final do processo de independência de incruento. Isto significaria ficar apenas nas aparências e nos curvarmos perante uma visão liberal-conservadora da nossa história. A independência incruenta (ou moderadamente cruenta) se deu no eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, no qual a corte brasileira tinha influência e maior controle. Nas regiões Norte e Nordeste havia uma situação bem diferente. Historicamente, suas relações econômicas e políticas se davam mais com a Metrópole portuguesa do que com o Rio de Janeiro. Ali eram maiores as influências metropolitanas e existiam fortes laços de fidelidade das tropas e do comércio, em geral compostos de portugueses, em relação às cortes do além mar.

Em fevereiro de 1822, eclodiu a Guerra da Independência na Bahia. Ela se iniciou quando os baianos se recusaram a aceitar a indicação do novo governador de armas, o coronel lusitano Madeira de Melo. As tropas portuguesas atacaram os patriotas brasileiros e os derrotaram. A guerra somente foi vencida no dia 2 de julho de 1823. No Maranhão, a junta lusitana só seria derrotada mais de um ano após a Independência. Mais de oito mil brasileiros combateram o domínio português naquele estado. A mesma coisa aconteceu no Piauí. As mobilizações de tropas nesses episódios não ficaram aquém das ocorridas na guerra de independência da América espanhola.

Mesmo assim, a nossa independência não estava plenamente assegurada. Vários perigos pairavam sobre ela. A maioria deles vinculados à permanência de um príncipe português no trono brasileiro. Um monarca que vez ou outra exprimia sua fidelidade mais ao pai e a Portugal do que ao Brasil. Em 1831, depois de acirrados conflitos políticos e choques de ruas, D. Pedro renunciou ao trono. Para alguns historiadores, somente a partir deste momento a nossa independência política estaria concluída.

Como podemos ver, nosso processo de independência conheceu inúmeras datas e personagens. Contudo, poucos deles foram selecionados para compor a história oficial. Por longos anos, o título de herói da Independência acabou recaindo na polêmica figura de D. Pedro I. E o fato histórico determinante, o grito dado às margens do riacho do Ipiranga. Estas escolhas, decerto, nada tiveram de casual. Elas se enquadravam perfeitamente dentro dos interesses das classes dominantes brasileiras, que procuravam símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação.

Os historiadores socialistas sabem que a nossa independência não foi obra de D. Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi o resultado de inúmeras contradições, que se acumularam por séculos, entre os interesses da colônia e da metrópole. Ela não teria sido possível sem as inconfidências mineira e baiana; sem as guerras de libertação na Bahia, Maranhão e Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como os ocorridos no Rio de Janeiro, em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e ação dos setores populares e radicais do movimento de independência, representados nas figuras de Frei Caneca e Cipriano Barata.

Tiradentes e a Inconfidência Mineira: obras republicanas
Vejamos um outro herói e outro fato histórico incontestáveis. Refiro-me ao Tiradentes e à Inconfidência Mineira. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, ninguém tem dúvidas sobre o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que consta da exposição do bi-centenário da independência da Argentina, na Casa Rosada – ao lado de Bolívar e San Martin.

Mas nem sempre foi assim e, talvez, nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. Digo homens, pois as mulheres apitavam pouco naquele momento. O próprio termo inconfidência, literalmente, significa “ato de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido pejorativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião.

Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte – o nome de Tiradentes não era digno de nenhuma menção governamental especial e muito menos objeto de comemorações cívicas. Era considerado mais louco do que herói. Afinal, eram os filhos e netos da rainha “Maria Louca” – que o mandou enforcá-lo e esquartejá-lo - que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – o 21 de abril – virou feriado nacional.

Mas por qual razão foi escolhida a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários etc. Todos senhores brancos e respeitáveis membros da sociedade colonial. A favor de Tiradentes, o mais pobres deles, pesava o fato de ser republicano e, principalmente, alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares — como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, eles puderam traçar um fio de continuidade entre suas idéias (e posição social) e as de Tiradentes.

A escolha, contudo, poderia ter recaído sobre outros movimentos, outros mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também chamada de Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular que a primeira. Por isso mesmo, causou maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: independência, República e Abolição da Escravidão. Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, da Conjuração Baiana participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical.

Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, todos tiveram seus corpos esquartejados e seus membros decepados colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento. Nomes que quase desapareceram da história.

Zumbi e Palmares: arrombando a festa oficial
Por fim, vejamos um último herói e uma última data histórica. Refiro-me à Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói brasileiro, sem dúvida o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes e com o imperador D. Pedro I. Nada mais justo.

Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse ocorrer durante o Império escravista (1822-1889) ou mesmo durante os primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde o ideal para o Brasil era de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista e racista, decerto não haveria lugar para heróis negros desta natureza.

Zumbi começou aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu setor mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como legendário líder dos escravos de Roma, Spartacus.

Seria preciso transcorrer quase cem anos da abolição da escravidão para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e a democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, no qual se incluía as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso, ainda existente entre nós, buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça.

O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e fatos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, corretamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos – ou, pelo menos, de quase todos.

Heróis regionais, de movimentos específicos, podem, em determinadas conjunturas, se tornarem heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentarem definitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da Princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do Duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos.

Diga-se, de passagem, que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Vargas estava em luta acirrada para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O ato solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único e mesmo processo, e serviam aos mesmos interesses econômicos e sociais.

Quem e como se faz a história
Não são indiferentes para a sociedade os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história. Estas escolhas não são neutras. São carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas. Nada mais falso que encarar a história como coleção de fatos puros (objetivos), distribuídos cronologicamente.

Por fim – e isso é o mais importante – devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.

As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou D. Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral.

Portanto, mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos sobre-humanos - ou como construção coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas - e acordos por cima - das elites (econômicas e políticas) ou como o fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos. A história pode ser vista como grandes momentos – únicos e irrepetíveis – ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17232

Bibliografia:

BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980.
BUONICORE, Augusto, Marxismo, história e revolução brasileira, Ed. Anita Garibaldi, SP, 2009
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978.
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991.
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998.
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988.
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988.
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980.
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981.
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983.

* Este texto foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e 28 de julho de 2010.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A memória histórica como campo da luta de classes (I)


A memória histórica como campo da luta de classes (I)

Se perguntássemos para qualquer pessoa comum o que é história, ela rapidamente nos diria: É algo que trata de fatos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (fatos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria História. E, ao referir-se ao passado, pensavam-na como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer e, muito menos, nos ensinar sobre o presente. O artigo é de Augusto Buonicore.

Publicado originalmente no site da Fundação Maurício Grabois

Não é sem razão que no interior das salas de aula a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu especialmente devido a pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar e, principalmente, transformar o mundo em que viviam.

O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é - algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa seqüência rigorosamente cronológica.

Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colméia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós e é, justamente, por isso que deve ser estudado e melhor compreendido.

No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas – não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) e o sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.

Para os antigos historiadores, de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis.

Contra os fatos não há argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais os fatos que vem à cena e em que ordem e em que contexto”. E conclui: “A convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.

No entanto, o historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. Ele é membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Ele se encaixa no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.

É sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: De onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica - invenção de alguns socialistas inconformados.

A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico) e, principalmente, interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.

O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Compreender as inúmeras transformações por que elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos da história.

As sociedades humanas – como tudo no universo - estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se - conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem se dar lentamente – quase imperceptíveis - ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias.

Mas, qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas de classes.

Por que os trabalhadores devem conhecer a história?

Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Este combate faz parte de uma luta ainda maior que é a travada pela conquista da hegemonia. Em outras palavras, a história é um espaço no qual grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.

Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas também buscaram se utilizar da chamada história universal para justificar a dominação e a exploração que exerciam sobre outros povos, considerados inferiores.

Vejamos alguns exemplos extremos destas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá, alguns governantes gregos e romanos também foram transformados em descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas, nem por isso, menos perversos.

Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados - ou mesmo eliminados - deixaram poucos rastros na história. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos deixaram nenhuma obra escrita, apresentando seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedades antigas foram homens livres e, na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores, também, aventuraram-se no oficio de escrever história. É claro que para enaltecer os seus próprios feitos e dos seus antepassados.

No Brasil, as coisas não podiam ser diferentes. Aqui, também, não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era lhes proibido freqüentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foram contados por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de inúmeros preconceitos e graves incompreensões.

Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma outra história, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles. Pois, foi através dos óculos desses escritores que começamos conhecer um pouco mais da evolução e vicissitudes de nossa sociedade.

Não quero dizer com isto que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam uma interpretação exata da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e acabar de montar o quebra-cabeça do que foi a nossa sociedade colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, o erro daqueles que pretendem generalizar as conclusões de Gilberto Freyre na sua obra magna.

Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe operária moderna, que sabia ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos -, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo, esta nova história (socialista) tendeu a ser marginal, fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as idéias dominantes são sempre – ou quase sempre – as idéias das classes dominantes.

Somente tendo a consciência que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistência desenvolvidas por seus antepassados - os ajudará travar, de maneira mais conseqüente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.

Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável -, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores, como agente ativo de sua própria história.

Bibliografia

BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980
CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978
CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991
HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998
MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988
PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988
PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980
RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981
SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983

(*) Esta é a primeira parte do texto que foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP)entre 26 e 28 de julho de 2010.


Fonte: www.cartamaior.com.br    17/11/2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Diga Não a Xenofobia!

AFOGADORES E AFOGADOS

Pablo Capistrano


Quando a guerra de Canudos começou, um grupo substancial das castas intelectuais do país advogou a tese de que aquele era um combate entre a civilização e a barbárie, entre o progresso do sul e as sombras ignorantes de um passado medieval que ainda insistia em sobreviver nos sertões do Brasil. Euclides da Cunha, que escreveu uma das mais fundamentais obras da literatura brasileira (os Sertões) disse sobre aquela guerra: “abriu-se separação radical entre o sul e o norte”. No sul, “novas tendências, uma subdivisão maior na atividade (...) um largo movimento progressista em suma”. No norte e nordeste a “figura dos nossos patrícios retardatários”.

Mais de cem anos depois, bastou um mapa do Brasil pintado de vermelho e azul depois da eleição, um gosto amargo de ressentimento por parte de alguns eleitores do candidato ex-governador de São Paulo para que aquele velho sentimento xenofóbico, latente e oculto nos espaços recalcados da consciência nacional viesse à tona.

Para variar tudo começou no twitter quando uma abestada (Evoé mestre Tiririca!) postou o seguinte: “Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”. A estudante de Direito de São Paulo (Mayara Petruso) não sabia, mas ela estava se tornando o centro de uma discussão que há muito tempo se mantém latente no país.

Entender o preconceito contra nordestinos no Brasil não é tarefa fácil. Em tese somos o mesmo povo, falamos uma mesma língua, e, na grande maioria dos casos, partilhamos uma mesma religião de base cristã (católica ou protestante).

Para o professor da UFRN Durval Albuquerque Jr. (citado em artigo na Carta Capital), o preconceito contra nordestinos em São Paulo teria surgido na década de 1920, quando levas de migrantes bahianos chegaram no sudeste e passaram a competir com os imigrantes europeus por postos de trabalho.  

O fato é que a divisão eleitoral vermelho/azul, que mostra o norte e o nordeste com Dilma e o sul e sudeste com Serra, usada em um primeiro momento para diminuir o impacto da derrota tucana, não se sustenta. Dilma venceria mesmo sem os votos dos nordestinos. Na verdade, o que é duro admitir, é que foi o Brasil que rejeitou a opção do PSDB paulista e não nós, os nordestinos.

No portal Terra (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4772959-EI6578,00-Querem+vitimizar+Nordeste+diz+Movimento+SP+para+Paulistas.html), Fabiana Pereira, uma das porta-vozes do Movimento São Paulo Para Os Paulistas tentou defender Mayara Petruso com o seguinte argumento: “Acho também que não estão sendo debatidas quais as causas da revolta dela. O fato de - não que justifique-, mas o fato de São Paulo sustentar o Bolsa Família, e aí esses beneficiários emergem e São Paulo fica subjugado a um governo que não elegeu, né?! (...)São Paulo sustenta e eles (nordestinos) decidem quem vai nos governar.”

Fabiana é mais uma vítima de uma síndrome de 1932 que vez ou outra toma conta de setores da sociedade paulista. A sensação que apenas São Paulo trabalha no Brasil e que o resto do país vive em uma simbiose parasitológica com o mais rico estado da nação é um dos sintomas psicossociais dessa doença psicossocial. São Paulo precisa reagir a isso. É preciso que aqueles que entendem São Paulo como a síntese, como um espaço aberto para o diverso e para o múltiplo não permitam que, de dentro para fora, esse tipo de excrescência ideológica prospere, porque a humanidade já está cansada daquilo que nos separa, daquilo que nos isola, daquilo que nos torna vítimas e carrascos dos outros.  Nessa brincadeirinha nazista que divide o Brasil em povos distintos não importa se você é o afogador ou o afogado, no final todos perdem.

Fonte:  Jornal O Mossoroense, 10 de novembro de 2010.