quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mudança na órbita da Terra provocou migrações de homens pré-históricos

Do UOL, em São Paulo
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  • Reprodução/Natural History Museum
    Antigos humanos saíram da África para o resto do mundo
    Antigos humanos saíram da África para o resto do mundo
"Berço da humanidade", a África é o continente primordial da história humana na Terra. Os cientistas, contudo, não entendiam exatamente o motivo de as populações terem migrado do continente para o resto do mundo. Um estudo publicado nesta quarta (21) pela revista Nature dá pistas sobre o que ocorreu no planeta naquela época.
De acordo com a pesquisa conduzida por Axel Timmermann e Tobias Friedrich, da Universidade do Havaí, a dispersão de humanos da África para o restante da Terra ocorreu em quatro grandes ondas distintas nos últimos 125 mil anos. Todas, contudo, estão conectadas a mudanças no clima terráqueo ocasionadas porvariações na órbita que deixaram o planeta mais gelado.
Estudos anteriores já avaliavam a possibilidade de mudanças climáticas impulsionadas por variações orbitais terem influenciado a dispersão doHomo sapiens para fora da África. Faltavam, contudo, dados concretos sobre situações climáticas e datações de fósseis para corroborar a teoria.
Tobias Friedrich
Esta imagem mostra ocupação populacional há 80 mil anos; áreas em vermelho mais escuro contêm por volta de 28 indivíduos por km quadrado
Agora, a equipe de pesquisadores construiu modelos numéricos que quantificam os efeitos de antigas mudanças climáticas e no nível do mar na migração global dos últimos 125 mil anos. Os modelos identificam ondas grandes de migração glacial pela Península Arábica e pela região do Levante nos seguintes períodos: 106 mil a 94 mil, 89 mil a 73 mil, 59 mil a 47 mil e 45 mil a 29 mil anos atrás. 
Os resultados se aproximam bastante aos dados arqueológicos e a fósseis já encontrados. A descoberta mostra que as mudanças climáticas ocasionadas por alteração na órbita da Terra tiveram um papel crucial para moldar a distribuição populacional no mundo. Além disso, estima que o Homo sapiens chegou quase simultaneamente à Europa e à China entre 90 mil e 80 mil anos atrás.

As populações pelo mundo

A revista Nature também publicou nesta quarta-feira uma vasta pesquisa que mostra a influência global do continente africano e que busca entender como funcionaram as migrações da África. Em três publicações diferentes, cientistas se debruçaram sobre o genoma de 280 diversas populações ao redor do mundo, na maioria de grupos que não tinham sido alvos de grandes estudos.
Um estudo conduzido por David Reich, de Harvard, e colegas sequenciou genomas de 300 pessoas de 142 diferentes populações pouco estudadas, na maioria pouco pesquisadas no campo científico. Os cientistas notam que a população que deu origem aos humanos atuais começou a divergir pelo menos há 200 mil anos.
Já a pesquisa que teve como autor Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, sequenciou o genoma de 83 aborígenes australianos e 25 indivíduos das terras altas da Papua Nova Guiné. Os dados apontam que os ancestrais dos aborígenes e da Papua Nova Guiné divergiram de populações euro-asiáticas entre 51 mil e 72 mil anos atrás. Ainda foram identificados materiais genéticos de antigos humanos, como os denisovans e de um grupo hominídeo desconhecido.
Outro estudo feito pelos cientistas Luca Pagani e Mait Metspalu, do Estonian Biocentre, descobriu que parte do genoma dos atuais moradores de Papua Nova Guiné mostram ligação com uma população que divergiu dos africanos mais cedo dos que os eurasianos. A descoberta fomenta evidências para uma onda de migração da África há 120 mil anos que levou ao povoamento da Papua Nova Guiné.
Os estudos são novas peças encaixadas no quebra-cabeça da evolução do homem pelo mundo em migrações da África, mas ainda há muitas perguntas sobre a colonização humana pelo mundo.

domingo, 11 de setembro de 2016

Chega de humanos às Américas

Ciência

Estudo descarta chegada de humanos às Américas pelo Estreito de Bering 

Pesquisa aponta que rota só seria 'biologicamente viável' mais de 400 anos após chegada dos primeiros povos; hipótese é de caminho pela orla do Pacífico

Por: Estadão Conteúdo
10/08/2016 - 20h49min | Atualizada em 10/08/2016 - 20h53min
Estudo descarta chegada de humanos às Américas pelo Estreito de Bering  Ver Descrição/Ver Descrição
Estreito de BeringFoto: Ver Descrição / Ver Descrição
A principal teoria para explicar como os humanos chegaram às Américas é inviável do ponto de vista biológico, de acordo com um novo estudo realizado por um grupo internacional de cientistas e publicado nesta quarta-feira na revista Nature.
Por muito tempo, a ciência considerou que a rota mais provável das populações que saíram da Sibéria e chegaram ao atual Alasca para se espalharem pelo continente americano, há pelo menos 13 mil anos, teria sido uma ponte terrestre que ligava a Ásia à América do Norte, onde hoje fica o Estreito de Bering.
Com a última glaciação chegando ao fim, a retração de duas enormes geleiras que cobriam essa área teria formado um corredor — na região oeste do atual Canadá —, que teria permitido a passagem dos povos asiáticos, antes que a elevação do nível do mar deixasse o caminho submerso, formando o Mar de Bering.
O novo estudo, no entanto, aponta que o corredor entre as geleiras, formado há 15 mil anos, não poderia ter sido atravessado antes de 12,6 mil anos atrás, já que não era colonizado por plantas e animais, impossibilitando a longa viagem migratória. A conclusão da pesquisa é que esse não foi o caminho dos primeiros povos que chegaram à América, já que existem vestígios que confirmam a presença humana no continente há pelo menos 13 mil anos.
De acordo com os autores do estudo, coordenado por Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), a hipótese mais plausível agora é que os povos da Ásia tenham migrado para a América viajando ao longo da costa do Oceano Pacífico - pela orla, ou por mar. Além dos pesquisadores dinamarqueses, o grupo inclui cientistas do Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.
— Embora o corredor físico já estivesse aberto há 13 mil anos, apenas vários séculos depois tornou-se possível usá-lo como passagem. Isso significa que os primeiros povos a entrar nas Américas devem ter tomado uma rota diferente. Eles simplesmente não poderiam passar pelo corredor, como foi alegado por muito tempo — declarou Willerslev. — O que ninguém havia estudado até agora é quando o corredor se tornou biologicamente viável. Sem plantas e animais disponíveis, como eles poderiam ter sobrevivido à longa e difícil viagem por aquele caminho?
O cientista afirmou, no entanto, que a passagem pode ter sido usada mais tarde, em migrações mais recentes.
Análise genética
Para descobrir que não existiam plantas ou animais no corredor por onde teria passado a onda migratória, os cientistas analisaram os sedimentos no fundo dos lagos Charlie e Spring, nas províncias de British Columbia e Alberta, no Canadá. As duas regiões são as últimas áreas do corredor a terem ficado livres do gelo que o bloqueava.
A partir dos sedimentos locais, os cientistas conseguiram reconstruir a história do ambiente local, analisando o DNA de animais e plantas que viveram ali no passado. A análise demonstrou que a paisagem só começou a ser colonizada por vegetação há 12,6 mil anos. Só a partir de então começaram a aparecer animais, incluindo bisões e mamutes, que foram essenciais na dieta dos caçadores que migraram para as Américas.
Com a hipótese da migração pelo corredor descartada, os cientistas acreditam que o caminho mais provável para os primeiros colonizadores das Américas tenha sido uma travessia ao longo da orla do Oceano Pacífico, caminhando pelas margens livres de gelo e expostas pelos baixos níveis do mar naquela época, ou por navegação costeira.
A hipótese, no entanto, será de difícil confirmação, porque as linhas costeiras da América do Norte naquela época foram inundadas com a elevação do nível do mar, após o fim da última glaciação, deixando as evidências arqueológicas submersas.
*Estadão Contéudo

terça-feira, 17 de novembro de 2015

RELIGIÕES E TERRORISMO: ALGUMA RELAÇÃO?


Por Alipio De Sousa Filho, Cientista Social, professor da UFRN
Não é difícil ao ateu ou ao agnóstico considerar que seus posicionamentos estão em vantagem, do ponto de vista filosófico ou sociológico, em relação aos posicionamentos religiosos, e também do ponto de vista político-ético-moral: não pertencer a nenhuma das religiões existentes, não professar a crença em nenhuma divindade, não se deixar dominar por crenças sem fundamento, torna possível uma posição neutral, relativamente aos pontos de vistas religiosos, na análise política dos fatos e na construção de posições sobre o que queremos como ambiente e vida coletiva para todos os diversos seres humanos em nossas diversas sociedades.
Refletir sobre a vida e o mundo sem ideias religiosas na mente é uma das maneiras de experimentar o que propriamente pode ser chamado de pensar, pois livre das amarras nas quais as ideias religiosas se constituem. Pensar livremente, deixar o pensamento criar seus próprios conceitos, ideias, sem a interferência de ideais que lhe são exteriores, que lhe precedem e que se impõem como verdades às quais não se pode desobedecer, é o único modo de efetivamente o ser humano produzir conhecimento, novidades, tornar viva a ação da reflexão por meio da abstração cognitiva. Tudo o que não seja isso é pura perpetuação de pontos de vista estabelecidos, repetição dogmática, em obediência ao que se crê imutável, infalível. Em grande medida, é isso que são as religiões. Diferentemente de outras ideias (científicas, filosóficas, políticas), as ideias religiosas não admitem contestação, não admitem ser questionadas e substituídas. Elas não são propriamente ideias, são crenças. Os modos de pensar e saberes não religiosos admitem sua própria contestação, sua reformulação. As crenças religiosas são refratárias à reflexão, ao questionamento, a toda problematização. Não são propriamente um pensar.
O ateísmo ou agnosticismo são pontos de vistas vantajosos também porque podem pensar a própria existência das religiões como fenômenos humanos – o que não quer dizer de modo algum “uma necessidade humana” –, pois são fenômenos sociais, e, assim, defendê-las indistintamente em seus direitos de existir, mas, diferentemente do que pretende cada uma delas: defendendo o direito de todas existirem na coexistência do pluralismo religioso, mas, ao mesmo tempo, sem a permissão para nenhuma delas rebaixar a outra e rebaixar outros tantos direitos daqueles que não professam qualquer de suas crenças. E sem que nenhuma possa reivindicar avançar sobre o Estado para impor suas crenças à sociedade por meio de ente que, público, não pode representar nenhuma delas em particular. O Estado funciona (ou, por definição, deve funcionar) como o ateu ou o agnóstico: situar-se em posição neutral que não permita o domínio de crenças religiosas prevalecer em suas ações políticas, de produção de conceitos, ideias, leis, normas.
O filósofo esloveno Salvoj Zizek estava certo quando escreveu anos antes que “o ateísmo é um legado europeu pelo qual vale a pena lutar”. É claro, a Europa da tese de Zizek é a moderna, a Europa contemporânea, não é aquela que impôs a várias partes do mundo seu cristianismo, usando chicotes, como receitavam os jesuítas e os calvinistas (um deles escreveu que, no Brasil, o cristianismo teria que vestir os corpos indígenas nus nem que fosse “à coup de fouet” – a chicotadas. Isso foi no século XVII. O ateísmo veio depois. Mas, sem discordância com o filósofo, de fato, a posição ateísta tornou possível não apenas que o Estado moderno se tornasse laico – a laicidade é uma forma de “ateísmo” ou “relativismo a-religioso” – mas também tornou possível a própria proteção do Estado aos que escolhem adotar crenças religiosas: tornando a esfera pública democrática “um espaço público seguro para os que creem” (Zizek).
Mas as diversas correntes religiosas, igrejas e crentes não são agradecidos com os posicionamentos modernos, laico, secularista, relativista, em grande medida influentes nas ações do Estado. Todas elas querem o Estado para si, um Estado que favoreça suas posições, crenças. E sempre em nome de uma “verdade” que é “propriedade particular” de cada uma delas. No Brasil, hoje, vemos a ofensiva dos cristãos conservadores, evangélicos e católicos, cobrando do Estado que abandonem suas políticas emancipatórias de reconhecimento de direitos e demandas de gays (lgbt), mulheres, jovens, que consideram atentados ao que chamam de “família cristã”, “educação moral da família”, ameaçadas pelo que – numa inversão cínica – nomearam “ideologia de gênero”.
Na realidade, todo pensamento religioso pratica seu “terror”, aterroriza o pensamento, atemoriza o pensar e as pessoas, com suas imposições, exigências. E, por essa razão, não se torna estranho que um bom número daqueles que adotam crenças religiosas pense a vida e o mundo de uma maneira dogmática, autoritária, intransigente, e exerça seu “terrorismo” ideológico sobre os outros. Visando impor suas visões, sem admitir questionamentos. Em maior ou menor medida, todas as religiões praticam, seu terrorismo particular sobre seus próprios membros e tentam fazer o mesmo com todos os demais que não as acolhem. Como diriam os mais jovens hoje, “tocam o terror” para impor suas convicções, seus dogmas, suas crenças arbitrárias. Sabe-se como nas famílias – de todas as religiões – crianças, jovens e adultos são fustigados com as cobranças diárias de seguirem crenças, dogmas, valores, muitas vezes em contrário aos seus desejos, ideias, escolhas. Impondo-se condutas morais, reprimindo desejos, censurando opiniões etc. Ainda que tudo possa parecer e aparecer como adesão espontânea, história familiar ou comunitária. Para situar um único exemplo, são muitos os casos de filhos e filhas gays expulsos de suas casas ou violentamente submetidos a regimes de vigilância e sujeição à autoridade familiar em nome de convenções religiosas.
Passar desse “terror”, que persegue pensamentos e pessoas, para o terrorismo assassino, que executa, elimina, mata pessoas, não é algo difícil, não é algo exclusivo de nenhuma religião e não é algo que ainda não tenha ocorrido na história de diversos povos e de todas as religiões. Talvez excluídas dessa história poucas delas, muito mais próximas de filosofias que propriamente religiões. O judaísmo nasceu “tocando o terror” em todos os povos que não aderiram às suas convicções, maldizendo todas as “divindades” que não eram o Javé hebraico, amaldiçoando toda “idolatria” aos “deuses falsos”. E o que não ficou apenas em palavras. É ler o Antigo Testamento e constatar! Seu herdeiro direto, o cristianismo seguiu a mesma linha: criou suas Cruzadas, sua Inquisição, a evangelização colonizadora (que matou grupos humanos inteiros; os povos indígenas das Américas são um exemplo!) e, hoje, permanece fornecendo seus fundamentalismos de muitos estilos, não menos terroristas em palavras e atos. Nos EUA, muitos casos de tiroteios em escolas, cinemas e ruas são realizações de cristãos fundamentalistas em nome da fé. Os mulçumanos, desde o ano 622, fazem suas “jihads” contra populações locais que vão encontrando e chamando de “infiéis”, por não professarem a crença islâmica. Tão logo após a morte de Maomé, avançaram sobre diversos territórios e, no século 8, sobre o norte da África e península Ibérica, submetendo populações locais ao Corão por meio da espada. Os “califas” do DAESH (termo que, num jogo de palavras em árabe, significa “alguém que pisa e esmaga”, e, por esse significado, rapidamente substituído pelos seus próprios militantes por um outro nome: o autonomeado “Estado Islâmico” de hoje, ou ISIL, ISIS, EI) não ficam nada a dever aos califas de antes. Como antes, os “califas” do EI executam pessoas, enterram crianças vivas, escravizam sexualmente mulheres, degolam seus “inimigos”.
Estranho, então, que ateus, agnósticos, opiniões de esquerda, anarquistas, queers, descolonizadores, entre outros, queiram agora “relativizar” e “ponderar”, como “consequências” da história (sobretudo “consequências” das presumidas ações das chamadas “potências ocidentais”), os recentes casos, nos últimos anos, de atentados terroristas praticados pelo chamado “Estado Islâmico” e pela Al-Qaeda. Ainda, fala-se do “risco” das “comunidades muçulmanas” pagarem um preço alto, ao serem todos os muçulmanos “confundidos” como cúmplices dos terroristas, seus apoiadores, financiadores, protetores. E mais estranho ainda porque pretendem com isso parecer críticos das potências imperialistas e capitalistas que seriam as responsáveis pela gênese do terrorismo de facções do islamismo fundamentalista. Alguns que são verdadeiros populistas de um oportunista “amor” aos palestinos, aos muçulmanos – amor de última hora!
Que existem populistas de direita, na Europa e em outras partes, que aproveitam o momento para sua pregação xenófoba, racista e islamofóbica, não há dúvida. Mas eles são uma minoria. E isso já ficou mais do que provado em mais de uma circunstância. Todavia, não se pode pedir às populações europeias, americana e igualmente de outros países atingidos (incluindo aquelas do mundo árabe e mulçumano) e aos seus governos que não acionem medidas e suas forças militares para combater aqueles que lhes ameaçam e à vida de seus cidadãos. Aqui, não há que se perder o foco da análise: a facção sunita Estado Islâmico não é flor que se cheire. Ela é mortal! Ela é mesmo “daesh”! O Estado Islâmico é o ápice do terrorismo das religiões! É apenas o ápice do que estas praticam em suas ações cotidianas. Dizer que o islamismo ou que os muçulmanos não podem ser “confundidos” com terrorismo é uma besteira sem tamanho. Ninguém os confunde! Mas pode tornar-se uma desfaçatez quando isso sair da boca de certos islâmicos. As mesquitas, pelo mundo, estão cheias de pregadores fundamentalistas radicais, doutrinadores, difundindo ideias obscurantistas e ódios contra um presumido “Ocidente infiel”. Desejosos de transformar o mundo inteiro em mundo mulçumano. Delírio que tem levado milhares de jovens – desesperados, marginalizados, excluídos, tudo isso é verdadeiro! – ao delírio ainda maior de fazer surgir esse mundo impondo-o pela via da força bruta, das armas, da morte. Aliás, delírio que somente vai às suas últimas consequências por outro delírio: aquele produzido pelas drogas que seus militantes utilizam em suas ações: heroína, ópio, cocaína, LSD, como já se sabe.
Assim, há que se evitar cair em tergiversações e enganos. Não se trata, pois, de substituir a crítica ao terrorismo das religiões, nas suas diversas formas, por uma pretendida preocupação com as atitudes de “cristianismofobia”, “islamofobia”, “judaismofobia”, pois o problema não está aí: o problema esteve sempre e permanecerá sempre enquanto as religiões pretenderem impor suas crenças particularistas a todos os demais na sociedade, e mais ainda quando isso for buscado pela via do terrorismo assassino. Se agora isso se apresenta na forma das ações do DAESH, pois seja ele o alvo de todos os combates para eliminar suas ações! E isso não é islamofobia!
É por essa razão que, aos ateus e agnósticos, mas a todos os demais, enfim, cabe condenar os atos terroristas – ideológicos ou dos assassinatos e atentados – de todas as religiões, quaisquer que sejam. A grande mentira de todas as religiões é pretender fazer crer que desejam unicamente o bem, a paz e a salvação de todos, quando o fazem desde que “todos” aceitem a sujeição às suas crenças e, para algumas delas, apenas às suas crenças. Como escreveu o filósofo francês André Comte-Sponville, “o bem não precisa de Deus” e “pode-se ter profunda espiritualidade sem religião”.
Fonte: Carta Potiguar

domingo, 15 de novembro de 2015

Turma do 9º Ano, veja!

O que é o jihadismo?

  • 14 dezembro 2014

Homem muçulmano em protesto na Líbia | Foto: AP
Image captionTermo "jihadista" é usado para diferenciar grupos sunitas violentos dos não violentos

Uma investigação da BBC descobriu que mais de 5 mil pessoas em todo o mundo morreram no mês de novembro como resultado da violência causada pela Al-Qaeda, suas ramificações e grupos que compartilham da mesma ideologia, comumente chamada de "jihadismo".

O que significa jihad?

A palavra "jihad" é amplamente utilizada – muitas vezes de maneira imprecisa – por políticos ocidentais e pela mídia.
Em árabe, a palavra significa "esforço" ou "luta". No islã, isso pode significar a luta interna de um indivíduo contra instintos básicos, o esforço para construir uma boa sociedade muçulmana ou uma guerra pela fé contra os infiéis.

Qual é a diferença entre os jihadistas e os muçulmanos?


Combatentes do Al-Shabab na Somália em 2008 | Foto: AP
Image captionO grupo Al-Shabab liuta contra o governo na Somália e é associado a uma série de ataques no Quênia

O termo "jihadista" tem sido usado por acadêmicos ocidentais desde os anos 1990, e mais frequentemente desde os ataques de 11 de setembro de 2001, como uma maneira de distinguir entre os muçulmanos sunitas não violentos e os violentos.
Muçulmanos têm, a rigor, o objetivo de reordenar o governo e a sociedade de acordo com a lei islâmica, chamada de sharia.
No entanto, jihadistas entendem que a luta violenta é necessária para erradicar obstáculos para a restauração da lei de Deus na Terra e para defender a comunidade muçulmana, conhecida como umma, contra infiéis e apóstatas (pessoas que deixaram a religião).
Se a umma é ameaçada por um agressor, eles sustentam que a jihad não é só uma obrigação coletiva (fard kifaya), mas também um dever individual (fard ayn), que deve ser cumprido por todos os muçulmanos capazes, assim como as preces rituais e o jejum durante o Ramadã.
O termo "jihadista" não é usado por muitos muçulmanos porque eles acreditam que se trata de uma associação incorreta entre um conceito religioso nobre e a violência ilegítima. Em vez disso, eles usam o termo "pervertidos", com a ideia de que muçulmanos envolvidos em atos violentos se desviaram dos ensinamentos religiosos.

Todos os jihadistas querem a mesma coisa?


Combatentes do
Image captionGrupo autodenominado "Estado islâmico" quer estabelecer califado entre leste da Síria e oeste do Iraque

Jihadistas compartilham dos mesmos objetivos básicos de expandir o islã e contrapor-se ao perigo que pode atingi-lo, mas suas prioridades podem variar. Um estudo recente de Thomas Hegghammer, do Departamento de Pesquisa de Defesa da Noruega, identificou cinco objetivos mais proeminentes:
  • Mudar a organização política e social do Estado. Por exemplo, o Grupo Armado Islâmico (GIA) e o antigo Grupo Salafista para Pregação e Combate (GSPC) lutaram por uma década contra as forças de segurança da Argélia, com o objetivo de derrubar o governo e criar um Estado islâmico.
  • Estabelecer soberania em um território percebido como ocupado ou dominado por não muçulmanos. O grupo baseado no Paquistão Lashkar-e-Taiba (Soldados da Pureza, em tradução livre) se opõe ao controle da Caxemira pela Índia, enquanto o grupo Emirado do Cáucaso quer criar um Estado islâmico nas "terras muçulmanas" da Rússia.
  • Defender a umma de ameaças externas não muçulmanas. Isso inclui jihadistas focados em lutar contra o que eles chamam de "inimigo próximo" (al-adou al-qarib) em áreas confinadas – como árabes que viajaram para a Bósnia e a Chechênia para defender muçulmanos desses locais contra exércitos não muçulmanos – e "jihadistas globais" que combatem o "inimigo distante" (al-adou al-baid), que na maioria dos casos é o Ocidente. A maioria destes são afiliados à Al-Qaeda.
  • Corrigir o comportamento moral de outros muçulmanos. Na Indonésia, justiceiros deixaram de usar paus e pedras e passaram a atacar pessoas com armas e bombas em nome da "moralidade" e contra "desvios".
  • Intimidar e marginalizar outros grupos muçulmanos. O grupo Lashkar-e-Jhangvi (Soldados de Jhangvi, em tradução livre) realizou durante décadas ataques violentos contra os xiitas paquistaneses, que eles consideram hereges. O Iraque também sofre com a violência sectária.

Como eles justificam o uso da violência?


Ataque em mesquita em Kano, na Nigéria, em 2011 | Foto: AFP
Image captionO grupo Boko Haram matou milhares de pessoas, a maioria delas no nordeste da Nigéria

Os jihadistas dividem o mundo em "reino do islã" (dar al-Islam), terras sob a lei muçulmana, e o "reino da guerra" (dar al-harb), terras que não seguem a lei muçulmana e onde, em determinadas circunstâncias, a guerra em defesa da fé pode ser aprovada.
Líderes e governos muçulmanos que os jihadistas acreditam terem abandonado as recomendações da sharia são considerados como estando fora do "reino do Islã", o que os tornaria alvos legítimos de ataque.

Por que civis são mortos?


Restos do World Trade Center após o ataque de 11 de setembro de 2001 | Foto: Getty
Image captionAtaque da Al-Qaeda às Torres Gêmeas em Nova York matou quase 3 mil pessoas

Grupos jihadistas atingiam civis antes do crescimento da Al-Qaeda, mas isso resultou em violência contra eles mesmos, em uma escala que até então não tinham imaginado.
Em 1998, Osama Bin Laden e os líderes de quatro grupos jihadistas no Egito, no Paquistão e em Bangladesh assinaram uma declaração de guerra total contra os Estados Unidos e seus aliados, e pediram que tanto soldados quanto civis fossem alvejados.
O profeta Maomé disse que exércitos muçulmanos deveriam fazer o possível para evitar machucar crianças e outros não combatentes.
A declaração assinada pelos grupos, no entanto, afirma que matar os não combatentes é um ato de reciprocidade pela morte de civis muçulmanos. Após os acontecimentos de 11 de setembro de 2011, Bin Laden tentou justificar o ataque a civis dizendo que, como cidadãos de um Estado democrático que elegeu seus líderes, eles também eram responsáveis pelas ações dos governantes.
Atingir civis muçulmanos em ataques tem se provado ainda mais polêmico. Em 2005, o então segundo em comando de Bin Laden, Ayman Al-Zawahiri, aconselhou o ex-líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab Al-Zarqawi, contra a ideia de matar civis xiitas. Al-Zawahiri afirmou que "isso não será aceito pelo povo muçulmano não importa o quanto você tente explicar".
O uso de táticas semelhantes no Iraque e na Síria pelo grupo autodenominado "Estado Islâmico" (anteriormente conhecido como Isis), que nasceu da Al-Qaeda no Iraque, foi um dos motivos pelos quais Al-Zawahiri, já ocupando o lugar de Bin Laden, renegou o grupo em fevereiro de 2014.

Por que os Estados Unidos costumam ser o alvo principal?


Ayman al-Zawahiri, Osama Bin Laden e Muhammad Atef | Foto: AP
Image captionOsama Bin Laden pediu que tantos militares quanto civis ocidentais fossem alvejados em ataques

Em uma declaração em 1998, Osama Bin Laden acusou os Estados Unidos de "ocupar as terras do islã no lugar mais sagrado de todos, a península Arábica, saqueando suas riquezas, impondo-se a seus líderes, humilhando seus povos, aterrorizando seus vizinhos e transformando suas bases na península na ponta de lança com a qual lutam contra os povos muçulmanos na região".
Segundo Bin Laden, esses "crimes e pecados" configuravam uma "clara declaração de guerra contra Alá, contra seu mensageiro e contra os muçulmanos".
Em 2013, dois anos após a morte de Bin Laden, Ayman Al-Zawahiri escreveu em suas "diretrizes gerais para a jihad" que "o objetivo de atacar a América é exauri-la e fazê-la sangrar até a morte, para que ela tenha o mesmo destino da ex-União Soviética e desabe sobre seu próprio peso, como resultado de suas perdas militares, humanas e financeiras. Consequentemente, seu controle sobre nossas terras enfraquecerá e seus aliados cairão um após o outro".

Qual é o tamanho dos Estados islâmicos que eles querem estabelecer?


Líder do
Image captionLíder do "Estado islâmico" se autodeclarou califa e quer implementar sharia em território dominado

Muitos grupos jihadistas buscam estabelecer Estados islâmicos em seus respectivos países de origem, como o Boko Haram na Nigéria e o Movimento Islâmico do Uzbequistão.
Outros grupos querem criar um "califado" – governado de acordo com a sharia pelo califa, que significa "substituto de Deus na Terra" – que se espalhe por diversas regiões. Alguns, como a Al-Qaeda, querem reestabelecer o antigo califado que se estendia da Espanha e norte da África até China e Índia.
O líder do grupo, Ayman Al-Zawahiri, prometeu "libertar todas as terras muçulmanas ocupadas e rejeitar todo e qualquer tratado, acordo ou resoluçãointernacional que dê aos infiéis o direito de tomar terras muçulmanas", incluindo a Palestina história, a Chechênia e a Caxemira.
Já o líder do grupo autodenominado "Estado islâmico", Abu Bakr Al-Baghdadi, também diz querer "demolir" as fronteiras estabelecidas pelo Acordo de Sykes-Picot, de 1916 (que delimitou as zonas de influência britânica e francesa no Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial). Seu grupo já declarou a criação de um califato que se estende pelo leste da Síria até o oeste do Iraque.
O "Estado islâmico" e a Al-Qaeda também têm métodos diferentes de estabelecer a lei islâmica. A abordagem da Al-Qaeda é mais de longo prazo, enquanto o "Estado islâmico" procura implementar imediatamente sua versão da sharia em seus territórios.

Há grupos jihadistas xiitas?


Membros da milícia xiita Brigadas do Hezbollah no Iraque em outubro de 2014 | Foto: EPA
Image captionMilícias xiitas apoiam forças de Assad na Síria e se mobilizam contra o "Estado islâmico" no Iraque

Há grupos militantes de muçulmanos xiitas que são, por natureza jihadistas. No entanto, eles são muito diferentes dos grupos sunitas. De acordo com a tradição xiita, os mujtahids – estudiosos religiosos mais antigos – possuem a autoridade para declarar uma jihad "defensiva". Mas somente o 12º imã (alto líder religioso) – que desapareceu há 1.100 anos, mas é considerado vivo pelos xiitas – poderia declarar uma jihad "ofensiva" quando retornar.
Durante séculos, a maioria dos sacerdotes xiitas defendia o não posicionamento político, enquanto esperavam o retorno do imã. Mas essa perspectiva mudou nos anos 1960 e 1970, dando origem ao ativismo que culminou na revolução de 1979 no Irã e no estabelecimento de uma República Islâmica no país.
Recentemente, a natureza sectária do conflito na Síria fez com que grupos xiitas apoiados pelo Irã ajudassem as forças leais ao presidente Bashar Al-Assad, membro da minoria xiita alauíta. Os grupos e seus milhares de lutadores "voluntários" – que vêm do Iraque, do Irã, do Líbano e do Iêmen – dizem que estão na Síria para defender o santuário xiita de Sayyida Zaineb, em Damasco.
O grupo libanês Hezbollah diz que seus membros mortos na Síria são mártires que morreram "cumprindo deveres jihadistas". Da mesma forma, o avançao do "Estado islâmico" no Iraque em 2014 também teve a mobilização de milícias xiitas para defender locais sagrados contra o grupo sunita.
Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141211_jihadismo_entenda_cc