quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Antepassado dos dinossauros é descoberto no Brasil

Representação
Os fósseis vêm de São João do Polêsine
Os fósseis vêm de São João do Polêsine
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Dois fósseis brasileiros com cerca de 230 milhões de anos, que acabam de ser apresentados oficialmente à comunidade científica, ajudam a entender como os dinossauros surgiram e se diversificaram. Numa palavra: devagarzinho.


É o que se depreende da convivência entre um dos mais antigos dinos conhecidos, o predador Buriolestes schultzi, de apenas 1,5 m de comprimento, e um carnívoro ainda menor, o Ixalerpeton polesinensis (que media 0,5 m).


À primeira vista, eles são muito parecidos –um tem cara de ser a miniatura do outro, praticamente -, mas o bicho menor não era bem um dinossauro. Pertencia, na verdade, a um outro grupo de répteis bípedes, os lagerpetídeos, derivado do mesmo tronco que também deu origem aos dinos.
"Você vê um momento de experimentação com várias formas diferentes de animais, muitas das quais acabam se extinguindo. É um 'miolo' muito complicado", diz o paleontólogo Max Cardoso Langer, da USP de Ribeirão Preto.
Ele coordena o estudo sobre os bichos extintos que está saindo na revista especializada "Current Biology". Também assinam a pesquisa Sergio Cabreira, da Universidade Luterana do Brasil, e Alexander Kellner, do Museu Nacional da UFRJ, entre outros cientistas.


Os fósseis vêm da pequena São João do Polêsine, cidade com menos de 3.000 habitantes fundada por imigrantes italianos no interior gaúcho, e datam do período Triássico. Os esqueletos estão bastante completos, o que é uma novidade importante –até hoje, dinos primitivos só tinham sido encontrados lado a lado de seus primos próximos em estado bastante fragmentado.


Além disso, se a análise proposta pelos cientistas brasileiros estiver correta, o B. schultzi é o mais primitivo dos sauropodomorfos –o grupo que, mais tarde, dará origem aos imensos quadrúpedes pescoçudos e herbívoros conhecidos popularmente como brontossauros. A ironia é que a linhagem desses animais parece ter começado com uma criatura que se alimentava de carne, e não de plantas. "Na verdade, não é uma surpresa, já que vários dinossauros primitivos também eram carnívoros", pondera Langer.


Alguns detalhes cruciais denunciam a diferença entre o dinossauro propriamente dito e o lagerpetídeo. Um deles é o chamado osso pós-frontal, que fica na órbita ocular do crânio do I. polesinensis. "Foi algo difícil de identificar no começo, a gente ficou pensando 'pô, mas que porcaria é essa?'. Trata-se de um osso que nunca está presente em dinossauros", conta Langer.


Além disso, embora ambos os bichos fossem bípedes, os ossos da pelve do lagerpetídeo sugerem que ele não tinha uma postura tão ereta quanto a do dino seu contemporâneo, com patas mais "espalhadas" na lateral ao se movimentar.


Como seria de esperar, os dentes do B. schultzi ajudaram os cientistas a estimar qual era sua dieta. Eles possuem formato recurvado, pontiagudo e achatado lateralmente, além de apresentar dentículos (serrilhas na superfície dentária) pequenos, todos exemplos de adaptação para devorar carne.

MIOLO EMBOLADO

Segundo Langer, a complicada situação evolutiva dos primeiros dinossauros e de seus primos "não dinossaurianos" fica menos esquisita se for comparada com a dos primórdios da evolução humana, que é igualmente complexa.
"No caso do homem, a gente tende a olhar as coisas pelo prisma de quem já sabe o suposto final da história, que é o aparecimento do Homo sapiens. O equivalente no caso dos dinossauros é ver os bichos mais conhecidos do Jurássico e do Cretáceo e achar que a evolução estava conduzindo os animais mais primitivos para atingir uma meta específica, o que não é verdade, lógico", explica ele.
Quando se esquece por um momento o destino de ambos os grupos, fica claro que nunca houve uma sequência do tipo "escadinha evolutiva" levando aos tiranossauros ou ao homem moderno, mas sim algo como arbustos genealógicos, ou seja, inúmeros grupos evoluindo mais ou menos ao mesmo tempo e experimentando estratégias ligeiramente diferentes de sobrevivência.
Essa situação embolada só muda com o fim do período Triássico, há 200 milhões de anos, quando os dinos propriamente ditos deslancham de vez como o mais importante grupo de vertebrados terrestres, enquanto muitos de seus parentes somem durante um evento de extinção em massa (talvez ligado a grandes erupções vulcânicas).
Não está claro o porquê de os dinos terem escapado dessa hecatombe para reinar no Jurássico. Langer cita algumas possibilidades: a sua postura bípede e ereta, que lhes conferia especial agilidade; a presença de estruturas semelhantes a penas rudimentares, ajudando-os a conservar melhor o calor do corpo; e a eficiência respiratória, teoricamente similar à das aves modernas, ideal para extrair o máximo possível de oxigênio da atmosfera pobre nesse gás do fim do Triássico.

Seja como for, é inegável que as extinções em massa foram cruciais para moldar os padrões da evolução dos dinos. Eles surgem depois da maior de todas elas, a do Permiano, há 250 milhões de anos, tornam-se dominantes após a do Triássico e são esmagados pela grande extinção do Cretáceo, há 65 milhões de anos, após a qual apenas os dinossauros avianos –ou seja, os ancestrais das aves atuais– sobrevivem, analisa Langer. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Exército de terracota da China pode ter influência grega, dizem arqueólogos

Da BBC
Exército de Terracota em Xian, na China (Foto: Maros M r a z/Wikimedia/Creative Commons)Exército de Terracota em Xian, na China (Foto: Maros M r a z/Wikimedia/Creative Commons)















Uma pesquisa revelou que o contato entre os chineses e os ocidentais pode ter acontecido mais de 1500 anos antes da chegada do explorador Marco Polo.
Arqueólogos descobriram que os gregos podem ter sido os inspiradores das famosas esculturas do exército de Terracota - conjunto de estátuas, encontradas a 4 metros de profundidade, que reproduzem em tamanho real os soldados do imperador da China Qin Shi Huangdi.
Eles disseram ainda que os escultores chineses podem ter sido treinados por artesãos gregos.
A viagem de Marco Polo à China foi documentada pela primeira vez no século 13, mas historiadores chineses identificaram vestígios que revelam que membros do Império Romano teriam visitado o país durante o segundo e terceiro séculos da Era Cristã.
"Agora temos provas que o Primeiro Imperador da China manteve contato com o ocidente antes da abertura da Rota da Seda - via comercial que ligava a China ao Mar Mediterrâneo e à Europa. É bem anterior ao que tínhamos pensado", disse a arqueóloga Li Xiuzhen.
Vestígios de DNA europeu foram encontrados na província chinesa de Xinjiang, o que pode significar que ocidentais viveram e morreram por lá antes e durante o governo do Primeiro Imperador.
Mudança de estilo
Os oito mil soldados do Exército de Terracota foram descobertos em 1974 por fazendeiros chineses e estavam a menos de um quilômetro da tumba do imperador Qin Shi Huang.

O estilo das peças contraria a tradição da época que era construiur esculturas mais simples, com cerca de vinte centímetros de altura e não figuras humanas em tamanho real.
A explicação para essa mudança radical na habilidade e no estilo, segundo Xiuzhen, é que a influência deve ter vindo de fora da China. "Agora acreditamos que o Exército de Terracota, além de esculturas de bronze encontradas, podem ter sido inspiradas pela arte grega", explicou.
O professor Lukas Nickel, da Universidade de Viena, diz que as estátuas de acrobatas de circo encontradas recentemente na tumba do Primeiro Imperador comprovam a teoria.
Ele acredita que Qin Shi Huang foi inspirado pelas estátuas gregas que chegaram à Ásia Central no século seguinte ao reinado de Alexandre, o Grande (que morreu em 323 a.C.). "Um escultor grego pode ter treinado os artesãos locais", disse.
Mais descobertas
As provas não pararam por aí. Os arqueólogos descobriram que o conjunto que forma a tumba do Primeiro Imperador é bem maior do que se pensava e duzentas vezes maior do que o Vale dos Reis, no Egito.

Foram encontrados também restos mutilados de mulheres, que seriam importantes concumbinas do Primeiro Imperador, além do crânio de um homem atravessado por uma flecha.
As investigações levam a crer que o crânio era do filho mais velho do Primeiro Imperador, que teria sido assassinado durante uma luta pelo poder após a morte do pai.
As novas revelações fazem parte do documentário "A maior tumba na Terra" (The Greatest Tomb on Earth), uma produção conjunta da BBC e National Geographic.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mudança na órbita da Terra provocou migrações de homens pré-históricos

Do UOL, em São Paulo
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  • Reprodução/Natural History Museum
    Antigos humanos saíram da África para o resto do mundo
    Antigos humanos saíram da África para o resto do mundo
"Berço da humanidade", a África é o continente primordial da história humana na Terra. Os cientistas, contudo, não entendiam exatamente o motivo de as populações terem migrado do continente para o resto do mundo. Um estudo publicado nesta quarta (21) pela revista Nature dá pistas sobre o que ocorreu no planeta naquela época.
De acordo com a pesquisa conduzida por Axel Timmermann e Tobias Friedrich, da Universidade do Havaí, a dispersão de humanos da África para o restante da Terra ocorreu em quatro grandes ondas distintas nos últimos 125 mil anos. Todas, contudo, estão conectadas a mudanças no clima terráqueo ocasionadas porvariações na órbita que deixaram o planeta mais gelado.
Estudos anteriores já avaliavam a possibilidade de mudanças climáticas impulsionadas por variações orbitais terem influenciado a dispersão doHomo sapiens para fora da África. Faltavam, contudo, dados concretos sobre situações climáticas e datações de fósseis para corroborar a teoria.
Tobias Friedrich
Esta imagem mostra ocupação populacional há 80 mil anos; áreas em vermelho mais escuro contêm por volta de 28 indivíduos por km quadrado
Agora, a equipe de pesquisadores construiu modelos numéricos que quantificam os efeitos de antigas mudanças climáticas e no nível do mar na migração global dos últimos 125 mil anos. Os modelos identificam ondas grandes de migração glacial pela Península Arábica e pela região do Levante nos seguintes períodos: 106 mil a 94 mil, 89 mil a 73 mil, 59 mil a 47 mil e 45 mil a 29 mil anos atrás. 
Os resultados se aproximam bastante aos dados arqueológicos e a fósseis já encontrados. A descoberta mostra que as mudanças climáticas ocasionadas por alteração na órbita da Terra tiveram um papel crucial para moldar a distribuição populacional no mundo. Além disso, estima que o Homo sapiens chegou quase simultaneamente à Europa e à China entre 90 mil e 80 mil anos atrás.

As populações pelo mundo

A revista Nature também publicou nesta quarta-feira uma vasta pesquisa que mostra a influência global do continente africano e que busca entender como funcionaram as migrações da África. Em três publicações diferentes, cientistas se debruçaram sobre o genoma de 280 diversas populações ao redor do mundo, na maioria de grupos que não tinham sido alvos de grandes estudos.
Um estudo conduzido por David Reich, de Harvard, e colegas sequenciou genomas de 300 pessoas de 142 diferentes populações pouco estudadas, na maioria pouco pesquisadas no campo científico. Os cientistas notam que a população que deu origem aos humanos atuais começou a divergir pelo menos há 200 mil anos.
Já a pesquisa que teve como autor Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, sequenciou o genoma de 83 aborígenes australianos e 25 indivíduos das terras altas da Papua Nova Guiné. Os dados apontam que os ancestrais dos aborígenes e da Papua Nova Guiné divergiram de populações euro-asiáticas entre 51 mil e 72 mil anos atrás. Ainda foram identificados materiais genéticos de antigos humanos, como os denisovans e de um grupo hominídeo desconhecido.
Outro estudo feito pelos cientistas Luca Pagani e Mait Metspalu, do Estonian Biocentre, descobriu que parte do genoma dos atuais moradores de Papua Nova Guiné mostram ligação com uma população que divergiu dos africanos mais cedo dos que os eurasianos. A descoberta fomenta evidências para uma onda de migração da África há 120 mil anos que levou ao povoamento da Papua Nova Guiné.
Os estudos são novas peças encaixadas no quebra-cabeça da evolução do homem pelo mundo em migrações da África, mas ainda há muitas perguntas sobre a colonização humana pelo mundo.

domingo, 11 de setembro de 2016

Chega de humanos às Américas

Ciência

Estudo descarta chegada de humanos às Américas pelo Estreito de Bering 

Pesquisa aponta que rota só seria 'biologicamente viável' mais de 400 anos após chegada dos primeiros povos; hipótese é de caminho pela orla do Pacífico

Por: Estadão Conteúdo
10/08/2016 - 20h49min | Atualizada em 10/08/2016 - 20h53min
Estudo descarta chegada de humanos às Américas pelo Estreito de Bering  Ver Descrição/Ver Descrição
Estreito de BeringFoto: Ver Descrição / Ver Descrição
A principal teoria para explicar como os humanos chegaram às Américas é inviável do ponto de vista biológico, de acordo com um novo estudo realizado por um grupo internacional de cientistas e publicado nesta quarta-feira na revista Nature.
Por muito tempo, a ciência considerou que a rota mais provável das populações que saíram da Sibéria e chegaram ao atual Alasca para se espalharem pelo continente americano, há pelo menos 13 mil anos, teria sido uma ponte terrestre que ligava a Ásia à América do Norte, onde hoje fica o Estreito de Bering.
Com a última glaciação chegando ao fim, a retração de duas enormes geleiras que cobriam essa área teria formado um corredor — na região oeste do atual Canadá —, que teria permitido a passagem dos povos asiáticos, antes que a elevação do nível do mar deixasse o caminho submerso, formando o Mar de Bering.
O novo estudo, no entanto, aponta que o corredor entre as geleiras, formado há 15 mil anos, não poderia ter sido atravessado antes de 12,6 mil anos atrás, já que não era colonizado por plantas e animais, impossibilitando a longa viagem migratória. A conclusão da pesquisa é que esse não foi o caminho dos primeiros povos que chegaram à América, já que existem vestígios que confirmam a presença humana no continente há pelo menos 13 mil anos.
De acordo com os autores do estudo, coordenado por Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), a hipótese mais plausível agora é que os povos da Ásia tenham migrado para a América viajando ao longo da costa do Oceano Pacífico - pela orla, ou por mar. Além dos pesquisadores dinamarqueses, o grupo inclui cientistas do Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.
— Embora o corredor físico já estivesse aberto há 13 mil anos, apenas vários séculos depois tornou-se possível usá-lo como passagem. Isso significa que os primeiros povos a entrar nas Américas devem ter tomado uma rota diferente. Eles simplesmente não poderiam passar pelo corredor, como foi alegado por muito tempo — declarou Willerslev. — O que ninguém havia estudado até agora é quando o corredor se tornou biologicamente viável. Sem plantas e animais disponíveis, como eles poderiam ter sobrevivido à longa e difícil viagem por aquele caminho?
O cientista afirmou, no entanto, que a passagem pode ter sido usada mais tarde, em migrações mais recentes.
Análise genética
Para descobrir que não existiam plantas ou animais no corredor por onde teria passado a onda migratória, os cientistas analisaram os sedimentos no fundo dos lagos Charlie e Spring, nas províncias de British Columbia e Alberta, no Canadá. As duas regiões são as últimas áreas do corredor a terem ficado livres do gelo que o bloqueava.
A partir dos sedimentos locais, os cientistas conseguiram reconstruir a história do ambiente local, analisando o DNA de animais e plantas que viveram ali no passado. A análise demonstrou que a paisagem só começou a ser colonizada por vegetação há 12,6 mil anos. Só a partir de então começaram a aparecer animais, incluindo bisões e mamutes, que foram essenciais na dieta dos caçadores que migraram para as Américas.
Com a hipótese da migração pelo corredor descartada, os cientistas acreditam que o caminho mais provável para os primeiros colonizadores das Américas tenha sido uma travessia ao longo da orla do Oceano Pacífico, caminhando pelas margens livres de gelo e expostas pelos baixos níveis do mar naquela época, ou por navegação costeira.
A hipótese, no entanto, será de difícil confirmação, porque as linhas costeiras da América do Norte naquela época foram inundadas com a elevação do nível do mar, após o fim da última glaciação, deixando as evidências arqueológicas submersas.
*Estadão Contéudo

terça-feira, 17 de novembro de 2015

RELIGIÕES E TERRORISMO: ALGUMA RELAÇÃO?


Por Alipio De Sousa Filho, Cientista Social, professor da UFRN
Não é difícil ao ateu ou ao agnóstico considerar que seus posicionamentos estão em vantagem, do ponto de vista filosófico ou sociológico, em relação aos posicionamentos religiosos, e também do ponto de vista político-ético-moral: não pertencer a nenhuma das religiões existentes, não professar a crença em nenhuma divindade, não se deixar dominar por crenças sem fundamento, torna possível uma posição neutral, relativamente aos pontos de vistas religiosos, na análise política dos fatos e na construção de posições sobre o que queremos como ambiente e vida coletiva para todos os diversos seres humanos em nossas diversas sociedades.
Refletir sobre a vida e o mundo sem ideias religiosas na mente é uma das maneiras de experimentar o que propriamente pode ser chamado de pensar, pois livre das amarras nas quais as ideias religiosas se constituem. Pensar livremente, deixar o pensamento criar seus próprios conceitos, ideias, sem a interferência de ideais que lhe são exteriores, que lhe precedem e que se impõem como verdades às quais não se pode desobedecer, é o único modo de efetivamente o ser humano produzir conhecimento, novidades, tornar viva a ação da reflexão por meio da abstração cognitiva. Tudo o que não seja isso é pura perpetuação de pontos de vista estabelecidos, repetição dogmática, em obediência ao que se crê imutável, infalível. Em grande medida, é isso que são as religiões. Diferentemente de outras ideias (científicas, filosóficas, políticas), as ideias religiosas não admitem contestação, não admitem ser questionadas e substituídas. Elas não são propriamente ideias, são crenças. Os modos de pensar e saberes não religiosos admitem sua própria contestação, sua reformulação. As crenças religiosas são refratárias à reflexão, ao questionamento, a toda problematização. Não são propriamente um pensar.
O ateísmo ou agnosticismo são pontos de vistas vantajosos também porque podem pensar a própria existência das religiões como fenômenos humanos – o que não quer dizer de modo algum “uma necessidade humana” –, pois são fenômenos sociais, e, assim, defendê-las indistintamente em seus direitos de existir, mas, diferentemente do que pretende cada uma delas: defendendo o direito de todas existirem na coexistência do pluralismo religioso, mas, ao mesmo tempo, sem a permissão para nenhuma delas rebaixar a outra e rebaixar outros tantos direitos daqueles que não professam qualquer de suas crenças. E sem que nenhuma possa reivindicar avançar sobre o Estado para impor suas crenças à sociedade por meio de ente que, público, não pode representar nenhuma delas em particular. O Estado funciona (ou, por definição, deve funcionar) como o ateu ou o agnóstico: situar-se em posição neutral que não permita o domínio de crenças religiosas prevalecer em suas ações políticas, de produção de conceitos, ideias, leis, normas.
O filósofo esloveno Salvoj Zizek estava certo quando escreveu anos antes que “o ateísmo é um legado europeu pelo qual vale a pena lutar”. É claro, a Europa da tese de Zizek é a moderna, a Europa contemporânea, não é aquela que impôs a várias partes do mundo seu cristianismo, usando chicotes, como receitavam os jesuítas e os calvinistas (um deles escreveu que, no Brasil, o cristianismo teria que vestir os corpos indígenas nus nem que fosse “à coup de fouet” – a chicotadas. Isso foi no século XVII. O ateísmo veio depois. Mas, sem discordância com o filósofo, de fato, a posição ateísta tornou possível não apenas que o Estado moderno se tornasse laico – a laicidade é uma forma de “ateísmo” ou “relativismo a-religioso” – mas também tornou possível a própria proteção do Estado aos que escolhem adotar crenças religiosas: tornando a esfera pública democrática “um espaço público seguro para os que creem” (Zizek).
Mas as diversas correntes religiosas, igrejas e crentes não são agradecidos com os posicionamentos modernos, laico, secularista, relativista, em grande medida influentes nas ações do Estado. Todas elas querem o Estado para si, um Estado que favoreça suas posições, crenças. E sempre em nome de uma “verdade” que é “propriedade particular” de cada uma delas. No Brasil, hoje, vemos a ofensiva dos cristãos conservadores, evangélicos e católicos, cobrando do Estado que abandonem suas políticas emancipatórias de reconhecimento de direitos e demandas de gays (lgbt), mulheres, jovens, que consideram atentados ao que chamam de “família cristã”, “educação moral da família”, ameaçadas pelo que – numa inversão cínica – nomearam “ideologia de gênero”.
Na realidade, todo pensamento religioso pratica seu “terror”, aterroriza o pensamento, atemoriza o pensar e as pessoas, com suas imposições, exigências. E, por essa razão, não se torna estranho que um bom número daqueles que adotam crenças religiosas pense a vida e o mundo de uma maneira dogmática, autoritária, intransigente, e exerça seu “terrorismo” ideológico sobre os outros. Visando impor suas visões, sem admitir questionamentos. Em maior ou menor medida, todas as religiões praticam, seu terrorismo particular sobre seus próprios membros e tentam fazer o mesmo com todos os demais que não as acolhem. Como diriam os mais jovens hoje, “tocam o terror” para impor suas convicções, seus dogmas, suas crenças arbitrárias. Sabe-se como nas famílias – de todas as religiões – crianças, jovens e adultos são fustigados com as cobranças diárias de seguirem crenças, dogmas, valores, muitas vezes em contrário aos seus desejos, ideias, escolhas. Impondo-se condutas morais, reprimindo desejos, censurando opiniões etc. Ainda que tudo possa parecer e aparecer como adesão espontânea, história familiar ou comunitária. Para situar um único exemplo, são muitos os casos de filhos e filhas gays expulsos de suas casas ou violentamente submetidos a regimes de vigilância e sujeição à autoridade familiar em nome de convenções religiosas.
Passar desse “terror”, que persegue pensamentos e pessoas, para o terrorismo assassino, que executa, elimina, mata pessoas, não é algo difícil, não é algo exclusivo de nenhuma religião e não é algo que ainda não tenha ocorrido na história de diversos povos e de todas as religiões. Talvez excluídas dessa história poucas delas, muito mais próximas de filosofias que propriamente religiões. O judaísmo nasceu “tocando o terror” em todos os povos que não aderiram às suas convicções, maldizendo todas as “divindades” que não eram o Javé hebraico, amaldiçoando toda “idolatria” aos “deuses falsos”. E o que não ficou apenas em palavras. É ler o Antigo Testamento e constatar! Seu herdeiro direto, o cristianismo seguiu a mesma linha: criou suas Cruzadas, sua Inquisição, a evangelização colonizadora (que matou grupos humanos inteiros; os povos indígenas das Américas são um exemplo!) e, hoje, permanece fornecendo seus fundamentalismos de muitos estilos, não menos terroristas em palavras e atos. Nos EUA, muitos casos de tiroteios em escolas, cinemas e ruas são realizações de cristãos fundamentalistas em nome da fé. Os mulçumanos, desde o ano 622, fazem suas “jihads” contra populações locais que vão encontrando e chamando de “infiéis”, por não professarem a crença islâmica. Tão logo após a morte de Maomé, avançaram sobre diversos territórios e, no século 8, sobre o norte da África e península Ibérica, submetendo populações locais ao Corão por meio da espada. Os “califas” do DAESH (termo que, num jogo de palavras em árabe, significa “alguém que pisa e esmaga”, e, por esse significado, rapidamente substituído pelos seus próprios militantes por um outro nome: o autonomeado “Estado Islâmico” de hoje, ou ISIL, ISIS, EI) não ficam nada a dever aos califas de antes. Como antes, os “califas” do EI executam pessoas, enterram crianças vivas, escravizam sexualmente mulheres, degolam seus “inimigos”.
Estranho, então, que ateus, agnósticos, opiniões de esquerda, anarquistas, queers, descolonizadores, entre outros, queiram agora “relativizar” e “ponderar”, como “consequências” da história (sobretudo “consequências” das presumidas ações das chamadas “potências ocidentais”), os recentes casos, nos últimos anos, de atentados terroristas praticados pelo chamado “Estado Islâmico” e pela Al-Qaeda. Ainda, fala-se do “risco” das “comunidades muçulmanas” pagarem um preço alto, ao serem todos os muçulmanos “confundidos” como cúmplices dos terroristas, seus apoiadores, financiadores, protetores. E mais estranho ainda porque pretendem com isso parecer críticos das potências imperialistas e capitalistas que seriam as responsáveis pela gênese do terrorismo de facções do islamismo fundamentalista. Alguns que são verdadeiros populistas de um oportunista “amor” aos palestinos, aos muçulmanos – amor de última hora!
Que existem populistas de direita, na Europa e em outras partes, que aproveitam o momento para sua pregação xenófoba, racista e islamofóbica, não há dúvida. Mas eles são uma minoria. E isso já ficou mais do que provado em mais de uma circunstância. Todavia, não se pode pedir às populações europeias, americana e igualmente de outros países atingidos (incluindo aquelas do mundo árabe e mulçumano) e aos seus governos que não acionem medidas e suas forças militares para combater aqueles que lhes ameaçam e à vida de seus cidadãos. Aqui, não há que se perder o foco da análise: a facção sunita Estado Islâmico não é flor que se cheire. Ela é mortal! Ela é mesmo “daesh”! O Estado Islâmico é o ápice do terrorismo das religiões! É apenas o ápice do que estas praticam em suas ações cotidianas. Dizer que o islamismo ou que os muçulmanos não podem ser “confundidos” com terrorismo é uma besteira sem tamanho. Ninguém os confunde! Mas pode tornar-se uma desfaçatez quando isso sair da boca de certos islâmicos. As mesquitas, pelo mundo, estão cheias de pregadores fundamentalistas radicais, doutrinadores, difundindo ideias obscurantistas e ódios contra um presumido “Ocidente infiel”. Desejosos de transformar o mundo inteiro em mundo mulçumano. Delírio que tem levado milhares de jovens – desesperados, marginalizados, excluídos, tudo isso é verdadeiro! – ao delírio ainda maior de fazer surgir esse mundo impondo-o pela via da força bruta, das armas, da morte. Aliás, delírio que somente vai às suas últimas consequências por outro delírio: aquele produzido pelas drogas que seus militantes utilizam em suas ações: heroína, ópio, cocaína, LSD, como já se sabe.
Assim, há que se evitar cair em tergiversações e enganos. Não se trata, pois, de substituir a crítica ao terrorismo das religiões, nas suas diversas formas, por uma pretendida preocupação com as atitudes de “cristianismofobia”, “islamofobia”, “judaismofobia”, pois o problema não está aí: o problema esteve sempre e permanecerá sempre enquanto as religiões pretenderem impor suas crenças particularistas a todos os demais na sociedade, e mais ainda quando isso for buscado pela via do terrorismo assassino. Se agora isso se apresenta na forma das ações do DAESH, pois seja ele o alvo de todos os combates para eliminar suas ações! E isso não é islamofobia!
É por essa razão que, aos ateus e agnósticos, mas a todos os demais, enfim, cabe condenar os atos terroristas – ideológicos ou dos assassinatos e atentados – de todas as religiões, quaisquer que sejam. A grande mentira de todas as religiões é pretender fazer crer que desejam unicamente o bem, a paz e a salvação de todos, quando o fazem desde que “todos” aceitem a sujeição às suas crenças e, para algumas delas, apenas às suas crenças. Como escreveu o filósofo francês André Comte-Sponville, “o bem não precisa de Deus” e “pode-se ter profunda espiritualidade sem religião”.
Fonte: Carta Potiguar