Mostrando postagens com marcador Guerras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerras. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de junho de 2012

Os 12 conflitos armados que mais mataram pessoas


imagem: El Tres de Mayo – do pintor Francisco Goya (Wikimedia Commons)
Os humanos se envolvem em disputas territoriais desde a Idade da Pedra, é verdade, mas a melhora tecnológica das “máquinas de matar” ao longo do último milênio fez com que os conflitos fizessem muito mais vítimas fatais em menos tempo – inclusive gente que não tinha nada a ver com a briga. Nesta lista, confira as guerras, revoltas e rebeliões que mais dizimaram vidas ao longo da história.
12 – Guerra dos Trinta Anos
Onde: Império Romano (Ásia, Europa e um pedacinho da África)
Quando: de 1618 a 1648
Número estimado de mortos: 3.000.000 a 11.500.000 pessoas
Esta versão “de bolso” de uma Guerra Mundial começou como um conflito religioso e foi tomando feições mais complexas até ninguém saber mais por que estava brigando. Muitos dos exércitos tinham mercenários em suas frentes de batalha, que trocavam de lado sempre que a oportunidade parecia interessante.
11 – Guerras Napoleônicas
Onde: Europa e ilhas nos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico
Quando: de 1804 a 1815
Número estimado de mortos: 3.500.000 a 6.500.000 pessoas
O francês Napoleão Bonaparte estava bombando nas conquistas de territórios na Europa, mas não deu conta de lutar no inverno russo – muitos soldados viraram picolé e outra boa parte morreu de fome. A estratégia russa era queimar as cidades pelas quais o exército invasor iria passar para evitar que fossem saqueadas e fornecessem recursos aos inimigos.
10 – Segunda Guerra do Congo
Onde: República Democrática do Congo, África
Quando: de 1998 a 2003
Número estimado de mortos: 3.800.000 a 5.400.000 pessoas
Este é o conflito mais recente da lista. A Guerra acabou em um acordo entre as partes, mas a população sofre com as consequências até hoje. Em 2004cerca de 1.000 pessoas morreram diariamente de desnutrição e doenças que seriam facilmente tratáveis se a região não estivesse tão debilitada.
9 – Guerra Civil Russa
Onde: Rússia
Quando: de 1917 a 1921
Número estimado de mortos: 5.000.000 a 9.000.000 pessoas
Ainda que se diga que a este conflito acabou em 1921, a verdade é que ele se prolongou por mais dois anos. O objetivo da revolta era acabar com a monarquia, mas os grupos envolvidos divergiam sobre que forma de governo seria implantada com o fim dos czares. Levou a melhor o pessoal do partido bolchevique, que estabeleceu o primeiro governo inspirado no socialismo de Karl Marx.
8 – Revolta Dungan
Onde: China
Quando: de 1862 a 1877
Número estimado de mortos: 8.000.000 a 12.000.000 pessoas
Os chineses da etnia Dugan (também chamada de Hui, de origem persa) se revoltaram e foram derrotados – os que sobraram desse conflito foram para territórios que hoje são parte da Rússia, Cazaquistão e Quirguistão.
7 – Investidas de Tamerlão
Onde: Ásia
Quando: de 1369 a 1405
Número estimado de mortos: 15.000.000 a 20.000.000 pessoas
Não se conquista um território sem matar umas pessoas, não é mesmo? Tamerlão e seus exércitos dizimaram muita gente na Ásia para expandir o Império Timúrida, que chegou a ter mais de 5,5 milhões de quilômetros quadrados. Saiba mais sobre Tamerlão e outros grandes conquistadores neste infográfico.
6 – Primeira Guerra Mundial
Onde: Todos os continentes – nem todos foram atacados, mas países de todos os continentes tomaram parte (e morreram) nesta guerra.
Quando: de 1914 a 1918
Número estimado de mortos: 15.000.000 a 65.000.000 pessoas
A estimativa mais alta de mortos (65 milhões) contabiliza as pessoas que pereceram da Gripe Espanhola, uma variação do vírus H1N1 (que no século XXI conhecemos como Gripe Suína). A Gripe Espanhola se espalhou generalizadamente pelo mundo no começo do século XX e a epidemia “pegou carona” na 1ª Guerra.
5 – Rebelião Taiping
Onde: China
Quando: de 1815 a 1864
Número estimado de mortos: 20.000.000 a 60.000.000 pessoas
Esta “rebelião” foi na verdade uma grande guerra civil no sul da China, liderada por um cristão, Hong Xiuquan, que dizia ser o irmão mais  novo de Jesus Cristo (pois é…).
4 – Disputa entre a dinastia Ming e QingOnde: China
Quando: de 1616 a 1662
Número estimado de mortos: 25.000.000 pessoas

Os Qing vieram do nordeste da Grande Muralha da China e eram vassalos dos governantes da dinastia Ming (aquela dos famosos vasos de porcelana). Houve uma revolta de camponeses que depôs os Ming e criou a Dinastia Shun – só que ela não durou muito tempo: os Qing dominaram a capital Beijing e assumiram o poder dizendo que estavam restabelecendo a “ordem imperial”. Mas na verdade eles estavam era pegando o poder pra eles mesmos.
3 – Investidas MongóisOnde: Ásia e leste europeu
Quando: de 1207 a 1472
Número estimado de mortos: 30.000.000 a 60.000.000 pessoasForam 265 anos de invasões empreendidas pelo povo mongol por toda a Ásia e parte da Europa. Haja fôlego para tanta briga! A recompensa: um império de mais de 12 milhões de quilômetros quadrados.
2 – Rebelião de An Lushuan
Onde: China
Quando: de 755 a 763
Número estimado de mortos: 33.000.000 a 36.000.000 pessoas
O general An Lushuan, durante a dinastia Tang, resolveu se declarar imperador de uma parte da China, o que não agradou a dinastia que reinava sobre o país. Foram 8 anos de confrontos que continuaram mesmo depois da morte de An Lushuan – e terminaram com a subjugação dos rebeldes e afirmação, mesmo que frágil, da dinastia Tang.
1 – Segunda Guerra MundialOnde: Todos os continentes - nem todos foram atacados, mas países de todos os continentes tomaram parte (e morreram) nesta guerra.
Quando: de 1939 a 1945 – 6 anos
Número estimado de mortos: 40.000.000 a 72.000.000 pessoas
Entre as vítimas deste conflito, 62% eram civis – ou seja: pessoas que não tinham nada a ver com a briga além do fato de estarem lá (e, bem, serem judeus, ciganos, homossexuais, terem uma deficiência…). Além das armas de fogo convencionais, nessa guerra rolou gás mostarda, testes com pessoas em campos de concentração e a última novidade do momento: bombas nucleares.
Livia Aguiar
[Fonte:  Revista Superinteressante]
 

domingo, 3 de junho de 2012

Foto da guerra completa 40 anos e marca vida da vítima

Publicação: 03 de Junho de 2012 às 00:00

Nenhuma guerra produziu tantas imagens e mexeu com os sentimentos e a opinião pública mundial quanto a Guerra do Vietnã (1959-1975). E nenhuma foto, entre os milhares de registros dos campos de batalha, ficou tão profundamente gravada na memória das gerações que vivenciaram o horror daquele conflito quanto a das crianças correndo por uma estrada, tentando escapar de um bombardeio. No centro da cena, uma menina magra, nua, desesperada, ferida.  Esta semana, aquela foto estará completando 40 anos.

Era 8 de junho de 1972, no Vietnã, e o fotógrafo Huynh Cong 'Nick' Ut viu algumas crianças correndo, tentando escapar de seguidas explosões na vila de Trang Bang, na província de Tay Ninh. Ele não pensou duas vezes antes de fotografar a cena

A garotinha de 9 anos, nua, gritando "muito quente, muito quente", enquanto tentava escapar das bombas, era Kim Phuc entre o irmão mais novo, Phan Thanh Phouc, que perdeu um olho, e dois primos, que aparecem de mãos dadas, Ho Van Bon e Ho Thi Ting.

A imagem tornou-se um dos símbolos da Guerra do Vietnã. Kim Phuc está com 49 anos e diz que a foto a perseguiu a vida inteira. "Eu realmente quis escapar daquela menina", diz Phan Thi Kim Phuc. "Eu queria escapar dessa imagem, mas parece que a foto não me deixou escapar", disse ela, que hoje comanda uma fundação para ajudar crianças vítimas da guerra. "Eu fui queimada e me tornei uma vítima da guerra, mas crescendo, tornei-me outro tipo de vítima", completa ela.

Ao relembrar o momento em que a foto foi tirada, ela diz ter ouvido fortes explosões e que o chão "tremeu". "Eu vou ficar feia, não serei mais normal. As pessoas vão me ver de um jeito diferente", ela diz ter pensado na hora, ao perceber que sua mão e braço esquerdos estavam queimados.

Em choque, ela correu atrás seu irmão mais velho e não se lembra de reparar nos jornalistas estrangeiros reunidos enquanto corria na direção deles, gritando. Depois disso, ela perdeu a consciência.

DivulgaçãoFoto do grupo de criança tentando escapar de um bombardeio de uma aldeia vietnamita, em 1972, foi uma das imagens mais chocantes do conflito nosudoeste asiático. 
Foto do grupo de criança tentando escapar de um bombardeio de uma aldeia vietnamita, em 1972, foi uma das imagens mais chocantes do conflito no sudoeste asiático.
 
Eu chorei quando havi correndo", diz Ut, que cobria a guerra pela Associated Press. "Se eu não a ajudasse e alguma coisa acontecesse que a levasse a morte, acho que eu me mataria depois", comenta o fotógrafo, que nunca mais deixou de falar com Phuc. Ele a deixou em um pequeno hospital e fez os médicos garantirem que tomariam conta da garota.

A foto foi publicada e, alguns dias depois, outro jornalista, Christopher Wain, um correspondente britânico que tinha dado água de seu cantil a Phuc, descobriu que ela tinha sobrevivido. A garota tinha sido transferida para uma unidade americana em Barsky, única instalação em Saigon equipada para lidar com ferimentos graves.

"Eu não tinha ideia do que tinha acontecido comigo", diz Phuc. "Acordei no hospital com muita dor e com enfermeiras ao meu redor. Acordei com um medo terrível". "Toda manhã, às 8 horas, as enfermeiras me colocavam em uma banheira com água quente para cortar toda a minha pele morta. Eu só chorava e quando eu não aguentava mais, desmaiava", relembra ela que hoje vive com o filho e o marido, Bui Huy Toan, no Canadá.

Depois de vários enxertos de pele e cirurgias, Phuc foi finalmente autorizada a deixar o hospital, 13 meses após o bombardeio. Ela tinha visto foto de Ut, que até então tinha ganhado o Prêmio Pulitzer, mas ainda não sabia do alcance e poder da imagem.

"Fico muito feliz em saber que ajudei Kim", disse Ut, que ainda é fotógrafo da Associated Press. "Eu a chamo de minha filha", brinca. "A maioria das pessoas conhece minha foto, mas sabe pouco sobre minha história", diz Phuc. "Fico agradecida por poder aceitar essa foto como um presente. Com ela, eu posso usá-la para a paz."

(Com Associated Press)

o que foi

A Guerra do Vietnã foi um conflito armado ocorrido no Sudeste Asiático entre 1959 e 30 de abril de 1975. A guerra colocou em confronto, de um lado, a República do Vietnã (Vietnã do Sul) e os Estados Unidos, com participação efetiva, porém secundária, da Coreia do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia; e, de outro, a República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte) e a Frente Nacional para a Libertação do Vietname (FNL). A China, a Coreia do Norte e, principalmente, a União Soviética prestaram apoio logístico ao Vietnã do Norte, mas não se envolveram efetivamente no conflito.

Em 1965, os Estados Unidos enviaram tropas para sustentar o governo do Vietnã do Sul, que se mostrava incapaz de debelar o movimento insurgente de nacionalistas e comunistas, que se haviam juntado na Frente Nacional para a Libertação do Vietname (FNL). Entretanto, apesar de seu imenso poder militar e econômico, os norte-americanos falharam em seus objetivos, sendo obrigados a se retirarem do país em 1973 e dois anos depois o Vietnã foi reunificado sob governo socialista, tornando-se oficialmente, em 1976, a República Socialista do Vietnã.

Fonte: Jornal Tribuna do Norte

domingo, 25 de março de 2012

A Primeira Guerra Mundial ( 28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918)



ESPECIAL
VEJA, Agosto de 1914
Assassinato do arquiduque detona guerra na Europa –
Batalhas entre Tríplice Aliança e Tríplice Entente tomam continente de
assalto – Conflito já surge como a Grande Guerra da humanidade.


A fúria dos canhões: artilharia belga em ação contra os alemães
numa das primeiras batalhas desta nova guerra.

udo começou no fim do século passado, quando os destemidos líderes das potências do Velho Continente começaram a rodopiar seus malabares de fogo sobre um imenso barril de pólvora chamado Europa. Na Alemanha, o kaiser Guilherme II nutria uma ideia fixa: arrumar um lugar ao sol para as forças tedescas na inflamável corrida colonialista. Na França, o ardente desejo do comandante-em-chefe Joseph Joffre era vingar-se dos germânicos pela subtração dos territórios da Alsácia e Lorena. E na Rússia, o czar Nicolau II, faminto por conquistas militares, tentava recuperar todo o prestígio perdido na vergonhosa derrota para os japoneses em 1905. Esses sinais já indicavam ao mundo que as labaredas estavam muito próximas. Pois as manifestações pirofágicas dos mandachuvas – agora incitadas pela fagulha do assassinato do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, em junho último – finalmente fizeram explodir, neste ano da graça de 1914, o tão temido conflito bélico pan-europeu. Agora é guerra, não resta dúvida. Falta saber por quanto tempo (e por quantas partes do globo) essas chamas vão arder.

Amarrados por uma emaranhada rede de alianças, a maioria absoluta das nações europeias já toma parte nas hostilidades – seja como agressora, seja como presa dos pelotões armados. No escaldante teatro de operações, digladiam-se a Tríplice Aliança, encabeçada pela Alemanha e pelo império Austro-Húngaro, e a Tríplice Entente, que reúne Grã-Bretanha, França e Rússia. As primeiras manobras foram registradas pelos alemães, que, em 2 de agosto – um dia depois de sua declaração de guerra à Rússia e um dia antes da declaração de guerra à França –, invadiram o pequeno ducado de Luxemburgo. No dia 4, o exército da Alemanha marchou sobre a Bélgica, país que, apesar de sua neutralidade, foi atacado por estar no caminho germânico rumo à França. Com isso, a Grã-Bretanha, que inicialmente pretendia se manter distante da sentença dos canhões, declarou guerra à Alemanha. O tabuleiro da guerra estava montado.

Avanço dos teutônicos: alemães enfrentarão britânicos, franceses e russos.

Desde então, apenas no front ocidental, já se contabilizam 14 grandes batalhas deflagradas. As mais concorridas são as Batalhas das Fronteiras, que mobilizam mais de 1.250.000 soldados franceses e 1.300.000 alemães na região oriental da França e meridional da Bélgica. No front oriental, também é ensurdecedor o gritar das armas. Em 17 de agosto, 350.000 russos, divididos em dois exércitos, invadiram o Leste da Prússia pelo sul e pelo norte. A agressão inicial em Stalluponen foi repelida pelo exército alemão – que, contudo, capitulou em Gumbinnen, alguns dias mais tarde. Mas os germânicos já registraram um triunfo avassalador em Tannenberg, onde capturaram 95.000 soldados russos e mataram outros 30.000 – revés que levou o multiestrelado general Alexander Samsonov, comandante do Segundo Exército da Rússia, a cometer suicídio. Por seu altíssimo potencial incendiário, o conflito já recebe dos analistas políticos e militares a alcunha de "Grande Guerra", termo que outrora descrevera as contendas napoleônicas, mas que agora parece talhado à perfeição a esta fervorosa e intrincada carnificina.
• • •
O estopim em Sarajevo – Causa espanto pensar que um crime isolado cometido de forma solitária por um jovem extremista possa mergulhar o mundo todo numa guerra. Foi exatamente isso, porém, que ocorreu nas últimas semanas. No último dia 28 de junho, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, foi alvejado à queima-roupa em Sarajevo por um estudante sérvio, Gavrilo Princip, ligado à organização nacionalista Mão Negra. Contudo, pela demora na reação do império Austro-Húngaro, o atentado, que ceifou também a esposa do nobre, Sofia, não parecia tomar grandes dimensões, muito menos funcionar como a centelha que seria capaz de inflamar a Europa. Passaram-se três longas semanas até que o estafe do imperador Francisco José encaminhasse à Sérvia um ultimato. Nessa mensagem, além de acusar implicitamente o governo sérvio de estar envolvido no crime, Viena elencava uma série de exigências visando reforçar a soberania austro-húngara nos Bálcãs. Entregue no dia 23 de julho, o documento foi respondido pela Sérvia dois dias depois – e, para surpresa geral, contestado em apenas pequenas cláusulas. Em resumo, o governo sérvio, apesar de negar qualquer participação no atentado, aceitava as requisições e termos da carta. Mesmo assim, o império Austro-Húngaro decidiu pela declaração de guerra, no dia 28 de julho. E o efeito dominó não tardaria a chegar às demais nações europeias.

A hora em que tudo mudou: Principe (à dir.) é preso depois de matar o arquiduque.

Respeitando um tratado de amizade com a Sérvia, a Rússia logo anunciou a mobilização de seu gigantesco exército para a defesa dos eslavos. Por outro lado, a Alemanha, que já assinara um pacto com o império Austro-Húngaro, considerou a decisão russa um ato de guerra contra seus aliados, e declarou guerra à Rússia. Na verdade, o apoio do Reichstag alemão já havia sido sacramentado antes mesmo que o ultimato à Sérvia fosse enviado. Consultado pelo governo de Francisco José, os germânicos garantiram total suporte a Viena, qualquer que fosse o resultado da ação. Dando continuidade à sequência, a França, comprometida com Rússia também através de um tratado, conclamou guerra contra a Alemanha e, por tabela, contra o império Austro-Húngaro. Aqui, a cadeia poderia ter sido rompida: aliada dos gauleses por um pouco consistente pacto verbal, a Grã-Bretanha não se via obrigada a juntar-se à França na contenda.

Desde os anos 1870, os insulares propalavam aos quatro ventos sua política de "isolamento esplêndido", evitando interferir na política continental europeia. Entretanto, a marcha alemã na neutra Bélgica fez o primeiro-ministro Herbert Asquith resgatar um acordo assinado há 75 anos – o Tratado de Londres, pelo qual os britânicos se comprometiam a defender a Bélgica em caso de invasão –, e ingressar com as duas botas nas hostilidades. A entrada da Grã-Bretanha surpreendeu a Alemanha e fortaleceu as hostes da Tríplice Entente. As colônias Austrália, Canadá, Índia, Nova Zelândia e União da África do Sul ofereceram assistência militar e financeira aos aliados. Também o Japão, ligado aos britânicos por um tratado militar de 1902, declarou guerra aos germânicos, no dia 23 de agosto. O conflito já tinha, de fato, uma escala mundial, com repercussões sentidas muito além das fronteiras europeias.
• • •
Sonhos e devaneios - Das grandes forças do continente, apenas a Itália, ao menos por enquanto, opta pela posição de neutralidade. Apesar de signatária do tratado da Tríplice Aliança, junto com a Alemanha e com o império Austro-Húngaro, em 1882, os peninsulares também têm em vigor um pacto pouco conhecido com a França. Como o acordo da Tríplice Aliança prevê auxílio militar apenas em caso de guerras defensivas, a Itália, sorrateira, escusou-se da confraria. Observadores e analistas estrangeiros acreditam, contudo, que o real motivo da retirada italiana seja uma insatisfação com a influência austro-húngara nos Bálcãs, vista com preocupação pelos mandatários da Bota. Nos Estados Unidos, o presidente Woodrow Wilson tornou pública sua política de neutralidade e conclamou os cidadãos americanos, independentemente de suas origens, a não tomarem lado na guerra, de maneira a evitar conflitos internos no país. Mesmo com a ausência dessas potências, certamente a refrega cobrará como poucas outras o tributo de sangue de seus soldados – que, ironicamente, se veem engajados em um prélio comprado de terceiros por seus superiores.

Franceses em xeque: reservistas partem para o front, mas poucos apostam neles.

À exceção do primeiro-ministro britânico, para quem a pugna veio apenas para atrapalhar acordos comerciais, nenhum dos líderes das nações envolvidas está exatamente lamentando o conflito generalizado no Velho Continente. Ao contrário: a Grande Guerra pode ajudar a solucionar conflitos internos e potencializar os sonhos expansionistas e devaneios nacionalistas de diversos soberanos. Alguns deles, inclusive, estão finalmente levando a cabo manobras e estratégias que vêm sendo cuidadosamente desenhadas há anos, desde que a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) redefiniu as fronteiras do continente. É o caso do Plano XVII, da França, idealizado por Ferdinand Foch depois da humilhante derrota para a Prússia e abraçado com afinco por Joseph Joffre no ano passado. Pontuada pela vingança, a trama lança mão de quatro exércitos para não só recuperar a Alsácia e Lorena, anexadas pelos germânicos, como ainda invadir a Alemanha pelas florestas de Ardennes. Ultraofensivas, as manobras se apoiam em uma suposta verve combatente dos franceses. Nas primeiras semanas de combate, entretanto, provou-se que os gauleses estão completamente despreparados para a potencial invasão alemã via Bélgica. Seu poder de ataque também já está em xeque.

No lado da Rússia, apesar da relutância inicial do czar Nicolau II, a guerra contra o império Austro-Húngaro torna-se uma oportunidade ideal para recuperar o mito do exército "invencível", ferido pela aniquilação imposta pelos japoneses na Batalha de Tsushima, em 1905. Moscou espera também que a campanha ajude a desviar o foco dos problemas sociais internos. Para isso, dois cenários foram esboçados pelo estrategista Yuri Danilov: o Plano G, que prevê contragolpes em caso de mobilização total das forças alemãs contra os russos, e o Plano A, que dita o modus operandi russo se a Alemanha concentrar primeiro seus ataques à França. Nesse caso, a Rússia teria tempo para engendrar a invasão via Prússia oriental até a Alemanha central. O acachapante revés em Tannenberg diante dos alemães, contudo, pode desacelerar o ritmo das forças do czar.
• • •
Senhores das nações - Também está evidente que, quando o império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia, buscava reforçar sua posição na conturbada região dos Bálcãs, onde, apenas neste início de década, três guerras já foram travadas. O fervor nacionalista das pequenas nações que buscam se unir, sob a tutela de Moscou, em uma espécie de confederação pan-eslávica em nada agrada os austro-húngaros, que, ao lado dos turcos-otomanos, foram senhores dessas nações durante anos. A exemplo do que se verificou na Rússia, dois planos foram elaborados: o primeiro, o Plano B, que prevê só a guerra contra a Sérvia nos Bálcãs, e o Plano R, rascunhado para defender-se de um possível ataque russo. Nesse período de aurora dos combates, porém, é a Alemanha quem mais colhe frutos – graças às corretíssimas análises e estratégias do chamado Plano Schlieffen, arquitetado pelo finado conde Alfred Von Schlieffen.

Chucrute explosivo: a afiada artilharia alemã dá as cartas neste início de contenda.

Em primeiro lugar, porque a guerra veio em uma hora exata para o chanceler Bethmann Hollweg, que tem a inglória tarefa de ser a ponte entre o Reichstag dominado por 110 deputados socialistas e o teimoso e centralizador Guilherme II, ladeado por seu alto comando militar de extrema direita. As contendas adiaram por tempo indeterminado uma guerra civil que ele dava como certa. Para melhorar as coisas para o kaiser, a Grande Guerra oferece uma alternativa expansionista para a criação de um império germânico, sonho de Guilherme e de muitos militares, incomodados com o fato de estarem muito atrás das potências coloniais. Em segundo lugar, porque o sucesso do Plano Schlieffen no teatro de operações, agora tocado pelo general Helmuth Von Moltke, vem sendo expedito.

O exército alemão preparou-se fortemente para uma guerra em dois fronts, contra a França no leste e a Rússia no oeste. O conde Von Schlieffen calculou que o exército russo levaria ao menos seis semanas para se mobilizar, já que seu contingente monstruoso de soldados é orientado por paquidérmicas linhas de comunicação. Nesse ínterim, os alemães empreenderiam força total para nocautear a França em apenas algumas semanas; Paris seria conquistada e as forças invasoras realocadas para o front oriental. Quando os soldados alemães marcharam para a guerra, no dia 1º, o kaiser se despediu prevendo que em quatro meses tudo estará terminado. "Estarão todos de volta antes que comecem a cair as folhas das árvores", despediu-os Guilherme II. Ao que parece, tudo segue como o planejado. Em poucos dias de guerra, a Alemanha registrou vitórias notáveis contra franceses e russos. Ainda é muito cedo para cantar vitória, mas o combustível dos alemães parece estar longe de acabar.

Fonte: http://veja.abril.com.br/historia/