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terça-feira, 22 de maio de 2012

A carta do cacique Seatle ao presidente dos Estados Unidos

A Carta do Índio Cacique Seattle
Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz já mais de cento e cinquenta anos. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:
"Como podeis comprar ou vender o céu, a tepidez do chão? A idéia não tem sentido para nós.
    Se não possuímos o frescor do ar ou o brilho da água, como podeis querer comprá-los? Qualquer parte desta terra é sagrada para meu povo. Qualquer folha de pinheiro, qualquer praia, a neblina dos bosques sombrios, o brilhante e zumbidor inseto, tudo é sagrado na memória e na experiência de meu povo. A seiva que percorre o interior das árvores leva em si as memórias do homem vermelho.
        Os mortos do homem branco esquecem a terra de seu nascimento, quando vão pervagar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta terra maravilhosa, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs, os gamos, os cavalos a majestosa águia, todos nossos irmãos. Os picos rochosos, a fragrância dos bosques, a energia vital do pônei e do homem, tudo pertence a uma só família.
    Assim, quando o grande chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossas terras, ele está pedindo muito de nós. O grande Chefe manda dizer que nos reservará um sítio onde possamos viver confortavelmente por nós mesmos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Se é assim, vamos considerar a sua proposta sobre a compra de nossa terra. Mas tal compra não será fácil, já que esta terra é sagrada para nós.
    A límpida água que percorre os regatos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se vos vendermos a terra, tereis de lembrar a nossos filhos que ela é sagrada, e que qualquer reflexo espectral sobre a superfície dos lagos evoca eventos e fases da vida do meu povo. O marulhar das águas é a voz dos nossos ancestrais.
    Os rios são nossos irmãos, eles nos saciam a sede. Levam as nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se vendermos nossa terra a vós, deveis vos lembrar e ensinar a nossas crianças que os rios são nossos irmãos, vossos irmãos também, e deveis a partir de então dispensar aos rios a mesma espécie de afeição que dispensais a um irmão.
    Nós mesmos sabemos que o homem branco não entende nosso modo de ser. Para ele um pedaço de terra não se distingue de outro qualquer, pois é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo de que precisa. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, depois que a submete a si, que a conquista, ele vai embora, à procura de outro lugar. Deixa atrás de si a sepultura de seus pais e não se importa. A cova de seus pais é a herança de seus filhos, ele os esquece. Trata a sua mãe, a terra, e seus irmãos, o céu como coisas a serrem comprados ou roubados, como se fossem peles de carneiro ou brilhantes contas sem valor. Seu apetite vai exaurir a terra, deixando atrás de si só desertos. Isso eu não compreendo. Nosso modo de ser é completamente diferente do vosso. A visão de vossas cidades faz doer aos olhos do homem vermelho.
    Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e como tal, nada possa compreender.
Nas cidades do homem branco não há um só lugar onde haja silêncio, paz. Um só lugar onde ouvir o farfalhar das folhas na primavera, o zunir das asas de um inseto. Talvez seja porque sou um selvagem e não possa compreender.
    O barulho serve apenas para insultar os ouvidos. E que vida é essa onde o homem não pode ouvir o pio solitário da coruja ou o coaxar das rãs à margem dos charcos à noite? O índio prefere o suave sussurrar do vento esfrolando a superfície das águas do lago, ou a fragrância da brisa, purificada pela chuva do meio-dia ou aromatizada pelo perfume dos pinhos.
    O ar é precioso para o homem vermelho, pois dele todos se alimentam. Os animais, as árvores, o homem, todos respiram o mesmo ar. O homem branco parece não se importar com o ar que respira. Como um cadáver em decomposição, ele é insensível ao mau cheiro. Mas se vos vendermos nossa terra, deveis vos lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar insufla seu espírito em todas as coisas que dele vivem. O ar que vossos avós inspiraram ao primeiro vagido foi o mesmo que lhes recebeu o último suspiro.
    Se vendermos nossa terra a vós, deveis conservá-la à parte, como sagrada, como um lugar onde mesmo um homem branco possa ir sorver a brisa aromatizada pelas flores dos bosques.
    Assim consideraremos vossa proposta de comprar nossa terra. Se nos decidirmos a aceitá-la, farei uma condição: O homem branco terá que tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
    Sou um selvagem e não compreendo de outro modo. Tenho visto milhares de búfalos a apodrecerem nas pradarias, deixados pelo homem branco que neles atira de um trem em movimento.
    Sou um selvagem e não compreendo como o fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante que o búfalo, que nós caçamos apenas para nos mantermos vivos.
    Que será dos homens sem os animais? Se todos os animais desaparecem, o homem morreria de solidão espiritual. Porque tudo isso pode cada vez mais afetar os homens. Tudo está encaminhado.
    Deveis ensinar a vossos filhos que o chão onde pisam simboliza a as cinzas de nossos ancestrais. Para que eles respeitem a terra, ensinai a eles que ela é rica pela vida dos seres de todas as espécies. Ensinai a eles o que ensinamos aos nossos: Que a terra é a nossa mãe. Quando o homem cospe sobre a terra, está cuspindo sobre si mesmo. De uma coisa nós temos certeza: A terra não pertence ao homem branco; O homem branco é que pertence à terra. Disso nós temos certeza. Todas as coisas estão relacionadas como o sangue que une uma família. Tudo está associado. O que fere a terra fere também aos filhos da terra.
    O homem não tece a teia da vida: É antes um dos seus fios. O que quer que faça a essa teia, faz a si próprio.
    Mesmo o homem branco, a quem Deus acompanha e com quem conversa como um amigo, não pode fugir a esse destino comum. Talvez, apesar de tudo, sejamos todos irmãos.
    Nós o veremos. De uma coisa sabemos, é que talvez o homem branco venha a descobrir um dia: Nosso Deus é o mesmo deus.
    Podeis pensar hoje que somente vós o possuis, como desejais possuir a terra, mas não podeis. Ele é o Deus do homem e sua compaixão é igual tanto para o homem branco, quanto para o homem vermelho.
    Esta terra é querida dele, e ofender a terra é insultar o seu criador. Os brancos também passarão talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminai a vossa cama, e vos sufocareis numa noite no meio de vossos próprios excrementos.
    Mas no nosso parecer, brilhareis alto, iluminado pela força do Deus que vos trouxe a esta terra e por algum favor especial vos outorgou domínio sobre ela e sobre o homem vermelho. Este destino é um mistério para nós, pois não compreendemos como será no dia em que o último búfalo for dizimado, os cavalos selvagens domesticados, os secretos recantos das florestas invadidos pelo odor do suor de muitos homens e a visão das brilhantes colinas bloqueada por fios falantes.
    Onde está o matagal? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu. O fim do viver e o início do sobreviver." 

Fonte:  http://www.culturabrasil.pro.br/cartaindio.htm

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Morto e vivo: O legado americano de Osama 

Em um certo sentido, depois do 11 de setembro, Bin Laden comandou Washington, tomando posse de seus mais profundos medos e desejos, da mesma forma que um vírus assume um computador, e o direciona para seus próprios fins. Esse foi o maior truque de Bin Laden. De certo modo, ele não nos destruiu no 11 de setembro, mas nos meses e anos que se seguiram. Ele nos ajudou a desencadear todo tipo de pesadelos que pudéssemos ter sobre nós mesmos - da tortura à criação de um arquipélago exterior à justiça, e ao gradeamento de nosso próprio mundo, onde fomos nos esconder aterrorizados. O artigo é de Tom Engelhardt.

Nos anos 1960, o senador George Aiken, de Vermont, ofereceu a dois presidentes norte-americanos um plano para lidar com a Guerra do Vietnã: declarar vitória e ir para casa. Completamente ignorado à época, é um plano que vale a pena considerar novamente hoje para a guerra no Afeganistão e no Paquistão, agora em seu décimo ano.

Como todo mundo que não é cego, surdo e mudo já sabe, Osama Bin Laden foi eliminado. Literalmente. Ou como a multidão de foliões que apareceu na frente da Casa Branca na noite de domingo improvisava com uma música de “O Mágico de Oz”: "Ding, Dong, Bin Laden está morto".

E não seria mais fácil se ele tivesse sido realmente a Bruxa Malvada do Oeste e tudo o que precisássemos fazer fosse bater os sapatos de rubi três vezes e dizer "não há lugar como o lar", para estar de volta ao Kansas.

Infelizmente, em todos os sentidos o que importa para os americanos, é uma ilusão de que Osama Bin Laden está morto. Em todos os sentidos que importam, ele seguirá lutando, impedindo uma mudança de política do governo Obama no Afeganistão, e somos nós que iremos garantir que ele seguirá no campo de batalha que a administração de George W. Bush outrora tão grandiosamente chamou de Guerra Global contra o Terror.

Evidentemente, o mundo árabe já havia deixado Bin Laden para trás antes mesmo de ele levar uma bala na cabeça. Lá, o foco estava na Primavera árabe, a gigantesca onda de protestos não-violentos que abalaram as bases da região e seus autocratas. Nessa parte do mundo, sua morte é, como Tony Karon da revista Time, escreveu, "pouco mais que uma nota de rodapé da história", e seus sonhos são essencialmente sem sentido.

Considere isso um insulto à ironia, mas o mundo que Bin Laden realmente mudou para sempre, não foi no Grande Oriente Médio. Foi aqui [o Ocidente]. [Pode-se] Celebrar sua morte, sepultá-lo no mar, não liberar nenhuma foto, e ele ainda vai continuar como um fantasma, enquanto Washington continuar suas guerras mortais e desastrosas.

O Tao do Terrorismo
Se analogias com “O Mágico de Oz” estivessem corretas, Bin Laden poderia ser comparado ao Mágico ao invés de com a bruxa. Afinal, ele foi, em certo sentido, um pequeno homem por trás de uma tela grande em que a sua aparência frágil assumiu, nos EUA, as proporções gigantescas de um supervilão, se não de uma superpotência rival. Na realidade, a Al-Qaeda, a sua organização, foi formada na melhor das hipóteses por um bando de pouca qualificação que, mesmo em seu auge, antes mesmo de ser atacada, teve limitadas capacidades operacionais. Sim, eles podiam organizar ações e assassinatos espetaculares, mas apenas um a cada ano ou dois.

Bin Laden nunca foi "Hitler", nem os seus capangas nazistas, nem chegam a Stalin e seus asseclas, embora às vezes eles fossem qualificados assim. A coisa mais próxima a um Estado que a Al-Qaeda teve foi a empobrecida e devastada área do Afeganistão controlada pelo Talibã, que abrigaram alguns dos seus "acampamentos". Mesmo o dinheiro disponível para Bin Laden, embora significativo, não era muito do que se gabar, não em uma escala de superpotência de todo modo. Os ataques de 11 de setembro foram estimados entre US$ 400 mil e $500 mil, o que em termos de superpotência é uma merreca.

Apesar da impressão apocalíptica de destruição que os seguidores de Bin Laden causaram em Nova York e no Pentágono, ele e sua equipe de assassinos representavam um relativamente modesto desafio para os EUA. E caso o governo Bush tivesse destinado a mesma energia em encontrá-lo que dedicou a invadir e ocupar o Afeganistão e o Iraque, então, pode haver qualquer dúvida de que quase dez anos teriam se passado antes de ele morrer, ou, como nunca vai acontecer agora, ser levado a julgamento?

Para o nosso azar (e sorte de Bin Laden), os sonhos de Washington não eram os de uma polícia global determinada a trazer criminosos à justiça, mas sim de um poder imperial, cujos líderes queriam assegurar que as terras com petróleo do planeta fizessem parte de uma Pax Americana em décadas futuras. Então, se você está escrevendo o obituário de Bin Laden agora, descreva-o como o mágico que usou os ataques de 11 de setembro para ampliar em muitas vezes os seus escassos poderes.

Afinal, enquanto ele só tinha a capacidade de lançar grandes operações a cada par de anos, Washington --com quantidades quase ilimitadas de dinheiro, armas, e as tropas sob seu dispor-- era capaz de lançar operações diárias. Em um certo sentido, depois do 11 de setembro, Bin Laden comandou Washington, tomando posse de seus mais profundos medos e desejos, da mesma forma que um vírus assume um computador, e o direciona para seus próprios fins.

Foi ele, graças ao 11 de setembro, que assegurou que a invasão e a ocupação do Afeganistão seria posta em prática. Foi ele, graças ao 11 de setembro, que também assegurou que a invasão e a ocupação do Iraque aconteceria. Foi ele, graças ao 11 de setembro, que trouxe a guerra americana do Afeganistão ao Paquistão, e aviões, bombas e mísseis americanos para a Somália e Iêmen, para a Guerra Global ao Terror. E nesses quase dez anos, ele fez todo tudo isso ao modo de um mestre de Tai Chi: sem usar sua força, mas o nosso enorme poder destrutivo para criar o tipo de confusão em que, sem dúvida, uma organização como a sua pode prosperar.

Não se surpreenda, portanto, que nestes últimos meses ou mesmo anos, Bin Laden tenha se retirado a um complexo murado em uma área ao norte da capital paquistanesa, Islamabad, fazendo quase nada. Pense nele como praticando o Tao do Terrorismo. Na verdade, quanto menos ele fazia, quanto menos operações ele era capaz de lançar, mais o exército americano fazia por ele, na criação do que decadentes dinastias chinesas costumavam chamar de "caos sob o céu".

Morto e vivo
Como já é óbvio, o maior truque de Bin Laden foi aplicado em nós, não no mundo árabe, onde os movimentos que ele criou, do Iêmen ao Norte da África, mostraram-se excepcionalmente periféricos e sem importância. Ele nos ajudou a desencadear todo tipo de pesadelos que pudéssemos ter sobre nós mesmos (e outros) - da tortura à criação de um arquipélago exterior e externo à justiça, e ao gradeamento de nosso próprio mundo americano, onde fomos para nos esconder aterrorizados, enquanto que lançando ataques militares externos.

De certo modo, ele não nos destruiu no 11 de setembro, mas nos meses e anos que se seguiram. Assim sendo, se não tivermos o bom senso de seguir os conselhos do senador Aiken, as guerras que continuarmos a lutar, com seus resultados desastrosos, se provarão o seu monumento, e nosso cemitério imperial (como o Afeganistão foi para mais de um império no passado).

No momento em que a imprensa e a multidão em júbilo tornam-se subitamente otimistas sobre as operações militares dos EUA, nós ainda temos cerca de 100.000 soldados norte-americanos, e 50.000 aliados, números surpreendentes de mercenários armados, e pelo menos 400 bases militares no Afeganistão, quase dez anos depois. Tudo isso como parte de uma guerra sem fim contra um homem e sua organização que, de acordo com o diretor da CIA, tem apenas entre 50 e 100 homens operando no país.

Agora, ele está oficialmente no fundo do mar. No Oriente Médio, sua idéia de um abrangente "califado" foi a mais efêmera das fantasias. Em certo sentido, porém, seu domínio sempre esteve aqui. Ele foi nossa desculpa e nosso demônio. Por ele fomos possuídos.

Quando as celebrações e festas de sua morte acabarem - e elas não serão mais longas que as do casamento real britânico - , vamos novamente nos defrontar com o mundo arruinado que Bin Laden nos desejou, e será fácil ver o quão insignificante esta "vitória", sua morte, é quase dez anos depois.

Apesar de todas as palavras dedicadas à operação que o derrubou, todos formadores de opinião tagarelando, todos as hosanas dedicadas às forças especiais norte-americanas, ao presidente, aos seus idealizadores, e aos vários serviços de inteligência, este não é um momento glorioso norte-americano. Em todo caso, nós provavelmente devíamos estar de luto pelo que enterramos muito antes de termos o corpo de Bin Laden, pelo que permitimos que ele (e nossa própria ganância imperial) incitasse-nos a fazer a nós mesmos, e o que, em função disso, fizemos, em nome da luta contra ele, para os outros.

Os cânticos de "EUA! EUA!" quando do anúncio de sua morte eram ecos esquálidos do dia 14 de setembro de 2001, quando o presidente George W. Bush pegou um megafone e prometeu: "As pessoas que derrubaram esses edifícios irão ter notícias nossas em breve!" Isso seria o início de alguns breves anos de aumento da arrogância americana e de fantasias de dominação maiores que as de qualquer terrorista islâmico fundamentalista obcecado por califados. E em breve eles iriam nos deixar pendurados em nosso mundo atual de desemprego crescente, apodrecimento de infraestrutura, aumento de preços de combustíveis, problemas de caixa, e com um povo no limite.

A menos que deixemos de lado os grupos de operações especiais e os ataques com aviões não-tripulados, a não ser que estejamos dispostos a seguir o exemplo de todos os manifestantes não-violentos pelo Oriente Médio e começar uma retirada rápida e do Afeganistão/Paquistão, Osama Bin Laden nunca morrerá.

Em 17 de setembro de 2001, o presidente Bush foi questionado se queria Bin Laden morto. Ele respondeu: "Há um velho pôster, se bem me lembro, que diz: 'procurado vivo ou morto'". Morto ou vivo. Agora, descobre-se que havia uma terceira opção. Morto e vivo.

A chance existe para atravessar uma estaca no coração do legado americano de Osama Bin Laden. Afinal, o homem que oficialmente começou tudo está teoricamente morto. Podemos declarar vitória, Totó, e ir para casa. Mas por que eu acho que o provável vencedor será o mágico do mal?

Tradução: Wilson Sobrinho

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Modelo econômico dos EUA está falido

Michael Hudson: “Modelo econômico dos EUA está falido”

Segundo o economista norte-americano, os EUA impulsionaram um modelo econômico que está falido e, com o advento da mais recente crise econômica global, cabe agora aos países que compõem o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) usar sua força conjunta para colocar em marcha um modelo alternativo: “Quando o EUA diz que os países do Bric ainda têm espaço para aumentar suas dívidas, o que quer dizer é que estes países ainda têm minas que podem ser vendidas e ainda têm florestas que podem ser cortadas. Nos próximos anos, o Norte vai fazer o máximo possível para pegar os seus recursos”, disse Hudson, durante seminário promovido pelo CDES em Brasília.

BRASÍLIA - “No cinema, nós já tínhamos o Michael Moore. Agora, na economia, temos o Michael Hudson”. A brincadeira feita pelo conselheiro Jacy Afonso de Melo revela o impacto causado pela intervenção do economista e professor da Universidade do Missouri na quinta-feira (16), durante sua participação em um seminário internacional promovido pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) em Brasília. Hudson, um ex-economista de Wall Street, mereceu repetidos aplausos dos participantes do seminário ao apresentar, assim como o xará cineasta, um ponto de vista ácido e crítico sobre o modelo econômico de seu país.

Segundo o economista norte-americano, os Estados Unidos impulsionou “um modelo econômico que está falido” e, com o advento da mais recente crise econômica global, cabe agora aos países que compõem o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) usar sua força conjunta para colocar em marcha um modelo alternativo: “Quando o EUA diz que os países do Bric ainda têm espaço para aumentar suas dívidas, o que quer dizer é que estes países ainda têm minas que podem ser vendidas e ainda têm florestas que podem ser cortadas. Nos próximos anos, o Norte vai fazer o máximo possível para pegar os seus recursos”, disse Hudson, em uma de suas muitas frases de impacto.

Hudson afirmou que o governo norte-americano passou 50 anos obrigando os países em desenvolvimento a contrair empréstimos que, na verdade, tinham como objetivo principal a criação de uma infra-estrutura que facilitasse a exportação de grãos, minério e outras matérias-primas para os EUA: “Mais tarde, em sua fase neoliberal, o governo dos EUA perguntou: por quê vocês, para pagar as dívidas que contraíram conosco, não vendem as estradas e portos que construíram com o dinheiro que emprestamos?”, concluiu.

Instituições como o FMI e o Banco Mundial, na visão de Hudson, foram criadas com o objetivo de fazer com que os países em desenvolvimento dependessem dos EUA. Segundo o economista, a adoção do dólar como moeda de parâmetro para a economia mundial foi, ao lado do que qualificou como “dependência militar”, o principal fator de fortalecimento para a hegemonia norte-americana: “Por isso, os Brics podem criar novas estruturas econômicas que não sejam baseadas no poder militar dos EUA”, disse.

Hudson citou o exemplo da China, “a quem os EUA só deixam gastar sua riqueza para comprar bônus do Tesouro americano”, para afirmar que o Brasil, fortalecido pela travessia sem grandes traumas da crise econômica global, pode seguir outro caminho: “O Brasil pode criar os seus próprios créditos, e vocês não precisam de moeda estrangeira para fazer a economia funcionar”.

Novo sistema financeiro
Além de Michael Hudson, outros palestrantes estrangeiros analisaram a conjuntura econômica mundial. Também norte-americano e pesquisador da Universidade do Missouri, Larry Randall Wray pregou a necessidade de criação de um novo sistema financeiro internacional: “Esse sistema deve ter um mecanismo de pagamento sólido e seguro, promover empréstimos menos longos, adotar um mecanismo de financiamento imobiliário sólido e um ativo de capitais a longo termo”, disse Wray, acrescentando que “esses ajustes não precisam ser feitos necessariamente pelo setor privado”.

Diretor do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas (OFCE), Xavier Timbeau defendeu a adoção de programas de renda-mínima pelos países em desenvolvimento: “Precisamos adotar novos indicadores de riqueza que não sejam meramente econômicos. Não digam que para reduzir a pobreza basta aumentar o crescimento da economia” disse o economista francês.

O economista mexicano Julio Boltvinick também sugeriu “uma abordagem crítica sobre o paradigma dominante que reduz o bem-estar humano ao bem-estar econômico” e defendeu a adoção de novos conceitos de bem-estar: “Riqueza por si só gera poder, mas não gera necessariamente bem-estar”. Boltvinick defendeu ainda a criação de um índice de progresso social e a adoção de um indicador de tempo livre como formas de medir a desigualdade social em cada país: “Uma sociedade justa tem um tempo livre igualitário”.


Fonte: www.cartamaior.com.br
22/09/2010