quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Feriado de 3 de Outubro é um Insulto a Indígenas!
Posted: 03 Oct 2012 05:02 AM PDT
Por Alípio Sousa Filho
(Sociólogo e Professor do Dep. de Ciências Sociais – UFRN)

Causa espanto saber que a Assembléia Legislativa do Estado aprovou por unanimidade e a Governadora sancionou lei criando o feriado estadual de 3 de outubro para culto público e oficial dos chamados mártires de Uruaçu e Cunhaú. A lei estadual 8.913, de 6 de dezembro de 2006, é um insulto aos nossos indígenas de ontem e de hoje e um atentado aos princípios do Estado Laico. Inconcebível que seja o próprio Estado a colaborar com a igreja católica nos seus intentos de criar beatos, santos, mártires, milagres etc. e a partir de qualquer história forjada e narrada como se quer.


Quadro do Monsenhor Assis sobre os mártires de Cunhaú.

O que se chama de massacre dos mártires de Uruaçu e Cunhaú (mártires católicos!, pois do outro lado estavam protestantes holandeses e indígenas) é fato ocorrido no século XVII e não difere de outras situações que o território brasileiro conheceu, em todas as partes, no período colonial. No fundo, o que se visa exaltar é a fé católica que, nesse mesmo período histórico, foi responsável pela morte de milhões de indígenas.
Os tapuias e potiguares que habitavam a região e que, ao lado de holandeses calvinistas, figuram na narrativa construída sobre o tal martírio, que agora se visa cultuar, faziam parte da grande civilização indígena aqui existente que, pela catequese cristã e predominantemente católica, viu ser dizimados três milhões de seus integrantes nos três primeiros séculos da colonização.Que cidadãos, isolados ou em grupos organizados, queiram praticar suas crenças, organizar e participar de romarias (a cavalo, em paus-de-arara, bicicletas, motos, carros ou a pé), que as igrejas, incluindo a dos católicos, queiram difundir suas crendices, incluindo inventar milagres e os santos milagreiros, que o façam no usufruto dos direitos que são os seus.
Todavia, o Estado não pode ser cúmplice do absurdo que é tornar feriado um dia da semana para culto de uma narrativa que insulta os indígenas de ontem e de hoje.Os poderes Legislativo e Executivo estaduais, com a criação do feriado de 3 de outubro, dão mostras que não praticam a laicidade exigível desses poderes no âmbito da esfera pública e estatal e confirmam que, no Brasil, o Estado, longe de ser laico, permanece vergonhosamente submetido, pelas mãos de seus dirigentes, aos ditames e interesses de igrejas e religiões. Os interesses da igreja católica (ou de qualquer outra) não podem ser colocados acima do caráter universalista que o Estado está obrigado a preservar para permanecer como esfera autônoma, independente. Esta que é a única condição do Estado poder legitimamente representar a sociedade como um todo e agir pela sua emancipação social, livrando-a do domínio de crenças sem fundamentos que se tornam obstáculos aos seus avanços culturais, sociais. No Brasil, são inúmeros os exemplos de ações das igrejas, contrariando a implementação de medidas emancipatórias pelo Estado.
Multinacional capitalista, que enriquece com a mais-valia da fé alheia explorada, mas continuamente sedenta de criar santos e milagres para a conservação do seu domínio sobre uma população pobre e abandonada à sua própria miséria (emocional, cultural, econômica), a igreja católica não pode contar com a cumplicidade dos dirigentes do Estado para realizar seus intentos.
O fato representa uma tomada de posição desses dirigentes em favor de um segmento da sociedade, e apenas de um de seus segmentos, ferindo o principio da laicidade e da universalidade de valores a predominar e a ser preservado pelo Estado no âmbito das decisões político-públicas.
Se há algo a ser feito sobre o que se passou em 1645 é o Estado narrar a tragédia de nossos indígenas, vencidos pela violência, dividindo-se, em desesperadas estratégias, entre os colonizadores.

Fonte: Revista Potiguar

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Nem as margens ouviram

O Grito do Ipiranga não teve qualquer repercussão na época.

Lucia Bastos
16/9/2009 

  • “Independência ou Morte!” Consagrado pela História, o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, quase não causou repercussão entre seus contemporâneos. Na imprensa do Rio de Janeiro, somente o número de 20 de setembro do jornal O Espelho exaltou “o grito acorde de todos os brasileiros”. Na prática, a Independência estava longe de chegar.

    Três séculos depois do descobrimento, o Brasil não passava de cinco regiões distintas, que compartilhavam a mesma língua, a mesma religião e, sobretudo, a aversão ou o desprezo pelos naturais do reino, como definiu o historiador Capistrano de Abreu. Em 1808, os ventos começaram a mudar. A vinda da Corte e a presença inédita de um soberano em terras americanas motivaram novas esperanças entre a elite intelectual luso-brasileira. Àquela altura, ninguém vislumbrava a ideia de uma separação, mas esperava-se ao menos que a metrópole deixasse de ser tão centralizadora em suas políticas. Vã ilusão: o império instalado no Rio de Janeiro simplesmente copiou as principais estruturas administrativas de Portugal, o que contribuiu para reforçar o lugar central da metrópole, agora na América, não só em relação às demais capitanias do Brasil, mas até ao próprio território europeu.

    O auge do questionamento das práticas do Antigo Regime aconteceu em 24 de agosto de 1820, quando estourou a Revolução Liberal do Porto. Clamava-se por uma Constituição baseada nas liberdades e direitos do liberalismo nascente. A revolução teve importante eco no Brasil, por meio de uma espantosa quantidade de jornais e folhetos políticos. Durante todo o ano de 1821, porém, não surgiu nesses impressos qualquer proposta favorável à emancipação.
    Até o início de 1822, ninguém falava de Brasil. Ao partir para as Cortes de Lisboa, para a discussão da Constituição do Reino, os deputados americanos pensavam apenas em suas “pátrias locais”, ou seja, em suas províncias. Só os paulistas demonstraram alguma preocupação em construir uma proposta para o conjunto da América portuguesa. Nem por isso abriam mão da integridade do Reino Unido: sugeriam o Brasil como sede da monarquia, ou então a alternância da residência do rei entre um lado e outro do Atlântico. “Independência” significava, antes de mais nada, autonomia.

    Ao longo daquele ano, porém, o discurso se radicalizou. A insatisfação com a metrópole crescia, pois das Cortes vinham propostas para retomar algumas das antigas restrições políticas e econômicas que tinham limitado a autonomia do Brasil no passado. Junto com o projeto constitucionalista surgia a ideia separatista, embora ainda não direcionada a toda a América portuguesa.

    Considerada na época como a data que oficializou a separação do Brasil de sua antiga metrópole, a aclamação de Pedro I como imperador, em 12 de outubro de 1822, não significou a unidade política do novo Império. A proposta foi aceita pelas Câmaras Municipais de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Pernambuco titubeou durante algum tempo. Por causa das dificuldades de comunicação, Goiás e Mato Grosso só prestaram juramento de fidelidade ao Império em janeiro de 1823. Enquanto isso, Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, além de parte da Bahia e da província Cisplatina, permaneceram leais a Portugal, refratárias ao governo do Rio de Janeiro. Foram tempos de guerra. No início de 1823, enquanto várias províncias já escolhiam seus deputados para a Assembleia Legislativa e Constituinte do Rio de Janeiro, o Maranhão elegia deputados para as Cortes ordinárias de Portugal.

    Enfim, apesar dos horrores da guerra e das tensões que não desapareceram, esboçou-se pela força a unidade territorial do Brasil. Mas o rompimento total e definitivo mantinha-se sub judice. Afinal, o imperador era português e sucessor do trono dos Bragança. Capaz, portanto, de reunir novamente, após a morte do pai, os dois territórios que o Atlântico separava.

    Somente em 1825, depois de demoradas negociações, D. João VI reconheceu a Independência, em troca de indenizações. Mesmo assim, o gesto veio sob a forma de concessão, transferindo a soberania do reino português, que ele detinha, para o reino do Brasil, sob a autoridade de seu filho. E D. João foi além: reservou para si o título de imperador do novo país, registrado nos documentos que assinou até sua morte, em 1826.

    Os laços de sangue faziam da Independência um processo ambíguo e parcial. Foi preciso esperar outra data, a da abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, para que se rompesse definitivamente qualquer vínculo do Brasil com Portugal. Assumia o poder um soberano-menino, também ele um Bragança, mas nascido e criado no Brasil. No linguajar dos exaltados do período regencial, acabava-se “a farsa da independência Ipiranga”.

    Lucia Bastos Pereira das Neves é professora titular de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência (1808-1822) (Revan, 2003).

    Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/nem-as-margens-ouviram

quarta-feira, 29 de agosto de 2012



A chegada da Família Real – esquema



Laurentino Gomes, mais um jornalista que se aventura no papel de historiador – mas não vamos entrar nesse mérito agora – em parceria com o site EDUCAR PARA CRESCER fez um esquema bacana sobre a história da chegada da família real no Brasil. Uma maneira interessante de ensinar esse período que foi FUNDAMENTAL para a história do Brasil. Inclusive, há quem diga que a independência brasileira começa em 1808…
Confira o esquema clicando aqui


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Janduí: O primeiro rei do Sertão
Posted: 16 Aug 2012 07:02 AM PDT


O primeiro rei do Sertão, muito antes de Conselheiro e Lampião, foi um potiguar. Ou melhor, era da terra potiguar, embora fosse um índio tapuia: chamava-se Janduí, o “rei” dos tarairiús, seu acampamento principal localizava-se no vale do rio Açu, embora seu território se estendia pelos sertões do Ceará à Pernambuco. Diziam as más línguas que o rei-guerreiro teria vivido 160 anos, embora seja mais provável que houvesse dois Janduí: o pai e o filho, e, portanto, essa suposta longevidade se devia ao fato da figura do pai confundir-se com a do filho.

Assim como o bando de Lampião eles não possuíam um acampamento fixo, vagavam sertão adentro de acordo com a época do ano, vivendo exclusivamente da caça e da coleta de frutos, ou de alguns gados doados (e também roubados) dos vaqueiros. Eram peritos em combate na caatinga, agindo com extrema destreza, preferindo emboscar o inimigo ao invés de enfrenta-lo de frente.

Janduí foi o arquétipo do rebelde nordestino, da resistência do sertanejo, foi o mais ferrenho opositor à invasão portuguesa, aliando-se aos holandeses e viabilizando a invasão destes ao nosso estado. Além de dar suporte ao invasor holandês, foram eles os principais responsáveis por dizimar os portugueses do RN durante a invasão holandesa, tendo participação ativa nos massacres de Cunhaú e Uruaçu. Foi o próprio Janduí que acolheu o temível alemão Jacob Rabbí durante quatro anos, e posteriormente, guiou o holandês  Roulox Baro para conhecer o então misterioso e temido sertão potiguar, fazendo com que o holandês nos presenteasse com a obra “Relação da viagem ao país dos tapuias”, nos fornecendo informações preciosas acerca dos hábitos e costumes dos tarairiús.

Os “janduís”, como ficaram conhecidos os comandos de Janduí, converteram-se rapidamente na principal, e mais temida, tribo tarairiú (que por sua vez pertenciam a etnia tapuia). Os tarairiús eram índios de pele clara, tinham a aparência semelhante a algumas tribos que habitavam antigamente a Sibéria (yukaghires e kamachadales), os homens eram altos e possuíam a mesma “cabeça chata” herdada posteriormente por grande parte dos sertanejos nordestinos . Dizia-se que um tarairiú podia com um único golpe de sua clava partir o inimigo ao meio. Para se tornar um tarairiú respeitado era necessário matar muitos inimigos, inimigos estes que eram posteriormente devorados pela tribo, sua ferocidade e crueldade eram temidas até por seus aliados holandeses.

Enquanto os potiguares (que eram tupis) habitavam o litoral, farto em recursos, os tarairiús (e os tapuias em geral) dominavam o árido sertão. O clima severo deu-lhes robustez, compensando em força, destreza e vitalidade, a inferioridade técnica perante os portugueses. Posteriormente os janduís vieram a adquirir com os holandeses os armamentos e técnicas europeias, tornando-se exímios cavaleiros (e também ladrões de cavalos) além de habilidosos mosqueteiros, fabricando, inclusive, sua própria pólvora com ingredientes locais.

Após a expulsão dos holandeses os tarairiús, principalmente os janduís, se rebelaram contra os portugueses na chamada “Guerra dos Bárbaros”, ou ainda “Guerra do Açu”, ofereceram uma resistência tão forte e tenaz que os colonos portugueses da antiga capitania tiveram de pedir ajuda a Coroa, por fim, depois de muitas baixas para ambos os lados, foram derrotados, nas margens do rio Seridó, pelas tropas paulistas comandadas por Domingos Jorge Velho, a repartição de suas terras entre os colonos propiciou a efetiva colonização do Seridó e do sertão potiguar.

Janduí foi um ilustre potiguar, pouco citado e lembrado por nossos conterrâneos, talvez pela participação dos tarairiús na chacina dos mártires (agora beatificados)  de Cunhaú e Uruaçu. Entretanto, pouco se fala nos mártires tarairiús, muito mais numerosos, meticulosamente exterminados mesmo tendo feito um acordo de paz diretamente com a Coroa Portuguesa (um fato até então inédito). Apesar de sua crueldade, lutou por sua terra ancestral, pelo sertão e toda a mística que o cercava, estavam na linha de frente da resistência indígena no Brasil, sua história deve ser contada e cantada, seu legado de resistência e autonomia iria reverberar ainda por muitos séculos nos sertões nordestinos.

Imagens: Albert Eckhout

Fonte: Carta Potiguar

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

09/08/2012 - 05h01

Hominídeos de três espécies conviveram na África, diz estudo

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE "CIÊNCIA+SAÚDE"

É um cenário que parece saído de romances de fantasia, como "O Senhor dos Anéis": três espécies distintas de seres inteligentes, cada uma delas com aparência e cultura próprias, vivendo lado a lado por milênios.
Segundo uma nova pesquisa, é exatamente isso o que aconteceu na África Oriental há 1,9 milhão de anos, quando o gênero humano, o Homo, estava se estabelecendo.
Novos fósseis --fragmentos de um crânio e mandíbulas--, descobertos em Koobi Fora, no Quênia, são a base dessa hipótese, defendida em estudo na edição de hoje da revista científica "Nature". 

Editoria de arte/folhapress

O grupo de Meave Leakey, do Instituto da Bacia Turkana, em Nairóbi, analisou a anatomia desses cacos e concluiu que eles se encaixariam com outro fóssil, o crânio conhecido como KNM-ER 1470, achado nos anos 1970.
Para alguns, o KNM-ER 1470 representaria uma espécie separada de hominídeo, o Homo rudolfensis, distinta de dois velhos conhecidos dos paleoantropólogos, o Homo erectus e o Homo habilis.
Para outros, ele não passaria de uma variante do H. habilis.
Os novos fósseis parecem confirmar que o H. rudolfensis pertencia a uma linhagem distinta --embora Leakey e seus colegas não usem o nome. Querem mais estudos antes de dar esse passo.
Se eles estiverem corretos, cai por terra de vez uma ideia que já estava sendo muito atacada: a de que teria havido uma progressão linear de espécies de humanos primitivos --H. habilis gerando H. erectus gerando H. sapiens-- rumo ao homem moderno.
Em vez disso, prevaleceria o chamado modelo do arbusto: vários "galhos" da linhagem humana evoluindo ao mesmo tempo, cada um com suas próprias adaptações e estilos de vida. Alguns teriam se extinguido, enquanto outros deixaram descendentes.
Esteban Sarmiento, primatologista da Fundação Evolução Humana, em Nova York, diz que tem dúvidas sobre as conclusões do estudo.
"No fundo, o principal argumento para associarem esses fósseis ao KNM-ER 1470 é a idade deles, a comparação morfológica não mostra isso." 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012



A verdadeira história do Imperador Calígula

Esqueça a imagem do tirano pervertido e insano. O imperador era, sim, um hábil populista. Acontece que a sua história foi escrita pelos inimigos

Vinícius Cherobino | 25/07/2012 18h21

Psicopata, narcisista, assassino, depravado. Segundo Suetônio escreveu no século 2 em A Vida dos Doze Césares, era simplesmente um monstro. As comemorações pela indicação de Calígula como autoridade suprema teriam levado à degola 60 mil prisioneiros em cerca de três meses. Mas aquilo era só o começo - Roma nunca havia presenciado tamanha perdição. O imperador tratava abertamente a irmã Drusilla como esposa. Servia-se também das outras irmãs, Livilla e Agripina, e as prostituía. Costumava promover banquetes e orgias que culminavam com a tortura e execução de prisioneiros. Obrigava, inclusive, as esposas dos auxiliares mais próximos a participar das festas. "Quase não houve mulher, por menos ilustre que fosse, que ele não tivesse desrespeitado", diz Suetônio. Para o historiador romano Cássio Dio, "não havia homem mais libidinoso".

Perdulário, suas extravagâncias incluíam pérolas banhadas em vinagre como aperitivo. Gastava tanto dinheiro que a dada hora se viu obrigado a confiscar propriedades e a criar impostos sobre tudo, até a prostituição.

Atribuía a si mesmo qualidades divinas. Encomendou da Grécia uma estátua de Júpiter Olímpico, mandou cortar a cabeça e a substituiu por uma inspirada na sua própria. Num templo dedicado a ele, ostentava uma estátua de ouro em tamanho natural, vestida todos os dias com uma cópia de seus trajes.

Líder incompetente, humilhava com frequência seus pares, na indiscrição dos banquetes ou na política. Nomeou o cavalo Incitatus magistrado superior de Roma. O animal era mantido num luxuoso estábulo dentro do palácio imperial. E Calígula exigia que os senadores despachassem com o colega equino.

Para baratear os custos de manutenção das prisões abarrotadas, ordenou que detentos fossem trucidados para servir de ração aos demais. A todos esses "espetáculos", o imperador assistia com deleite e queria companhia - obrigava os familiares de condenados a testemunhar a tortura e a execução. Uma das modalidades preferidas era jogá-los às feras nas arenas de plateia lotada. A cada dez dias, elaborava uma lista de quem deveria ser morto.

Um crápula completo, certo? Errado. Calígula não é tão diferente dos demais imperadores romanos. E, até pelo pouco tempo que permaneceu no poder, quatro anos, conseguiu feitos importantes (leia à pág. 49). Mas a fama de maníaco atravessou os séculos intacta - que o diga o filme Calígula, de 1979 (leia à pág. 50). Mas por que sua imagem foi tão deturpada?



Biografia de tabloide
Um olhar atento sobre os autores das histórias originais a respeito do imperador ajuda a esclarecer as distorções. Como autoridade política, Calígula trabalhou sobretudo para concentrar poder, confrontando o Senado e a aristocracia romana. Os historiadores da época dependiam ou eram representantes do Senado. "É como tentar entender a história do século 21 e tudo o que sobrou foi o tabloide National Enquirer (uma espécie de Notícias Populares americano)", diz Anthony Barrett, professor de história romana na Universidade da Columbia Britânica. "É uma fonte importante, mas não pode ser tomada como totalmente verdadeira. Os fatos demandam análise crítica e é preciso tentar corroborá-los com evidências arqueológicas."

O filósofo Sêneca, o Jovem, fez um dos poucos relatos contemporâneos ao governo. Ele era rival da dinastia Júlio-Claudiana, à qual pertencia o imperador. Acabou exilado em 41. Suetônio, conhecido por abordar seus personagens sob o viés mais pitoresco possível, escreveu sete décadas após a morte do governante. Já Cássio Dio o fez quase 200 anos depois. Dos Anais de Tácito sobre Caligula, uma das narrativas mais confiáveis da Roma antiga, apenas algumas referências são encontradas hoje. "São textos literários, com pretensões retóricas, e não científicas", diz Paulo Sergio de Vasconcellos, professor de letras clássicas da Unicamp.

A revisão desses textos, confrontados com investigações arqueológicas e o estudo de moedas do período, está longe de reproduzir um maluco desvairado. Para entender quem era o jovem de 24 anos que assumiu o posto mais importante da Terra, é preciso conhecer sua trajetória.

Aos 7 anos, Roma comovida recebeu Calígula, que acompanhava o cortejo fúnebre do pai, o idolatrado herói militar Germânico. No ar, pairava a suspeita de que ele fora envenenado por ordem do imperador Tibério. A família de Germânico, que era sobrinho e filho adotivo do soberano, representava uma sombra perigosa ao seu poder. A mãe de Calígula, Agripina Maior, que trabalhava nos bastidores para garantir a ascensão do primogênito Nero Germânico (o Nero acusado de tocar fogo em Roma era sobrinho deste - e de Calígula) foi condenada por traição e exilada com o filho. Ambos morreram no exílio. O filho do meio, Drusus Germânico, preso, não sobreviveu aos maus-tratos na cadeia. As mortes na elite romana eram comuns à época. Não havia uma definição clara para a sucessão no poder, o que alimentava golpes, assassinatos e o terror de Estado.

Em 37, a capital aguarda, ansiosa, a confirmação do soberano escolhido para substituir Tibério. O imperador a quem Jesus Cristo chamava de César morrera aos 78 anos, recluso, na sua fortaleza na ilha de Capri. O autoexílio a 300 km de Roma só agravou o fim melancólico de um governo focado nas conquistas militares, severo nos gastos e contrário aos jogos nas arenas. A guarda pretoriana (um misto de segurança particular do imperador, agência de inteligência e polícia secreta) era a face mais temida do Estado, que executou por suspeita de traição inúmeros cidadãos nos anos anteriores. Era com esperança e certo alívio que a população receberia o novo regente.



Tibério tinha sido adotado por César Augusto, seu antecessor. Já Calígula vinha da linhagem direta dos Césares - sua mãe era neta do já legendário Otaviano (ou César Augusto, quando tornou-se o primeiro imperador, sobrinho-neto do ainda mais legendário Júlio César). Ao lado do pai general, cresceu entre as tropas, vestido como um soldado, o que lhe rendeu o apelido carinhoso de pequena bota - "calígula".

Caio Júlio César Germânico, o... Botinha, "experimentou em primeira mão a briga pelo poder. Tinha consciência da sua popularidade, mas foi a público para defender a sua família. Como resultado, conseguiu salvar a própria vida", afirma Sam Wilkinson em Calígula (sem edição em português). Por volta dos 18 anos, foi convocado com as irmãs para morar na fortaleza de Capri com Tibério. Lá, teve, de acordo com as fontes históricas, uma vida de prisioneiro. Foram seis anos na presença do algoz de sua família. O que aconteceu na fortaleza só pode ser inferido - são citados casos de devassidão e crueldade tão graves quanto os que seriam atribuídos ao futuro imperador. O que se sabe ao certo é que Calígula não teve treinamento formal em administração e economia, militar ou sobre como lidar com os senadores. Mas soube agradar o soberano. Antes de morrer, em 37, Tibério indicou Gemelo, seu jovem neto, e Calígula à sucessão. Ele tinha 25 anos e mostrou-se um político sagaz. Em conluio com a guarda pretoriana chefiada por Macro, conseguiu assumir o poder sozinho: anulou o testamento de Tibério sob o argumento de que ele estava senil.

Seguindo o que no século 20 seria conhecido como um ditado mafioso - "mantenha os seus amigos perto e os inimigos mais ainda" -, nomeou Gemelo como seu herdeiro e lhe deu o título de princeps iuventutis (o primeiro entre os jovens). Em uma só tacada, calou as vozes dissonantes e resolveu o problema com um cargo politicamente nulo. Diferentemente de seus antecessores, logo obteve o poder absoluto. Seu governo começou de forma muito promissora, mas, após sete meses no poder, o terceiro imperador de Roma (e o mais infame) sofreu uma doença séria, que culminou com as narrativas de loucura e perdição. Os sintomas incluem convulsões, fadiga e alterações de humor. Fala-se em epilepsia, sífilis, intoxicação por chumbo (oriundo do tratamento das peles onde era guardado o vinho para obter o paladar preferido do imperador). Para historiadores modernos, há varias confusões de datas e informações contraditórias sobre Calígula. As evidências arqueológicas oferecem outras perspectivas.

Mentiras sinceras
Está claro que o imperador se relacionava com a sua família de maneira diferente que os outros fizeram. As irmãs eram presença constante ao seu lado nos eventos públicos e foram imortalizadas em moedas. Drusilla (a irmã amada, ponto central da peça Calígula, de Albert Camus), foi endeusada depois de morta. Todas essas ações eram inéditas para a época. Mas nada disso significa que havia uma orgia em família. "O incesto foi uma criação posterior da historiografia", diz Fábio Faversani, historiador da Universidade Federal de Ouro Preto. Há ainda uma explicação política. Como não tinha grandes conquistas militares, Calígula precisava se provar merecedor do posto pela linhagem que remontava a Augusto. Ao homenagear os familiares, justificava a própria posição. As sutilezas da política também estariam por trás da nomeação de Incitatus. "Houve uma ameaça. Quando Calígula foi perguntado sobre quem seria o cônsul no próximo ano, ele respondeu que preferia o seu cavalo aos candidatos disponíveis. É uma resposta de alguém sarcástico (não louco), tirada do contexto", afirma Barrett.

Ele foi acusado de levar Roma à falência. Mas realizou grandes construções. Concluiu projetos iniciados por Tibério e iniciou outros (leia à pág. 49). O seu feito mais extravagante, que parecia um exagero das fontes clássicas, acabou comprovado na década de 1930, quando foram achados no lago de Nemi os restos de dois barcos gigantescos. O maior, com quilha de 70 m, era um palácio flutuante. Aí sim um sinal de megalomania.

Na área militar, ele não teve nada de brilhante, mas sua atuação foi positiva. Iniciou a conquista da Britânia, atual Inglaterra. Antes, indicam as evidências arqueológicas, criou uma estrutura de fortes e armazéns, preparando-se para a conquista do território, efetivada por seu sucessor, Cláudio.

Mas a característica mais marcante de Calígula está na sua adoração pelo entretenimento. Em contraste com a severidade de Tibério, abraçou as aparições públicas e a realização de festivais, que incluíam combates de gladiadores e com feras selvagens, corridas de cavalos e peças teatrais. Mandou reduzir as armaduras dos lutadores, o que o fez ser ainda mais adorado pela plebe, especialmente nas ocasiões em que distribuía comida e dinheiro (leia à pág. 47).

Essa gastança poderia ter destruído as finanças públicas e iniciado uma espiral inflacionária. E Cláudio teria pago o pato. Mas não, não há registro de problemas financeiros no governo dele. Isso não quer dizer que a economia foi perfeita sob Calígula. Serve, porém, como indício de que ele talvez não fosse o perdulário inconsequente que os historiadores clássicos pintaram.

Cansados dos arroubos e das tendências absolutistas do imperador, senadores e membros da guarda pretoriana conspiraram para matá-lo. Aos 29 anos, Calígula tombou a golpes de adaga - segundo uma versão foram 30, mais do que levou Júlio César. A sua mulher Cêsonia (a quarta que ele desposou) e a filha Júlia Drusilla, de 2 anos, também foram assassinadas. Ao saber que o imperador estava morto, a população de Roma demandou justiça. O seu tio Cláudio, laureado imperador, atuou para acalmar os ânimos da massa e iniciou uma campanha contra a reputação do morto. "Cláudio precisava condenar o assassinato de um imperador, senão estaria em risco, mas precisava justificar a morte de Calígula. Ao difamá-lo, ele afirma que o bom sistema imperial foi pervertido por um tirano", diz Barrett. E a campanha se seguiu.
Um louco varrido seria capaz de demonstrar sagacidade política (para chegar ao poder... Mantê-lo foram outros quinhentos) e ter o apreço da população? Cabe refletir se ele não foi basicamente um populista, um jovem esperto e intolerante, arrogante e inseguro, marcado pelos jogos de poder que exterminaram sua família. Não é difícil supor que ele tenha reproduzido essa violência contra quem discordava de si. E modos extravagantes, como ele provavelmente tinha, cada imperador romano teve os seus. Definir sua figura por estereótipos, como os fatos demonstram, está longe de apresentar uma noção satisfatória de quem foi Calígula.

Mais sangue na arena


Ruim para o gladiador, bom para o "torcedor"


Calígula mandou remover o escudo e a armadura de braço dos gladiadores. Mas não de todos os gladiadores. A norma valia para um só lutador a cada confronto. A plateia aprovou a carnificina, e a popularidade do imperador bombou. Mas nem tudo era sangue no pão ecirco de Calígula. Ele também financiou artistas e peças de teatro.


Calígula, o filme

Ele inspirou uma pornochanchada cabeça com atores de primeira linha



Calígula virou filme em 1979 com Malcolm McDowell (o mesmo de Laranja Mecânica, de 1977) como o personagem principal, Peter O’Toole como Tibério e Helen Mirren como Cesônia. O longa-metragem foi produzido por Bob Guccione (criador da revista Penthouse) que investiu 17,5 milhões de dólares.


A obra tem roteiro original de Gore Vidal, mas se revelou um filme de apelo pornográfico com atores em ascenção (ou já consolidados, como O’Toole) usando um pano de fundo histórico. Vidal discordou das mudanças radicais na versão final e repudiou o resultado. A polêmica não foi só interna. Em vários países, o longa foi censurado, Brasil incluído.
Pouco antes do lançamento, Guccione temeu prejuízo e acrescentou cenas de sexo explícito e de violência para apimentar a obra. Se não fez jus aos fatos históricos, o produtor não se importou muito. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, 23,4 milhões de dólares (70 milhões em valores atuais) no ano de estreia.


Saiba mais

LIVROS


• Calígula, Sam Wilkinson, Routledge, 2005.

Traz excelente revisão das fontes históricas.

• Caligula: The Corruption of Power, Anthony Barrett, Yale University Press, 1990.

Analisa os relatos sobre ele à luz da arqueologia. Em inglês.

• A Vida dos Doze Césares, Suetônio, Prestígio Editorial, 2002.
Escrito no século 2, é um dos responsáveis pela má fama do imperador.

Fonte: http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/historia/verdadeira-historia-imperador-caligula-694393.shtml

sexta-feira, 27 de julho de 2012


Herança a ser descoberta



Presente no cotidiano dos brasileiros, a língua tupi expressa a visão de mundo dos habitantes autóctones antes da chegada dos portugueses


Marcelo Galli



 
A importância do tupi na língua falada diariamente por brasileiros do País todo pode ser quantificada. Estima-se que cerca de 20 mil vocábulos do português têm sua raiz no tupi.
A língua tupi, oral, mas felizmente registrada pelos colonizadores, é a principal herança pré-colombiana brasileira. É o que se tem para saber como os índios sentiam, falavam, sua visão de mundo, como eles enxergavam a terra na qual hoje habitamos. É importante porque esse discurso carrega um viés ecologista, ambiental, de sustentabilidade, para quem a terra era questão de vida ou morte. Visão essa que é esquecida porque não se sabe da sua origem, do significado das palavras e da sua importância pela falta de valorização das tradições culturais locais.
Tem-se a impressão de que à medida que o Brasil progrida, economicamente e, principalmente, do ponto de vista social e intelectual, haja um movimento de revalorização das coisas brasileiras e do passado. Ora, é parte do processo de afirmação de uma civilização que quer se fazer grandiosa e de respeito. Houve um movimento nesse sentido durante as décadas de 30, 40 e 50 dos 1900. Houve uma onda de tentativa de recuperação histórica do tupi na ocasião dos 500 de descobrimento do Brasil, mas depois parece que o interesse voltou aos meios acadêmicos. Fatalmente ocorrerá novamente com mais intensidade, embora aconteça atualmente ainda timidamente.
SÍMBOLO
TUPI
Originária do povo tupi, mas também falada pelos povos tupinambá, tupiniquim, caetés, tamoios e potiguara. A extinta língua teve sua gramática estudada pelos jesuítas e deu origem a dois dialetos, até hoje considerados línguas independentes: a língua geral paulista, e o nheengatú (língua geral amazônica), que ainda é presente na Amazônia.

BRASIL
Segundo projeções do Centro de Pesquisa Econômica e de Negócios (CEBR, na sigla em inglês) publicadas em dezembro de 2011 na imprensa britânica, o Brasil superou o Reino Unido e se tornou a sexta maior economia do mundo. O tradicional jornal "The Guardian" atribuiu a perda de posição à crise bancária de 2008 e à crise econômica que continua em contraste com a bonança brasileira.
Em março deste ano, por exemplo, foi escolhido o apelido/símbolo "Tupi" para a Seleção Brasileira de Rugby, um esporte ainda pouco difundido no Brasil - e por esse motivo também considerado por alguns como elitista. Em votação pela internet, 4.387 participantes (47,16%) foram a favor da adoção do Tupi. Para o presidente da Confederação Brasileira de Rugby (CBRu), Sami Arap, "a escolha popular ratificou as raízes do povo brasileiro. O Tupi representa a essência de nosso país, remetendo à garra, perseverança, lealdade e espírito de equipe. Agora, as nossas seleções estarão prontas para enfrentar e derrotar qualquer adversário".
A importância do tupi na língua falada diariamente por brasileiros do País todo pode ser quantificada. Estima-se que cerca de 20 mil vocábulos do português têm sua raiz no tupi. É só prestar atenção no vocabulário. Por exemplo, mutirão. Algo a ver com fraternidade iluminista? Vem do tupi (moti'rõ). "Auxílio gratuito que prestam uns aos outros os lavradores, reunindo-se todos os da redondeza e realizando o trabalho em proveito de um só, que é o beneficiado, mas que nesse dia faz as despesas de uma festa ou função. Esse trabalho pode ser a colheita, ou queima ou roçado, ou plantio, ou taipamento ou construção de uma casa." A fonte é o dicionário Aurélio.
Ou ainda no jeito de falar do povo do interior. "A língua tupi não tem l; o nosso homem do povo paulista, mineiro, goiano ou fluminense nunca pronuncia o 1 com o h; não diz: melhor, mulher, milho, e sim: mio, muiê e mio, por que o tupi não tem 1", lembra José Vieira Couto de Magalhães (1837-1898) na sua "7ª Conferência para o Tricentenário de Anchieta. Assunto: Anchieta, as raças e línguas indígenas". E acrescenta: "A língua falada no Brasil já não é o português de Camões, João de Barros, ou Frei Luiz de Souza; está, em sua gramática, em seus sons, e em centenas de termos populares, cruzada com a língua tupi ou nheengatú".

Os membros de uma tribo indígena ameaçada, o Kamayurá, tocando flautas sagradas em sua aldeia, na região do Alto Xingu.

NHEENGATÚ E NHENHENHÉM
RUGBY
Um esporte coletivo e de contato físico intenso, o que torna comum os atletas dessa modalidade serem verdadeiros gigantes. Tem origem na Inglaterra, mas o último campeão mundial (2011) foram os All Blacks da Nova Zelândia. O esporte tem variações, mas a maiss praticada é o rúgbi de quinze (em inglês: rugby union), seguida pela league (com 13 atletas) e por último a olímpica com sete jogadores.

FREI LUIZ DE SOUZA
Nasceu Manuel de Sousa Coutinho, mas adotou o nome eclesiástico de Frei Luiz de Sousa (1555 - 1632). O sacerdote católico e escritor português é hoje considerado um dos mais brilhantes autores de língua portuguesa. Uma de suas obras mais conhecidas é a "História de São Domingos".

JOÃO DE BARROS
Conhecido como o Grande, João de Barros (1496 - 1570). É considerado por muitos como o primeiro grande historiador português e pioneiro na construção da gramática da língua portuguesa. Isso se deve ao fato de ser autor da segunda obra que normatizou a língua falada em seu tempo.
VERNÁCULO
É o nome que se dá à língua nativa de um país ou de uma localidade. O termo tem origem no latim vernaculum, que é proveniente de verna, modo como eram chamados os escravos nascidos na casa do senhor.
Segundo a Enciclopédia das Línguas do Brasil, da Universidade de Campinas (Unicamp), "no século XVIII havia duas línguas gerais: língua geral paulista, falada ao sul do país no processo de expansão bandeirante, e a língua geral amazônica ou nheengatú, usada no processo de ocupação amazônica. Destas duas línguas gerais somente o nheengatú continua a ser utilizado entre os indígenas de diferentes etnias, habitantes da região Norte do País. A Gramática da língua mais usada na Costa do Brasil, de José de Anchieta, representa a normatização da língua falada pelos índios do litoral, antes de se tornar a língua geral paulista". Em São Gabriel da Cachoeira (AM), o nheengatú foi estabelecido como língua co-oficial do município em 2002, assim como o português, o baníua e o tucano. Nheengatú, língua do tronco tupi, quer dizer língua boa, bonita, é usada às vezes para denominar um conjunto de línguas tupínicas. Curiosidade. Nheen quer dizer fala, falar, daí "nhenhenhém" significar conversa repetitiva.
A língua geral foi falada durante pelo menos três séculos no Brasil, até o Marquês de Pombal, na condição de primeiro-ministro de Portugal, no fim do século XVIII, proibir seu uso na colônia. Os habitantes da cidade se comunicavam por meio dessa língua, era a língua franca, os bandeirantes, além do porrete, carregavam o vernáculo indígena para expandir suas fronteiras de comércio e negócios rumo ao interior. O tupi e o guarani, esta ainda falada no Paraguai como língua oficial, são do mesmo tronco linguístico de origem e pode-se fazer a analogia entre as semelhanças entre o português e o espanhol.
Ligados à terra, os índios foram precisos ao designar a geografia local. O escritor Lima Barreto, não só na ficção com o seu Policarpo Quaresma, defendia a importância da língua para o uso cotidiano. Diz ele em um texto do seu Histórias e Sonhos, ao citar o geógrafo e anarquista francês Élisée Reclus, que visitou países da América do Sul no século XIX, inclusive o Brasil: "Reclus, na sua Geografia universal tratando do Brasil, notava a necessidade de conservarmos os nomes tupis dos lugares de uma terra. Têm eles, diz o grande geógrafo, a vantagem de possuir quase todos um sentido claro, muito claro, nas suas palavras, exprimindo algum fato da natureza, a cor das águas correntes, a altura, a forma ou o aspecto dos rochedos, a vegetação ou a aridez da região". E continua Barreto, falando especificamente da sua terra natal e a mundialmente comentada geografia. "No Rio de Janeiro, há de fato nomes tupis tão eloquentes, para traduzir a forma ou o encanto dos lugares, que ficamos pasmos, quando lhes sabemos a significação, com o poder poético, com a força de emoção superior de que eram capazes os primitivos canibais habitantes desta região, diante dos aspectos da natureza tão bela e singular que é a que cerca e limita nossa cidade. Bastam os nomes da baía. Como não traduz bem a sua sedução, o seu recato, a sua fascinação, o nome: Guanabara - seio do mar? E se o mar abriu aqui um seio foi para nele esconder as suas águas - Niterói - água escondida."
Outro que abordou o assunto foi o engenheiro baiano Teodoro Sampaio (1855-1937). "O Tupi na Geografia Nacional", de 1901, ressalta o papel dos bandeirantes na difusão de topônimos de origem tupi por todo o País e esclarece a origem etimológica de muitos daqueles. "São frases acabadas, traduzindo uma ideia, um episódio, uma feição típica dos lugares a que se aplicam; são, a bem dizer, verdadeiras definições do meio local", diz. Alguns exemplos: Apiaí (rio dos homens ou dos machos), Anhangabaú (rio ou ribeiro do malefício, da diabrura ou do feitiço), Boipeba (cobra chata, cobra venenosa), Capibaribe (rio das capivaras), Curitiba (pinhal, mata de pinheiros, pinhões em abundância), Ipanema (água ruim, imprestável), Jararaca (o que colhe ou agarra envenenando), Moqueca (fazer embrulho), Paraná (rio enorme), Sambaqui (depósito de conchas e ostras), Toca (casa, refúgio) e Votu (vento).

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Fonte:  http://geografia.uol.com.br/geografia/mapas-demografia/44/heranca-a-ser-descoberta-presente-no-cotidiano-dos-brasileiros-262127-1.asp