quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Hitler era descendente de africanos e judeus, diz revista



Adolf Hitler provavelmente tem entre seus ascendentes africanos e judeus, dois grupos que repudiava. É isso o que apontam estudos feitos a partir de amostras de DNA recolhidas entre parentes do ditador nazista, como publica a revista belga "Knack".

Um jornalista e um historiador usaram amostras de saliva de 39 parentes de Hitler rastreados para chegar a tal conclusão. Eles encontraram um cromossomo chamado Haplogroup E1b1b (Y-DNA), raro na Alemanha e na Europa Ocidental.

- Ele é geralmente encontrado nos berberes do Marrocos, na Argélia, na Líbia e na Tunísia, assim como em judeus asquenazes e sefardistas - explicou o historiador Marc Vermeeren.

A revista diz que o DNA foi testado sob condições rigorosas de controle para que se chegasse a esse resultado.

- É um resultado surpreendente - afirmou Ronny Decorte, especialistas em genética, que reconheceu que Hitler provavelmente tem raízes no norte da África.

Não é primeira vez que historiadores sugerem que Hitler tem ancestrais judeus. Especula-se também que Alois, seu pai, tenha sido filho ilegítimo de uma empregada doméstica chamada Maria Schickelgruber e de um judeu de 19 anos chamado Frankenberger.

Fonte: AFP in Café História acesso em 01/09/2010.

Leonardo Boff

Artigo de Leonardo Boff no site ADITAL (notícias da América Latina e Caribe)

Para refletir:

Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT


Leonardo Boff *

Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico, a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu, "capado e recapado, sangrado e ressangrado". Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política e socialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os países mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.

Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fora construída com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam: "façamos nós a revolução antes que o povo a faça". E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado.

Escândalo dos escândalos para as mentes súcubas e alinhadas aos poderes mundiais: um operário, sobrevivente da grande tribulação, representante da cultura popular, um não educado academicamente na escola dos faraós, chegar ao poder central e devolver ao povo o sentimento de dignidade, de força histórica e de ser sujeito de uma democracia republicana, onde "a coisa pública", o social, a vida lascada do povo ganhasse centralidade. Na linha de Gandhi, Lula anunciou: "não vim para administrar, vim para cuidar; empresa eu administro, um povo vivo e sofrido eu cuido". Linguagem inaudita e instauradora de um novo tempo na política brasileira. O "Fome Zero", depois o "Bolsa Família", o "Crédito Consignado", o "Luz para Todos", o "Minha Casa, minha Vida, o "Agricultura familiar, o "Prouni", as "Escolas Profissionais", entre outras iniciativas sociais permitiram que a sociedade dos lascados conhecesse o que nunca as elites econômico-financeiras lhes permitiram: um salto de qualidade. Milhões passaram da miséria sofrida à pobreza digna e laboriosa e da pobreza para a classe média. Toda sociedade se mobilizou para melhor.

Mas essa derrota infligida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um "não retorno definitivo" e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse. Terminou o longo amanhecer.

Houve três olhares sobre o Brasil.
Primeiro, foi visto a partir da praia: os índios assistindo a invasão de suas terras.
Segundo, foi visto a partir das caravelas: os portugueses "descobrindo/encobrindo" o Brasil.
O terceiro, o Brasil ousou ver-se a si mesmo e aí começou a invenção de uma república mestiça étnica e culturalmente que hoje somos.

O Brasil enfrentou ainda quatro duras invasões:
a colonização que dizimou os indígenas e introduziu a escravidão;
a vinda dos povos novos, os emigrantes europeus que substituíram índios e escravos;
a industrialização conservadora de substituição dos anos 30 do século passado mas que criou um vigoroso mercado interno e,
por fim, a globalização econômico-financeira, inserindo-nos como sócios menores.

Face a esta história tortuosa, o Brasil se mostrou resiliente, quer dizer, enfrentou estas visões e intromissões, conseguindo dar a volta por cima e aprender de suas desgraças. Agora está colhendo os frutos.

Urge derrotar aquelas forças reacionárias que se escondem atrás do candidato da oposição. Não julgo a pessoa, coisa de Deus, mas o que representa como ator social.
Celso Furtado, nosso melhor pensador em economia, morreu deixando uma advertência, título de seu livro A construção interrompida (1993): "Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta no devir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-Nação" (p.35). Estas não podem prevalecer. Temos condições de completar a construção do Brasil, derrotando-as com Lula e as forças que realizarão o sonho de Celso Furtado e o nosso.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Do Brasil para a câmara de gás

Num ofício confidencial transmitido ao Itamaraty em 24 de abril de 1936, José Joaquim Moniz de Aragão, embaixador brasileiro em Berlim, assim escreveu: "Pelas informações agora obtidas, Olga Meirelles, Olga Villar, Maria Bergner ou Maria Prestes, citada nos jornais brasileiros como esposa de Luís Carlos Prestes, pode ser identificada como sendo Olga Benário, agente comunista da Terceira Internacional (...), de raça israelita, tendo nascido em 12 de fevereiro de 1908 em Munique, na Baviera". Era a informação que faltava para Filinto Müller, chefe de polícia do Distrito Federal: agora seria possível chegar ao decreto de expulsão para a companheria de Prestes, capturada com ele no mês anterior, pouco tempo depois do fracassado levante comunista.

Estava sendo escrita uma das páginas mais tristes do governo Vargas. Com base na Lei de Segurança Nacional, que previa a expulsão do território naiconal de estrangeiros perigosos para a ordem pública, Olga, apesar do pedido de habeas corpus e de sua gravidez avançada, é embarcada num navio cargueiro diretamente para a Alemanha. Ale, é conduzida por oficiais da Gestapo para uma prisão berlinense, onde dará à luz Anita Leocádia, entregue pouco tempo depois á avó paterna.

Oriunda de família judia, a jovem militante do movimento comunista alemão e mais tarde enviada para o Brasil pela organização internacional do partido, Olga Benário é encaminhada em 1939 para o campo de concentração de Ravensbrück e depois paa o de Bemburg, onde morreu em abril de 1942. Era judia e comunista, dois crimes imperdoáveis aos olhos dos nazistas. Mas, talvez, também aos olhos de Getúlio Vargas.





Texto extraído (por Marcello Scarrone) da Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº 58, julho de 2010.

Judaísmo imperial

O interesse de D. Pedro II pelas artes, pelas letras e pela ciência é bastante conhecido. O gosto intelectual do imperador acabou ficando famoso. O que muita gente não sabe é que ele se dedicou também ao hebraico, podendo ser considerado o precursor dos estudos hebraicos no Brasil. Ele queria - segundo seus escritos no livro Poesias hebraico-provençais do rito israelita Comtadin (1891) - conhecer a história e a literatura dos judeus, principalmente a poesia e a mensagem universal dos profetas, assim como as origens do Cristianismo. Posteriormente, ele usou o conhecimento da língua para traduzir trechos do Velho Testamento para o português. Em sua viagem à cidade de Jerusalém, Sua Magestade traduziu textos da Bíblia para o hebraico junto com seu mestre, para o hebraico junto com seu mestre, Sr. Karl Henning, mas não falou hebraico em momento algum. Também não visitou qualquer sinagoga de judeus na Cidade Santa.

Como o desejo do imperador era uma ordem, a Corte financiou por quase 30 anos (1860-1890) as aulas de hebraico com quatro mestres diferentes e extremamente qualificados - um deles, Leonhard Akerbloom, foi cônsul da Suécia e da Noruega no Rio de Janeiro. Esses professores foram contratados com generosas remunerações e benefícios especiais.

O acervo do Museu Imperial de Petrópolis conserva alguns dos "Cadernos de Estudo de Hebraico" do imperador. Um deles é o Glossarium hebraicum liber genesis I-II et liber psalmorum, com dezenove folhas de exercícios gramaticais, feitos pelo próprio monarca, a partir de textos bíblicos. As explicações dadas por D. Pedro II não aparecem em português, mas em inglês e grego. Já as notas escritas na margem das páginas foram feitas em latim, num caligrafia miúda.



Texto extraído (por Reuven Faingold) da Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº 58, julho de 2010.



Leia mais sobre a cultura judaica no Brasil em www.rhbn.com.br/judeus

Portal de História

A Comarca do Rio das Mortes, fundada em 1714, foi uma das três primeiras existentes na capitania das Minas Gerais. No início do século XIX, já era a mais extensa e populosa. O Laboratório de Conservação e Pesquisa Documental da UFSJ lançou o portal Arquivos Históricos da Comarca do Rio das Mortes - Minas Gerais, com o resultado de mais de 15 anos de pesquisas em acervos de cartórios. O site apresenta 14 bancos de dados disponíveis para download, contendo processos criminais e cíveis, inventários, testamentos e livros de querela. No total, são mais de 62 mil páginas digitalizadas, com documentos de São João del Rei, Oliveira e Conselheiro Lafaiete, entre outras cidades. O acervo vai do século XVIII ao início do século XX, e pode ser visto no endereço www.documenta.ufsj.edu.br.



Texto extraído da Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº 58, julho de 2010.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A escola e os discursos excludentes

"Cada um é feliz a sua maneira".
(Zé Geraldo)


A ideologia e os discursos dominantes têm ao longo da história modelados o destino de pessoas e civilizações. Por isso, um sistema de dominação nos impõe códigos ordenadores dentro dos quais vivemos.

A escola, assim como a família, é uma das agências de sociabilidade mais importantes ao ser humano. Ela é o locus onde aprendemos, nos educamos e nos preparamos para a vida. Mas será que 'aprendemos' tudo o que necessitamos? Será que a escola prepara os alunos para enfrentar a vida?

Por que, ainda, existem na escola os discursos excludentes, o preconceito e a discriminação? Quero, aqui, tratar de uma questão que há bastante tempo a escola vem se negando a encarar que é a sexualidade (isto é, da homossexualidade) "uma das mais importantes e complexas dimensões da condição humana".

As direções das escolas muitas vezes fecham os olhos para não participar(em) de conflitos. O lugar (a escola) que deveria ser neutro quando o assunto é preconceito, também se revela contra pessoas de orientação sexual fora dos padrões estabelecidos, isto é, reforçando a homofobia.

Nas escola públicas, em particular, a questão da homossexualidade sofre preconceito muito acentuado. Isso se dar em todo ambiente escolar, que vai desde o aluno, passando por professores, supervisores, diretores, além do pessoal de apoio (zeladores, merendeiras, secretários etc). A escola não sabe lidar com essa questão (ou finge não saber) e muitas vezes corrobora com o preconceito.

Assim, a instituição escolar com sendo reflexo da vida cotidiana, mas também local de múltiplas transformações deveria ao menos aceitar e respeitar ao máximo as diferenças dos outros. Contudo, educadores e funcionários reagem conservadoramente, atacando a homossexualidade e aos homossexuais.

Pejorativamente, é perceptível no espaço escolar os discursos engendrados que elaboram um discurso homofóbico ao fazerem piadas preconceituosas e atitudes discriminatórias contra alunos com comportamentos homossexuais.

Em decorrência dessas práticas escolares, se faz necessário criarmos mecanismos ou práticas pedagógicas eficazes para combater tais atitudes conservadoras. Sem mudanças das mentalidades, dos discursos vazios, das práticas pedagógicas excludentes e das concepções, impulsionadas pelo discurso dominante, a escola está reforçando a prática da hostilidade e iniquidade contra pessoas homossexuais.

Isso só acontece ainda, infelizmente, porque professores trazem consigo uma definição engessada e conservadora de como jovens deveriam ser e agir. Em razão disso, as pessoas não podem ser inferiorizadas, estigmatizadas (pela família, escola e sociedade) por sua homossexualidade. Com isso, devemos nos fundamentar em atos e palavras antidiscriminação, a fim de coibir pequenos desrespeitos, exclusão, ataques violentos, além das crueldades diretas e indiretas que deformam a vida das pessoas gays.

Mesmo que, o Ministério da Educação, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (1997) tenha oferecido, mesmo que timidamente, às escolas, a possibilidade de trabalhar orientação sexual; os docentes, no entanto, ainda não estão preparados para lidar com essa questão.

Na Antiguidade, a bissexualidade era socialmente aceita e o homossexual considerado. Mas, ao longo da história a homossexualidade foi sendo associada à doença, à perversão ou à criminalidade.

Hoje, em dia, a homossexualidade e a bissexualidade são consideradas desvios da norma, convencionados pelos discursos dominantes, onde as estruturas opressivas são mantidas pelo sistema legal, pelas estruturas familiares, pelas convenções sociais etc, que produzem um argumento insano, desumanizante, e, que isola as pessoas gays merecedoras de respeito, direitos e representação. Como bem observou Sarah Schulman, professora da City University of New York (CUNY) em seu brilhante texto (Homofobia familiar: uma experiência em busca de reconhecimento, editado pela Revista Bagoas, v.4, n.5, jan./jun. 2010), o homossexual quando é descartado (pela família, escola e sociedade) "(...) se transforma em alvo conveniente para a crueldade dos outros".

Em suma, nós educadores não temos o direito de excluir as pessoas por sua orientação sexual, mas, sim, de elaborarmos uma ação capaz de evitar, assim, com "alusões à anomalia, à perversão ou ao desvio" (Ceccarelli, 2010). Com isso, não podemos classificar as pessoas como "normal" ou "anormal" "a partir de sua manifestação ou inclinação sexual", enfatiza Paulo Roberto Ceccarelli, Professor do Departamento de Psicologia da PUC - MG (Homossexualidade: verdades e mitos. Revista Bagoas, EDUFRN, 2010).

Portanto, no ambiente escolar, comportamentos desviantes da norma são frequentemente reprimidos e encarados como problemas. Por consequência, temos que ter um modo singular de olhar que altere a todo momento as estruturas de poder. Assim, o respeito pelo outro deve ser construído em nosso discurso e prática, e, não com o objetivo de sua exclusão. O nosso discurso que exclui, separa e nega, instaura-se num gesto historicamente repetitivo que precisa ser avaliado, questionado e modificando; se é que pensamos evoluir.

Por Lima Júnior

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Ditadura no Brasil: 1964 - 1985

A segunda metade do século XX no Brasil fora marcado, politicamente, por um Golpe Militar ocorrido em abril de 1964. Neste período, o Brasil foi governado por um regime militar, "no qual a direção das Forças Armadas assume o controle de vários setores do poder público", observa Gilberto Cotrim. Estiveram à frente da presidência da República cinco generais: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo.

O país passava por um período de inquietação política desde a destituição do presidente João Goulart do poder. Os anos 60 e 70 foram marcados pelo poder ditatorial dos militares linha dura: Castelo Branco, Costa e Silva e Médici.

O movimento golpista foi impetrado por um grupo de oficiais reacionários posicionados no interior das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica), desejosos de estabelecer a ordem politica e impedir o avanço do comunismo no Brasil. Assim, o discurso em "defesa da democracia" foi utilizado para justificar a ditadura.

Dezembro de 1968. O clima é de intranquilidade no país. A 13 de dezembro, o Congresso Nacional foi fechado por meio da Ato Institucional nº 5 do presidente Costa e Silva. Na verdade, o AI-5 acabou consolidando a ditadura. Suspenderam-se o direito de habeas-corpus, interromperam-se mandatos e direitos políticos. Atendendo os anseios da burguesia nacional e do capital externo, o Ato promove a riqueza de poucos à custa da miséria de muitos. Portanto, cassações, punições e mortes foram à tônica dos governos militares.

Setembro de 1969. As atividades das organizações armadas (ALN e o MR-8) radicalizaram-se. Um grupo de revolucionários sequestrou o embaixador americano no Brasil Charles Elbrick. Entre setembro de 1969 e dezembro de 1970, quatro diplomatas foram sequestrados pela esquerda armada. O objetivo dos sequestros era trocar os diplomatas por companheiros exilados. Os grupos armados de esquerda procuraram se especializar em combates, alguns militantes de esquerda, imbuídos pela ideologia comunista, fizeram treinamento militar em Cuba. Desde o governo de Jango, que militantes da esquerda vinham treinando táticas de guerrilhas. Com isso, assaltaram bancos, destinados a financiar estruturas clandestinas.

Em consequência da morte do presidente Costa e Silva, assume a presidência do Brasil uma Junta Militar (31/8/1969 a 30/10/1969) que ficou conhecida como "Os Três Patetas", comandada por Lyra Tavares (Exército), Augusto Radamaker (Marinha) e Márcio de Souza Mello (Aeronáutica). Após o período de governo da Junta Militar, assume o controle do país nessa época, o então General Emílio Garrastazu Médici, que governou o país de 1969 a 1974.

O governo de Médici se deu em um período, onde o ufanismo correu solto: "Brasil, Ame-o ou Deixou-o". "Brasil Grande", "Brasil Potência", "Pra Frente Brasil". As campanhas publicitárias tinham como objetivo enaltecer e exaltar a imagem do governo, sempre mostrando para o país um clima de tranquilidade. Revestido com a máscara do bom caráter, o bonachão Médici autoriza grupos de para-militares e dos aparelhos repressivos do estado prender, tortura e prender quem ousasse opor-se ao regime. Enquanto o país comemora o tri-campeonato na Copa de 70, no México, milhares de militantes da esquerda gemiam nos porões da ditadura. Além disso, até mesmo as universidades não ficaram fora do controle do governo. Professores e estudantes foram investigados, assim como estava, terminantemente, proibido o uso da literatura marxistas.

Além de combater a "guerrilha urbana", o governo militar enviou tropas do Exército para a região do Araguaia, sul do Pará, para extinguir a "guerrilha rural". Até, tropas militares desembarcaram no Maranhão e em Goiás para combater focos de guerrilheiros numa operação denominada, "Operação Mesopotâmia". Esta operação estava sobre o comando do General Antônio Bandeiram, um velho conhecido torturador.

Foram necessárias três campanhas militares no Araguaia para conter o ímpeto da esquerda armada. Nas duas primeiras o comando ficou a frente do General Bandeira. Mauricio Grabais, dirigente do PCdoB, que viveu o conflito no Araguaia, enviou carta aos companheiros pedindo reforço, mas fora interceptada pelos militares. Assim como Mauricio, Carlos Nicolau Danielli, outro integrante que participara dos combates no Araguaia foi assassinado pelos militares em São Paulo. Outro que morreu nas mesmas circunstâncias de Nicolau, foi Joaquim Câmara Ferreira, conhecido como "Toledo", da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi confirmado, que Ciro Flávio Salasar Oliveira, guerrilheiro morto no Araguaia em 1972, preferiu o suicídio que se entregar as tropas do general Bandeira. Foi só na terceira campanha, em 1975, sob o comando do General Hugo Abreu, que a guerrilha foi internamente derrotada.

As sessões de torturas no DOI-CODI, no DOPS e nas dependências do Exército, bem como da morte do jornalista Vladimir Herzog mostra a face mais repressiva do regime. A morte de Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura (SP), suspeito pelos agentes de segurança do II Exército da reorganização do Partido Comunista em São Paulo. Submetido as sessões de torturas e interrogatórios, o jornalista fora assassinado. O II Exército explica que o mesmo enforcara-se com o cinto do macacão. Havia uma contradição, a cela onde fora colocado não havia lugares altos onde pudesse prender o cinto e suicidar-se. O crime brutal ocorrido no final de 1975 marcaria o início de mais uma fase de luta da sociedade pela democracia e contra os atos arbitrários do governo. Ea preciso remover as marcas do autoritarismo e edificar um estado democrático de direito. Contra, as arbitrariedades cometidas, foi realizado um culto ecumênico na Catedral da Sé, em São Paulo, em memória de Herzog. Após tantos anos de autoritarismo e repressão policial, a sociedade voltava a mobilizar-se. Com grande participação popular, teve a frente da cerimônia o Cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns e o Rabino Henry Sobel.

No interior de São Paulo, outro caso chama a atenção da sociedade, na cidade de Osasco um jovem operário, que tinha ligações com a esquerda militante, conhecido como Manuel Fiel Filho, que teria sido preso e levado para as dependências do II Exército, onde fora assassinado sob torturas, nas mesmas circunstâncias de Herzog. O povo clamava por justiça. A mobilização popular passou a surtir efeito, uma vez que o Ministro da Justiça reconheceu e responsabilizou o Governo Federal pelas atrocidades ocorridas no interior das dependências do II Exército. Durante essa época, governava o Brasil o General Ernesto Geisel (15/3/1974 a 15/3/1979), que apresentava ao povo brasileiro uma proposta de "abertura lenta e gradual" no processo democrático. Diante dos fatos ocorridos, Geisel demitiu o comandante do II Exército, o General Ednardo d'Avila Mello, provocando assim, o primeiro golpe contra o regime militar montado desde o governo de Castelo Branco. Nessa época, a imprensa alternativa que era conhecida como "imprensa nanica" passou a ganhar força com publicação de denúncias mostrando a cara do país. Porém, teve curta duração. As manchetes dos jornais divulgavam: "Luta pela Anistia em todos o cantos", "O povo na rua contra o governo", "Brasileiros no Exílio", "Empacotaram o Brasil".

Nos regimes autoritários de governo, o poder é imposto de cima para baixo, portanto, nas instituições não eram diferentes. Passaram a ser introduzidas nas dependências das Forças Armadas demonstrações práticas dos métodos de torturas pelas autoridades militares. Aulas de torturas eram ministradas por policiais norte-americanos, onde presos políticos eram utilizados como "cobaias". Os acusados eram, violentamente, torturados diante de uma platéia que zombavam, riam e humilhavam os interrogados. Para o Regime Militar, as confissões e informações deveriam ser arrancadas dos acusados por meio da violência. O artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos ("Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante"), foi ignorado pelas autoridades brasileiras.

Vários foram os instrumentos utilizados para torturarem os opositores: o pau-de-arara; a pimentinha; o choque elétrico; o afogamento; lesões físicas; utilização de produtos químicos e tantos outros. O eletro-choque, normalmente era dado nas partes sexuais, ouvidos, língua etc. Alguns tomavam choques elétricos com o corpo molhado para maior efeito. Esses métodos, ainda hoje, são utilizados pela polícia no Brasil.

Os militares sempre interferiram nas questões políticas do país. Foram eles, os autores direto da queda do Império de D. Pedro II. Durante a República Velha (1889-1930) foram responsáveis pela ação repressora a "Guerra de Canudos" (1897) e da"Guerra do Contestado" (1912-1916). Em 1935, aborta as intenções da "Intentona Comunista", que não passou de uma quartelada. Conteve as ações dos revolucionários da "Coluna Preste". Finalizou o ciclo do cangaço em 1938 com a morte de "Lampião". Em 1945, Getúlio Vargas é deposto do poder por um golpe de estado comandado pelo General Góis Monteiro. Em abril de 1964, João Goulart é destituído do poder por um golpe encabeçado pelos militares e pelos grupos políticos oposicionistas.

O governo do General Eurico Gaspar Dutra, que presidiu o Brasil de 1946 a 1951, irá desempenhar uma forte influência na "República Militar" autoritária de 1964. Com Dutra no governo, foi criada a Escola Superior de Guerra (ESG), inspirada na National War College dos Estados Unidos. Os militares brasileiros egressos dos E.U.A., em 1948, implantaram a Doutrina de Segurança Nacional. Essa doutrina estava assentada num sistema político, onde visava à eliminação do comunismo, dos movimentos populares, líderes sindicais, intelectuais, estudantes, operários e camponeses que provocassem alterações na situação social, política e econômica do país. Ela foi implantada pelos norte-americanos, que financiaram milhares de ditaduras na América Latina.

O autoritarismo desencadeou uma simplificação da participação política das massas; refletida na luta da classes. Ao regime não era interessante a politização das massas, mediante a dialética marxista. Pensar desta forma, é uma visão estreita e dogmática, onde não se permite as filiações político-ideológicas, a corrente revolucionária marxista, ou seja, os militares, assim como os EUA temiam o avanço do comunismo na América. Não aceitam o marxismo como um modo de pensar. É permitido sim, aceitar, apenas, as correntes de pensamento burguês. Vamos encontrar teorias cientificas que fundamentaram o regime, discursos ideológicos onde se produz preconceitos, racismo etc. Não havia sentido para o regime, as ideias críticas. Para as classes dirigentes, é necessário manter em seu projeto ideológico, a alienação, o poder e a dominação. Isto é, manter as classes subalternas presas ao senso comum, as opiniões etc, ao que submetê-las ao modo crítico de pensar. A austeridade política durante a ditadura militar produziu efeitos negativos para a educação, onde não era permitida a reflexão crítica nas escolas e universidades. A ideologia socialista e a esquerda organizada colocam em risco a própria defesa da democracia no país, assegura os militares.

O que temos visto ao longo do processo histórico, é que as democracias existentes na América Latina durante ao anos 60, 70 e 80 (do século XX), não passaram de uma imitação grosseira de democracia do tipo britânica. Não passou de um regime político fundamentado no autoritarismo e "revestido com a máscara democrática".

Conventos foram cercados e templos religiosos invadidos sobre as ordens dos altos mandatários do regime. A Igreja que apoiara a derrubada do governo de "Jango", também desempenhou um papel significante na fundamentação do regime, agora é repreendida. A ala conservadora da Igreja Católica engajou-se na campanha anticomunista, contraria aos movimentos sociais e a reforma agrária. Mas, essa postura não atingiu todo o clero brasileiro. Era frequente nos sermões, ver padres instigarem os fiéis a lutarem contra as injustiças sociais, atacando a repressão política e militar. Como retaliação, padres e grupos de jovens da pastoral operária e da pastoral camponesa foram perseguidos e presos pelo regime.

Diante de tudo isso, em abril de 1977, Geisel propõe uma reforma do poder judiciário, mediante uma emenda à Constituição. O governo precisava de 2/3 do apoio dos parlamentares. Porém, o MDB recusou-se a dar apoio à emenda, uma vez que não tivera participação na elaboração da mesma. Usando das prerrogativas do AI-5, Geisel fehca o Congresso e cria o "Pacote de Abril", conjunto de medidas legislativas que reforma o poder judiciário. O ano de 1978 será um ano eleitoral, havendo eleição indireta para a presidência da república pelo colégio eleitoral, que posteriormente seria indicado pelo presidente Ernesto Geisel. Ademais, haveria eleições para escolha dos representantes dos estados, como também para o legislativo.

Temendo que 1974 se repetisse, onde o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) conquistou a maioria nas eleições. Pelo "Pacote", o governo determinou que um 1/3 dos senadores fosse escolhido por eleições indiretas, eram os chamados "senadores biônicos". Tal medida permitiu ao governo o controle do senado em suas mãos. A emenda manteve a escolha indireta dos governadores estaduais. Além disso, o mandato presidencial passou de 4 para 5 anos. Foi criada a "Lei Falcão", de autoria do Ministro da Justiça Armando Falcão, limitando a propaganda eleitoral no rádio e na tv. A escolha do sucessor de Geisel, trouxe preocupações ao presidente. O general Sílvio Frota, então Ministro do Exército, desejava ser o novo presidente da república. O general Sílvio Frota identificava-se com a ala conservadora das Forças Armadas. Mas, tal posicionamento não era visto com bons olhos por Geisel, que decidiu demiti-lo do ministério. Após, frustadas tentativas de resistência, o general Frota foi demitido. Outro que fora demitido foi o chefe do gabinete militar da presidência, o general Hugo Abreu, que "acusava os assessores do presidente de corruptos, oportunistas e traidores". Geisel temia que o processo da "abertura política" desaparecesse com a aprovação do general Sílvio Frota paa o comando do país.

Para dar seguridade ao regime, Geisel instituiu as "salva-guardas constitucionais", em substituição aos atos institucionais para garantir a "defesa do Estado". Elas eram empregadas em estado de emergência, em estado de sítio. Para tanto, poderiam limitar "certos direitos do cidadão, como o de reunião, e permitiam à polícia a invadir residências, prender sem ordem judicial etc". Em outubro de 1978, Geisel revogou o AI-5, acelerando o processo de distensão lenta e gradual do regime, que seria seguido, pelo seu sucessor (o general João Batista Figueiredo), quando estabeleceu o a abertura política.

A economia brasileira durante os "anos de chumbo" (1965-1985), esteve voltada ao capital externo e atendendo aos anseios da burguesia capitalista nacional. No governo Castelo Branco foi elaborado o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), que via os altos índices inflacinários como sendo o principal obstáculo ao crescimento econômico do país. Foram causas da inflação, o déficit público do governo; os excessivos créditos para o setor privado e os constantes aumentos dos salários. Além disso, os novos empréstimos desenhavam uma crise inflacionária. Voltado para uma "política econômica recessiva e desnacionalizante", o governo ia minando sua popularidade. Tal política, procurou a todo custo relegar a indústria nacional, bem como empobreceu o operariado urbano e os camponeses.

A política econômica do governo Costa e Silva, propunha aumentar o consumo, mediante a facilidade de crédito ao consumidor. Para garantir um crescimento econômico rápido, facilitou os investimentos estrangeiros. Foi uma época de arrocho salarial, com isso a capacidade de consumo das classes sociais populares foi reduzida. A contenção dos salários provocou um clima de descontentamento da população. No governo Médici, ocorreu o chamado "milagre econômico", em 1973.

A economia do país voltou a registrar altas taxas de crescimento industrial. Esse "milagre" se deu mediante a reconcentração de renda, onde as indústrias de bens não-duráveis estavam voltadas para um mercado de baixa remuneração; que atendesse as camadas populares. As industrias de artigos de luxos, de bases de consumo de artigos duráveis tenderam a crescer. Por isso, as classes altas passaram a consumir cada vez mais com o fenômeno da reconcentração.

A abertura externa da economia foi um outro fator que contribuiu para o crescimento econômico brasileiro, uma vez que só foi possível graças aos investimentos estrangeiros, como exemplo, a forte presença das multinacionais que passaram a dominar setores como: químico-farmacêutico, eletrônico, metalúrgico, automobilístico etc. O papel das empresas estatais foi importante, já que para acumular capital foi preciso as indústrias nacionais se modernizarem. Empresas como a Petrobrás e Eletrobrás, tipicamente capitalista se modernizaram e dinamizaram a indústria de bens de produção, obtendo assim grandes lucros. No cenário da economia internacional, a crise de petróleo da OPEP, em 1973, contribuiu para a crise do milagre econômico brasileiro.





Dedico este texto ao prof. José Adeildo Ramos (UERN), vítima da ditadura militar.