sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

D. Pedro II, quem explica?



Monarca republicano, imperador cidadão, abolicionista num país escravocrata, intelectual num mar de analfabetos. Interprete-o a gosto!

Lorenzo Aldé
1/11/2012 


O ex-imperador morto em Paris, em 1891: honras de chefe de Estado e um travesseiro com terra do Brasil. (Fundação Biblioteca Nacional)

Legítimo descendente das mais nobres dinastias monárquicas europeias, D. Pedro II acreditava mesmo era no regime republicano. Imperador desde os cinco anos de idade, era fã da democracia. Abolicionista declarado, viu seu país ser o último a acabar com a escravidão nas Américas. À frente de uma nação com 80% de analfabetos, seria para sempre lembrado por sua dedicação à Educação. Conhecido como “rei filósofo”, não nos legou qualquer produção intelectual ou artística própria. Contido e comedido, avesso aos “tristes negócios da política”, logrou garantir a estabilidade política e a unidade nacional diante de pressões diversas, sobressaindo-se pela atuação segura na maior guerra que o Brasil já enfrentou.
Como é possível que uma das figuras mais marcantes e conhecidas de nossa História permaneça associada a tamanhas contradições? Nem os mais eficientes estudos e biografias são suficientes para desfazer essa impressão: D. Pedro II é, sobretudo, um personagem incompreendido. Ou compreendido apenas em parte. Juntar seus pedaços significa esbarrar, sempre, em grandes enigmas.
Para as almas que só se aquietam diante de consensos, pode ser agradável concluir que o imperador foi um governante querido e respeitado de forma quase unânime em seu tempo. Mas sempre há quem conteste o consenso. Em 1925, em meio aos festejos laudatórios em torno do centenário de D. Pedro II, o ainda jovem sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) fez uma conferência pública dedicada a demolir o mito. Em suas palavras, o Império teria sido um “período melancolicamente virtuoso”. Culpa do imperador, responsável por implantar entre nós uma “ditadura da moralidade, com suas preocupações de marcar a lápis azul o estadista que tinha amante, o senador que bebia, o político que jogava”. Não é de estranhar que Freyre – cuja obra enalteceria a miscigenação que forjou no Brasil uma cultura inédita no mundo – se incomodasse com os modos excessivamente europeizados do imperador. Figura impávida e inatacável, afeita mais às letras e às ciências do que ao contato social, mais às leis e às normas do que às relações afetivas e parentais, D. Pedro II contrariava a brasilidade festiva e manemolente enaltecida por Freyre. Seus valores puritanos seriam alienígenas à cultura nacional, como “um pastor protestante a oficiar em catedral católica”.
Difícil não se deixar seduzir pelo inspirado diagnóstico do pensador pernambucano. Mas tal “desajustamento ao meio e ao momento”, se existiu, não deve ter sido de todo mau. Ajustado ao meio e ao momento pelo qual passava o mundo, D. Pedro ajudou a incutir no Brasil princípios até então praticamente inéditos por aqui. Princípios considerados, na época, “civilizatórios”, que hoje qualificamos como “republicanos”: respeito ao interesse público, despersonalização da política, meritocracia. Nem por isso deixamos de ser mestiços, festivos ou adeptos do improviso. A excepcionalidade de D. Pedro II teria servido apenas para dar uma contrabalançada na receita.
Além do mais, caso fosse mesmo um desajustado, não teria reinado por quase 50 anos. É o que sustenta Roderick J. Barman, autor do livro Imperador cidadão, em entrevista por e-mail. Ele lembra que D. Pedro não estava sozinho: “O grupo que liderava o Brasil durante a primeira metade do século XIX havia sido, em sua maior parte, educado na Europa, e tomava França e Inglaterra como modelos do que o Brasil deveria ser (aliás, todos os ‘homens de casaca’, educados, compartilhavam essa visão). Neste sentido, Pedro II era bem brasileiro”, defende.
Mas o historiador canadense, com mais de quatro décadas dedicadas ao estudo do Brasil Império, também tem sua tese controversa. Apresenta-a em forma de pistas: é o mais popular político da nossa História; apresenta-se como a encarnação das aspirações do país; é aberto, amigável e gentil, apto a comunicar-se com gente simples e identificar suas necessidades; tranquilizadoramente gordinho, não representa ameaça a ninguém, e ao mesmo tempo é digno e imponente, um legítimo chefe de Estado; transformou aimagem do Brasil como um Estado-nação, tornando-o conhecido e respeitado em todo o mundo.Quem seria este personagem? Para Barman, são dois em um: D. Pedro II e Luiz Inácio Lula da Silva.
Fique o leitor à vontade para refletir sobre a inusitada associação. Para os acadêmicos, é fácil descartá-la sob o argumento do anacronismo. Mais proveitoso, no entanto, pode ser considerá-la uma licença poética. A liberdade interpretativa é um direito inalienável de quem se propõe a ler a história, e tem o potencial de abrir novos caminhos.
Com respeito ao nosso protagonista, uma definição soa inadequada. “Amigável” e “gentil”, até pode ser. Mas “aberto”? Biógrafos descrevem D. Pedro como tímido, inseguro, taciturno. Quanto a “comunicar-se com gente simples”, o próprio Barman, em seu livro, cita a fala de uma pessoa próxima ao imperador, segundo a qual ele tinha “catinga de rei”, considerando-se feito “de outra fibra e superior a toda a gente”.
Mais uma vez, há controvérsias. O nobre imperador era de fato receptivo e surpreendentemente despido de preconceitos comuns em seu tempo. Caso emblemático foi sua relação com D. Obá, ou “príncipe Obá II d’ África”, como se autoproclamava Cândido Fonseca Galvão, um filho de escravos e neto de imperador africano. Depois que lutou com bravura na Guerra do Paraguai, promovido a oficial honorário do Exército, o baiano tornou-se personalidade pública no Rio de Janeiro na década de 1870. Liderava campanhas contra os maus-tratos no Exército, pelo fim do uso da chibata, pela igualdade racial e pela abolição da escravatura. “Era adorado pelos negros libertos e malvisto pela elite, que o desprezava. Os jornais o ridicularizavam, retratado como um louco”, descreve Eduardo Silva, pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, em conversa com a RHBN. Entre essas duas visões inconciliáveis – a dos ex-escravos dos cortiços e a dos escravocratas da elite –, de que lado ficou o imperador? Com os primeiros. Mesmo criticado, D. Pedro II recebia D. Obá em palácio, reconhecendo seus serviços no Paraguai e tratando-o com todo respeito. “Meu coração é cheio de PII, PII”, dizia o príncipe africano, em gratidão ao bom tratamento recebido do monarca. Eduardo Silva lembra que recentemente foi descoberta a única fotografia conhecida de D. Obá, entre os bens da princesa Isabel. “Só o fato de terem guardado mostra certo respeito que a família imperial nutria por ele”, comenta.
Monarquia e abolicionismo costumam ser vistos juntos. Isabel entrou para a História como “a Redentora”. Proclamada a República, o governo reprimiu fortemente os espontâneos festejos populares em torno do 13 de Maio, por louvarem a monarquia. Ao mesmo tempo, uma milícia de guardas negros combatia o regime e ansiava pela volta da coroa.
Tudo certo, mais ou menos. Uma pergunta ainda incomoda: se era tão simpática ao regime, por que a abolição não veio antes? Quanto a D. Pedro, do alto de seu poder imperial, será que ele fez menos do que poderia?  
Na biografia D. Pedro II: Ser ou não ser, José Murilo de Carvalho defende que ele “não escondeu sua posição contrária à escravidão”, embora “nem sempre jogasse todo o seu peso político do lado dos abolicionistas”. Roderick J. Barman pondera que “a escravidão estava entranhada e era vista como indispensável em todos os níveis da sociedade”, mas reconhece que “a falta que se pode cobrar [de D. Pedro II] é, depois do seu retorno ao Brasil em 1877, não ter agido para assegurar que o processo de emancipação fosse ao mesmo tempo reforçado e acelerado”. Para Eduardo Silva, “claramente ele não se sentia confortável com essa situação. Mas não dependia dele, tinha o Senado e Câmara. A princesa assinou a Lei Áurea porque foi aprovada pela Câmara, não poderia fazer por decreto”.
É, portanto, um tema propício para nos lembrar que não é possível separar o governante de seu tempo, nem o Estado da sociedade que representa. São os dois lados da moeda: se não se pode culpar o indivíduo pelos atrasos que persistiram na sociedade brasileira do século XIX, também não são mérito exclusivo do imperador as conquistas da época.
Quanto a “não jogar todo o seu peso político” – esta, sim, uma variável individual –, a historiadora Alessandra Fraguas afirma que, de fato, D. Pedro II costumava abrir mão de exercer seu Poder Moderador. A análise de todas as minutas das reuniões do imperador com o Conselho de Estado demonstra que ele assumia “mais um caráter mediador do que fazia prevalecer a sua vontade”. Alessandra integrou a equipe do Museu Imperial de Petrópolis que durante dois anos debruçou-se sobre cerca de 30.000 documentos para organizar um dossiê sobre as viagens de D. Pedro e registrá-lo no programa Memória do Mundo, da Unesco.
A pesquisadora cita um documento para exemplificar o interesse do imperador pela emancipação dos escravos. Em rascunhos que se estendem por algumas páginas – palavras riscadas e reescritas, registrando seu raciocínio “em tempo real” –, ele faz contas sobre as possíveis idades dos escravos a serem libertados e as respectivas indenizações a serem pagas. “Como emancipá-los gradualmente pela lei?”, pergunta-se o monarca. “Os de 30 [anos] são os que prestarão mais serviço, e os de 60 já o terão prestado 30 anos, e merecem sua emancipação por lei, sem indenização a quem já tirou dele o maior lucro”, calcula, para em seguida concluir que, por essa proposta, o último escravo seria libertado “em 1931”. “Seria muito tarde”, reconhece, “embora deva-se atender aqui o termo médio de vida do escravo que é de menos de 39 anos e assim o número dos escravos não será grande nessa época”. É o D. Pedro II ponderado e conciliador, a favor de avanços “civilizatórios”, mas zeloso para que fossem graduais, sem rupturas legais.
Naquilo em que os valores do indivíduo não dependiam de negociação política, ele era exemplar. Recusava aumentos salariais, só viajava bancando-se do próprio bolso, aceitava os piores ataques da imprensa numa impavidez olímpica (e jamais repetida em toda a História da República), aceitava democraticamente a existência de um Partido Republicano em plena monarquia.
Alessandra Fraguas vem propondo novas leituras sobre a trajetória do imperador, entre elas uma análise de sua relação com as ciências. Sabe-se que a sólida formação intelectual de D. Pedro II não resultou em inteligência destacada. Era mais enciclopédico do que livre-pensador. “O intelecto de D. Pedro II não era de modo algum extraordinário (...) Sua suposta familiaridade com a maioria dos campos de conhecimento parecia pretensiosa e pouco convincente”, escreve Barman em Imperador cidadão.
A definição de “rei filósofo” merece ser relativizada: “filósofo”, na época, era quem se dedicava a estudos e pesquisas humanísticos. Hoje o imperador não seria um “filósofo” pela simples razão de não filosofar por conta própria. Se é possível filiá-lo a algum dos campos de conhecimento que vicejavam na época, a pesquisadora qualifica D. Pedro como nosso... imperador-etnógrafo. Nas viagens que fazia pelo Brasil e ao exterior, tinha gosto pela observação antropológica, desenhando e descrevendo os cenários e os tipos humanos que encontrava pelo caminho, registrando vocabulários, traduzindo termos.
Mais do que a consagrada “defesa da pátria”, será que estamos diante de uma radiografia mais profunda da alma do imperador republicano? Sua maior motivação seria, na verdade, desbravar o mundo?
Em um aspecto biográfico, essa tese ganha reforço: o abandono precoce foi crucial para o desenvolvimento de sua personalidade. “Órfão de mãe logo depois de completar um ano de idade, de pai aos nove, virou órfão da nação”, escreve José Murilo de Carvalho. “Seus principais conselheiros nunca foram seres humanos, mas sim a página impressa, sobretudo as monografias e as resenhas em francês, que para ele ilustravam a ‘civilização’ vislumbrada para o Brasil”, registra o livro de Barman.
Juntando as pontas, é admirável encontrar, em um trecho de Joaquim Nabuco (1849-1910), a seguinte consideração sobre os indivíduos desprovidos de família: “Em nossa política e em nossa sociedade (...) são os órfãos, os abandonados, que vencem a luta, sobem e governam”. O autor, contemporâneo de D. Pedro II, não se refere ao imperador, mas à vida de seu próprio pai, o estadista Nabuco de Araújo (1813-1878). Duplamente admirável porque esse trecho é citado por Sérgio Buarque de Holanda, na obra-prima Raízes do Brasil (1936), como introdução ao conceito de “homem cordial”. Assim justifica o sociólogo: “Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade. Há nesse fato um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo”. Esse processo sintetizaria a necessidade do Brasil de superar suas características coloniais (personalistas e patriarcais) e desenvolver conceitos mais “elevados” para a formação de um estado igualitário. Ao tratar da orfandade, Sérgio Buarque tampouco se refere ao imperador, embora seja irresistível interpretar a trajetória de D. Pedro II pela ótica do forçado abandono do leito familiar como libertação rumo a valores universais.
Uma de suas frases mais emblemáticas é aquela em que se declara republicano: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador”. Menos comentada, no entanto, é a sequência dessa citação: “Se ao menos meu Pai imperasse ainda, estaria eu há 11 anos com assento no Senado e teria viajado pelo mundo”. Apaixonado pelo Brasil? Sim, sua vida pública o demonstra. Mas não o suficiente para impedir que, podendo, se dedicasse ao que realmente lhe interessava: o mundo.
Eis mais uma leitura possível do nosso multifacetado personagem. Quem não gostou, que conte outra.

Saiba Mais - Bibliografia

BARMAN, Roderick J. Imperador cidadão. São Paulo: Unesp, 2010.
CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II: Ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
FRAGUAS, Alessandra e MARTINS, Thais Cardoso. O habitus e o hábito de D. Pedro II: novos olhares sobre os diários do imperador. Em: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1312459780_ARQUIVO_ArtigoAnpuh.pdf.
FREYRE, Gilberto. Dom Pedro II, Imperador cinzento de uma terra de sol tropical.Em: http://bvgf.fgf.org.br/portugues/obra/opusculos/dom_pedro2.htm.


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Psicologia de massas do neoliberalismo

 Por Anderson Soares, educador e psicopedagogo.


Em 1932 o psicanalista Wilhelm Reich publicou o livro “Psicologia de Massas do Fascismo” enquanto assistia a ascensão do fascismo e adesão das massas às ideias de Hitler, nesta obra faz sérios questionamentos psicossociais sobre este contexto. Mas, em relação aos dias atuais, poderíamos utilizar ferramentas atualizadas deste autor para entendermos a relação das massas com desígnios do capital e com as estruturas reacionárias que são sustentadas por seus hábitos cotidianos, bem em dias de plena pós-modernidade.

Reich, que naquele contexto já era considerado um discípulo dissidente de Sigmund Freud (ambos tiveram seus livros queimados pela “inquisição” nazista), em sua análise argumenta que, racionalmente seria de se esperar que os trabalhadores miseráveis desenvolvessem uma consciência de sua condição social o que os levaria a se livrarem da miséria social. Mas, conforme este autor, foram justamente as massas miseráveis que contribuíram com obediência e submissão para ascensão do fascismo e demais forças autoritárias.
Em plena contemporaneidade podemos usufruir de inúmeras outras ferramentas para entender o que seria nos dias atuais uma “Psicologia de massas do neoliberalismo”. A própria psicanálise, política do corpo, a análise micropolítica de cada contexto, o papel da subjetividade e um exame cuidadoso das relações de poder e jamais uma visão reducionista e empobrecida de entender a sociedade do capital apenas como a simples divisão entre ricos exploradores algozes e pobres vitimados.

Em plena década de trinta, Reich tentava explicar os mecanismos políticos e os processos psíquicos a que os indivíduos eram submetidos através de instituições que foram muito importantes para ascensão do fascismo, como a família patriarcal, a Igreja, o Exército. Num processo de massificação, supressão das individualidades, enrijecimento das emoções e do fluxo energético (principalmente no que tange a sexualidade), fazendo com que os mesmos estivessem embrutecidos, insatisfeitos e vulneráveis à obediência aos carrascos, charlatões e lideranças fascistas como o Führe, Dulce ou o “Pai dos pobres”.

Numa oportuna contextualização poderemos analisar o mercado e o consumismo como reguladores e controladores das massas, mas sem fascismos, sem exércitos sanguinários e sem déspotas praguejando frases de ordem de ódio aos “inimigos da nação”. Na contemporaneidade está em evidência uma complexa cadeia de poderes interligados, que mais se aproxima do panoptismo problematizado por Michel Foucault, do sistema que vigia e controla sem ser visto ou percebido pelos vigiados, que acabam internalizando os hábitos neuróticos que reproduzem o poder, sem a presença efetiva de algum carrasco.

A sexualidade abordada por Reich na década de trinta, não mais necessita, em dias atuais, de controle e vigilância estreitos e permanentes. Mas, controles que são efetivados e introjetados em forma de saberes e hábitos, em regimes liberais, “democráticos” onde a “liberdade” pode ser exercida. Estéticas padrões imperam e geram estereótipos doentios, assimilados pelas massas teleguiadas, que sacrificam-se para se adaptar, serem bem aceitos e valorizados conforme as referências de beleza e comportamento do contexto. O “sarado”, a “piriguete”, a “magra do cabelo bom que parece uma princesa” a “gostosa” da novela…estes são os padrões atuais a serem “seguidos” (em estética e comportamento) doentiamente pelas massas.

Primordial para o controle à distância em dias atuais: geração e reprodução de seres massificados e a supressão das individualidades, tão evidente em nosso cotidiano. Aquele que ousa preservar sua singularidade em dias atuais, logo é posto na marginalidade interpessoal e adjetivado no mínimo de “alguém muito estranho”, em que hábitos, tradições e preconceitos intoxicam as percepções individuais, que ressumem-se em falas tacanhas repetidas freneticamente pelos serviçais: “O Brasil inteiro é assim”, “as mulheres devem ser assim”, “os ricos são assim”, “os africanos são assim”…e vai.

O passo inicial de Wilhelm Reich (que teve sua teoria deturpada e difamada) nos orientar no entendimento dos aspectos psicossociais das relações de poder na contemporaneidade. A couraça muscular cronificada que impede a autorregulação e o livre fluxo energético, impossibilitando uma vida psíquica sadia, citada pelo mesmo, está em evidência. O hábito, cultura e massificação cristalizam as experiências emocionais negativas, que são vivenciadas no cotidiano como naturais (“todo mundo vive assim”).

As pessoas comuns continuam bastante insatisfeitas com a vida medíocre e esvaziada (repleta de poderosas camuflagens e condutas artificiais) que levam. Sem a capacidade emocional de reagir na defesa de suas singularidades, fomentada pela justificativa da própria infelicidade diária e defesa ferrenha do mesmo sistema que os adoece e escraviza.

Em 1932 Wilhelm Reich alertou: “O medo da liberdade das massas humanas manifesta-se na rigidez biofísica do organismo e na inflexibilidade do caráter”. Mas suas conclusões mal interpretadas fizeram com que fosse expulso não só da Sociedade Internacional de Psicanálise como também do Partido Comunista (com argumento de que as discussões sobre sexualidade afastariam a juventude da luta “revolucionária”). As mesmas nos servem com ferramenta valiosa para refletir as relações de poder na contemporaneidade e ainda como instrumento de libertação das singularidades ofuscadas e cerceadas pela cultura de massas.

Fonte: Carta Potiguar

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Então é Natal.

Hoje recebi e-mail de um velho amigo utopiense. Como aqui, é natal em Utopia. Perguntava se não iria visitá-lo nas comemorações natalinas. Nesta época, mais do que em qualquer outra do ano, a ilha se alegra. Apressado, falei que infelizmente não teria como, estava ocupado demais com o trabalho.
 
Agora lembro como os utopienses ficaram surpresos aos lhes falar do nosso Natal. A árvore, a neve, as luzes e tantas outras coisas que em Utopia não existem. Riram por comemorarmos o Natal de forma individual, cada um em sua casa. Mais ainda quando souberam que nelas havia grades que, segundo eles, faziam-nos parecer prisioneiros. Acharam interessante também a troca de presentes, talvez porque eu não tenha conseguido explicar a ligação entre eles e a data, nem sabido o que dizer às crianças que o Papai Noel todo ano esquecia. Foi um bom papo, mas lá pelas tantas ficaram enfadados e pediram pra mudar de assunto, acho que quando falei do sentido dado por nós ao Natal.

Lá em Utopia todos sabem qual o seu real significado e por isso celebram-no. Até os não-cristãos comemoram a data. Apesar de não creditarem no menino-Deus, dizem eles existir algo mágico neste dia. De fato, o ideal de esperança, amor e justiça não tem credo. Interessante como esse tempo longe de Utopia já tinha me feito esquecer as diferenças que existem entre aqui a aquela longínqua ilha. 

Então é Natal, pelas bandas de cá tempo de enfeitar a árvore, de trocar presentes e reformar a casa exterior, e só. E só. Não precisamos de mais nada. Já temos até as luzinhas. Agradecemos ao menino Cristo por nos emprestar a sua data. Como há dois milênios atrás a história se repete. O menino, sem–teto, não tem onde nascer. A árvore é muito grande, ocupa muito espaço, ficaria feio, anti-estético. Imagina só ter que tirar a árvore? Porém, desconfio seriamente que ele prefira assim, nunca iria conseguir dormir com aquelas luzinhas piscando sem parar. Acho que lhe agrada mais o escuro de uma marquise ou de uma ponte. Aqueles brinquedos também o chateiam, eles brincam sozinhos. É mais afeito aos animais, são mais simpáticos, não precisam de pilhas. Sob a ponte há vários deles, uns até parecem com gente. Pena que, talvez devido ao escuro, o velho Noel nunca consiga chegar lá. 

Que vivamos então o Natal. Em Utopia Cristo nasce no coração dos homens. Aqui, qual sem-teto, tem como berço pontes, guetos e favelas, fazendo com isso uma opção:  a de classe!
Por João Paulo MedeirosProfessor universitário, advogado e militante social.
 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Um mosaico chamado Índia


 O segundo país mais povoado da Terra - com cerca de um bilhão de habitantes -, apontado como uma das potências econômicas do século 21 é também um dos mais desiguais do ponto de vista social

Por Bianca Encarnação

Tecnologia digital de ponta, projetos espaciais desenvolvidos em ritmo acelerado, dívida externa em franco retrocesso, maior indústria cinematográfica do planeta. Mobilidade social restrita por um sistema de castas extra-oficial, taxas de analfabetismo elevadas, casamentos arranjados, opressão às mulheres. Eis a Índia. O segundo país mais povoado da Terra - com cerca de um bilhão de habitantes -, apontado como uma das potências econômicas do século 21 é também um dos mais desiguais do ponto de vista social.


Compor um panorama da sociedade indiana é de encantar e estarrecer. A agricultura é um dos pilares da economia do país, por isso as áreas rurais concentram aproximadamente 70% da população. Os outros quase 30% estão nas cidades. A grande metrópole da Índia é Mumbai - antiga Bombain - com 16,5 milhões de habitantes, dos quais metade é de favelados e cerca de um milhão vive nas ruas. E é andando nas ruas, obviamente, que se entra em contato com a realidade de qualquer lugar. Em Mumbai, os mais modernos automóveis circulam ao lado de elefantes, que lá são meio de transporte. Modernidade e tradição? Sim. É esse um dos paradoxos que mais chamam a atenção no país.

A Índia da prosperidade científica e tecnológica é a mesma que tem 40% da sua população analfabeta. Ascender socialmente, mudar de vida, para os indianos em situação mais pobre, é uma rara conquista. A desigualdade na distribuição de renda, característica do neoliberalismo, é uma realidade no país, além do mais, os contrastes econômico-sociais encontram-se fortemente justificados por um sistema de castas, algo sem similar em qualquer cultura ocidental.

Tentar entender a Índia sem considerar o seu sistema de castas é perda de tempo. Oficialmente banido do país em 1946, esse sistema milenar de divisão da sociedade, na prática, ainda vigora. As castas são quatro, que, originalmente, foram divididas da seguinte forma: a dos brâmanes, incluindo a elite religiosa, pesadores e os proprietários de terra; a dos kshatriyas, dos militares e administradores; a dos vaishyas, comerciantes; e a dos sudras, na qual se enquadram artesãos e trabalhadores braçais. Fora do sistema de castas, conseqüentemente, no lugar mais baixo da pirâmide social, estão os dalits ou parias, também chamados de intocáveis. São denominados assim porque, para boa parte dos hindus, quem toca em um paria fica impuro.


 O governo da Índia vem tentando combater esse preceito tradicional e introduzindo medidas para proporcionar a esses membros da sociedade - estimados em 160 milhões de pessoas - acesso a educação e a empregos mais dignos que os trabalhos sub-humanos que lhes são oferecidos. Os próprios dalits protestam contra a sua exclusão e se organizam para lutar pelos direitos que o governo lhes garante, mas que boa parte das classes mais altas deixa de reconhecer. De acordo com uma ativista da Campanha Nacional Pelos Direitos Humanos dos Dalits, que deu seu depoimento no Fórum Social Mundial, realizado na Índia em 2004, antigamente os dalits tinham que andar com sinos ou chocalhos para avisar que estavam se aproximando e assim as pessoas de outras castas sabiam que tinham que evitá-los. Anupam Wankhede, a ativista em questão, disse que isso não é mais realidade no país, pelo menos, nas cidades. Ela trabalha para conscientizar as pessoas de que o sistema de castas não foi criado por Deus, mas pelos homens, pela elite - os brâmanes - que queriam ter poder sobre os demais.

Observar a importância da religião na Índia é absolutamente indispensável para se verificar as peculiaridades dessa sociedade. Mais de 80% da população segue o hinduísmo e, para estes, a vida é um eterno retorno. O que se faz nessa vida conta para a próxima. Por isso é importante aceitar a própria condição e praticar boas ações, assim como os rituais de purificação, para se conseguir uma posição melhor ao reencarnar. Alguns estudiosos apontam o hinduísmo como responsável pela passividade e pelo conformismo do povo ante a sua condição de miserabilidade.


O islamismo, segunda religião em número de seguidores no país, congregando cerca de 12% da população, segue os preceitos de Alá, ditados pelo profeta Maomé, cujas palavras estão no Corão. Os muçulmanos acreditam que a vida tanto pode ser uma benção quanto uma penitência. Por definição, a mulher muçulmana deve ser submissa a seu marido.

O cristianismo é seguido por uma pequena fatia da população, aproximadamente 3%. O budismo e demais religiões dividem a fatia restante. Esses dados estatísticos são interessantes para se ter uma idéia do cenário religioso na Índia, mas não dão conta de expressar o quanto a religião está intrinsecamente relacionada com a vida dos indianos. Para a maciça maioria, ela explica e justifica tudo na vida, o que se verifica no discurso das famílias e mesmo nas relações de trabalho.

A Índia que chama a atenção pelo polêmico sistema de castas, pela espiritualidade que tudo permeia, vem despontando também como potência asiática. O Produto Interno Bruto (PIB), da ordem de 785 bilhões de dólares, coloca o país em 12º lugar no ranking da economia do mundial. No entanto, por sua grande população e a exitstência do desequilíbrio entre o número de ricos e miseráveis, a renda per capita é consideravelmente baixa - cerca de oito vezes menor que a brasileira. Mais de 25% por cento da população é classificada abaixo da linha de pobreza, apesar da existência de uma classe média crescente, atualmente estimada em 300 milhões de pessoas.

No começo dos anos 1990, quando seu governo abandonou políticas socialistas e deu início a um processo de liberalização da economia, houve no país um incentivo ao investimento estrangeiro, à redução de barreiras tarifárias, à importação, à modernização do setor financeiro e a ajustes nas políticas fiscal e monetária. O resultados dessas mudanças foram inflação mais baixa, crescimento econômico e redução do déficit comercial.

O freio no desenvolvimento econômico indiano  é composto por uma infraestrutura insuficiente, burocracia pesada, altas taxas de juros e uma "dívida social" elevada, como a pobreza rural e sistema de castas. Tudo isso tem raízes históricas, mas há interesse por parte dos atuais governos em reverter.

A Companhia Inglesa das Índias Orientais, fundada por comerciantes britânicos em 1600, a quem a rainha Elizabeth I concedeu o monopólio do comércio com as "Índias Orientais" - foi o marco para início a colonização da Índia. Desde de 1757, parte da região foi conquistada pela Inglaterra e, em 1858, a coroa britânica assumiu o controle político de todo o país.

Com a Índia colonizada, os dois grandes conflitos mundiais do início do século passado, as duas grandes guerras, tiveram o reforço de tropas indianas, que representaram os ingleses e tiveram importante papel para o desfecho dos confrontos. Em meio aos combates, uma figura se destacou por sua política de não-violência, trazendo para a Índia a esperança da liberdade. Essa figura que representava a resistência ao colonialismo britânico era Mahatma Gandhi, que junto com outros líderes políticos, como Jawaharlal Nehru, levou, com atitudes pacifistas, a Índia à independência, em 1947.

Gandhi foi mentor do moderno estado indiano e defensor do princípio de não-agressão, porém de protesto e ativismo, como um meio de revolução. Com isso, ele mobilizou a população a reagir. Incentivou os indianos, por exemplo, a produzir os próprios tecidos, para mostrar que não precisavam depender da Inglaterra, por isso, a imagem do líder pacifista se tornou o símbolo do país. A título de curiosidade: a produção de têxtil na Índia é uma dos setores mais prósperos da nação.

Mas o período de colonização inglesa, apesar dos pesares, contribui com o avanço da Índia em alguns setores. Vale citar a introdução dos sistemas de trens, que cobre todo o país, e as bases que levaram à modernização nas comunicações.

Hoje, a Índia é um país auto-suficiente, principalmente, em relação aos alimentos. Com a maioria da população vegetariana - a maior parte não come carne, pois, entre os indianos, o boi é um animal sagrado - faz com que a agricultura cresça e que o povo não tenha carência com a alimentação. Outro aspecto da auto-suficiência é a política adotada, como o "sistema de conselho municipal", chamado Panchayati, constituído por cinco membros, geralmente mais idosos, portanto, para eles, mais sábios, que cuidam dos assuntos da comunidade. Essa cultura vem dos tempos ancestrais, decorrente dos clãs, que foi caindo em desuso. A autoridade legal desses conselhos foi restaurada oficialmente em 1989, por Rajiv Gandhi. Assim, dois milhões e meio de habitantes das vilas são eleitos para posições no panchayat e o governo é exercido por pessoas comuns, que fazem da democracia um fenômeno, genuinamente, de massa.

A Índia é considerada a maior democracia do mundo em função de ter o maior eleitorado entre os países democráticos. O sistema político é parlamentar. O presidente, na qualidade de chefe de Estado, exerce um papel principalmente protocolar, embora sua aprovação seja necessária para que qualquer lei que saia do parlamento. Ele é eleito indiretamente por um colégio eleitoral para um mandato de cinco anos. A chefia de governo é exercida por um primeiro-ministro, que concentra a maior parte dos poderes executivos. Este é nomeado pelo presidente, desde que conte com o apoio de um partido.

Em sua mais recente eleição, de julho de 2007, pela primeira vez na história do país, a Índia elegeu uma mulher para presidente. Pratibha Patil, ex-governadora e candidata pela aliança governista, teve maioria no Congresso. Mas, Patil, vale lembrar, não foi a primeira mulher a estar à frente do governo indiano. Indira Gandhi, assassinada em 1984, foi a primeira-ministra do país. Apesar do sobrenome, Indira não tinha qualquer parentesco com Mahatma Gandhi, e seu governo foi bastante polêmico. Combateu com rigor, por exemplo, os problemas sociais e econômicos decorrentes da explosão demográfica e uma de suas medidas foi a esterelização maciça obrigatória.

A interferência do governo no direito à natalidade de uma forma como esta foi mais uma marca no histórico de violência cometida contra as mulheres indianas. O domínio dos homens sobre as mulheres no país ainda é muito forte em qualquer nível social. Embora a modernidade esteja desbancando algumas tradições, os casamentos arranjados são bastante comuns e o pagamento de dote por parte da família da noiva ao noivo é uma prática associada a esse tipo de arranjo entre famílias. A justificativa mais comum pelo dote é a de que ele seria uma espécie de compensação para a família do noivo pelo investimento na educação dele e no seu preparo para sustentar a noiva e a família que virão a formar pelo resto da vida.

A conseqüência dramática dessa tradição é que o dote desestrutura financeiramente muitas famílias que dão suas filhas em casamento. Isso faz com que dar à luz a meninas seja um prejuízo a priori. Logo, o aborto seletivo - realizado logo após a identificação do sexo pelo exame de ultrassom - tornou-se recorrente.

O dote é uma prática presente em todas as classes sociais, mas proibida pelo governo indiano, estando o noivo que o recebe sujeito à prisão. O dote, obviamente, não é a causa, mas uma conseqüência de uma sociedade que oprime a mulher. Diversas organizações protestam contra os altos números de estupro e violência doméstica.

Não é de se espantar que as mulheres dalit tenham uma vida ainda mais difícil do que as demais. Elas não são estimuladas a estudar e a vasta maioria trabalha por salários de fome na agricultura. Por conta de todas as questões de gênero do país, elas trabalham consideravelmente mais do que os homens dalits, recebendo muito menos do que eles. Apesar de serem consideradas intocáveis, elas acumulam histórias de exploração sexual e são as grandes vítimas da Aids no país.

Mas nem tudo é tragédia na vida das mulheres indianas. Muitas conseguem casar por escolhas próprias e outros tantos casamentos arranjados acabam dando certo também. Fora isso, os novos tempos têm trazido perspectivas melhores para elas. Seus direitos estão garantidos em lei, mas a luta para fazê-los valer na prática é grande.

Se sob alguns aspectos, nossos olhos ocidentais se espantam e se revoltam diante de algumas tradições indianas, por outros ângulos é preciso reverenciar essa sociedade. A busca pelo saber está presente na cultura indiana e talvez seja um dos grandes propósitos da nação. A religiosidade acaba tendo, no país, uma função social, pregando o desenvolvimento do conhecimento como meio de sair das trevas da ignorância. Como resultado dessa premissa, a Índia foi o berço da primeira Universidade - que existiu em Nalanda, no estado de Bihar, nos tempos ancestrais. O conceito do zero, por exemplo, nasceu na Índia, assim como outros fundamentos matemáticos do modo como os entendemos hoje em dia. Todo o sistema de numeração é indo-arábico, ou seja, os árabes buscaram na Índia e difundiram os algarismos que usamos até hoje. A fórmula de Bhaskara, por exemplo, que foi criada na Índia, é usada para resolver todas as equações do atual Ensino Médio.

A Índia tem também uma incontestável contribuição na filosofia, ciência que faz parte da vida de todo indiano. Os avanços em áreas como na tecnologia da informação também são notórios. O país hoje "exporta" especialistas, principalmente, em softwares, para países da Europa e América.
Nos Estados Unidos, no campo de pesquisas espaciais, o telescópio Chandra, da NASA, que leva o nome do físico indiano, é superior em tecnologia ao Hubble, mais conhecido por ser responsável por telecomunicações. Outra área importante é a biotecnologia, campo que a Índia domina sobre muitos países.

Em 2006, a Índia e a Alemanha anunciaram uma nova iniciativa de colaboração de ciência e tecnologia que irá fortalecer e expandir a cooperação nessas áreas. A parceria foi selada após a sexta reunião do Comitê Indo-Alemão de Ciência e Tecnologia, concluída em 25 de setembro de 2006, em Nova Delhi. Na reunião, representantes do Ministério Federal da Educação e Pesquisa da Alemanha e do Departamento de Ciência e Tecnologia da Índia identificaram as áreas de foco para cooperação. Entre elas, estão a de nanotecnologia, biotecnologia e estudos do cérebro, entre outras frentes de pesquisa. O Brasil também já conta com profissionais indianos em seus institutos de pesquisas e universidades. Exemplos são o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Universidade de São Paulo (USP).
 
A boa formação em ciências exatas nas instituições de ensino técnico e superior, a língua inglesa - que é falada pela classe média e pelas classes mais altas em decorrência da colonização britânica -, entre outras políticas, como a de importações, que criou ilhas de competitividade, são atitudes que renovam cada vez mais os avanços da Índia. Aliado a essas iniciativas está o desenvolvimento de pesquisas voltadas para o aprimoramento das condições de vida no meio rural, cuja representatividade na economia do país é considerável.

Tanta ciência e tecnologia não ofuscam a Índia das artes milenares. Como uma das civilizações mais antigas do planeta, a Índia é plural, de línguas diversas e de hábitos e modos de vida também diferentes. Por tudo isso, a arte não poderia se apresentar como uma grande unidade e sim de diversas cores, formas e significados.

Entre os muitos significados, a arte indiana é pautada também por seus credos, o que coloca a espiritualidade presente nas diversas expressões artísticas, como na arquitetura, na escultura, na pintura, na joalheria, na cerâmica, nos metais e nos tecidos, revelando diversos traços dessa sociedade.

Essa cultura estendeu-se por todo o Oriente, com a difusão, principalmente, do hinduísmo, e exerceu uma grande influência da arte indiana sobre outros países como a China, o Japão e a Tailândia.

Do hinduísmo, por exemplo, têm-se as divindades, com seus muitos braços, cada um deles carregando objetos ou armas. Eles indicam as direções, a maioria representa os quatro pontos cardeais: norte, sul, leste e oeste.

Entre as esculturas, a lamparina, chamada de deepak, tem muita importância como símbolo. Tradicionalmente feita em cerâmica, representa o corpo humano porque para o entendimento de algumas religiões, assim como o barro, todos viemos da terra. Já o óleo que é queimado nela é um símbolo do poder da vida.

Na arquitetura, a primeira mostra indiana foi inovadora, com construções milenares de edifícios de tijolos, ao tempo que se levantavam estruturas de madeira. Embora estas últimas tenham desaparecido ao longo dos séculos, foram imitadas por construções de pedra que ainda estão de pé. São exemplos também, as stupas - pequenos templos para guardar as relíquias dedicadas a Buda - e os chaityas - templos rupestres -, entre os quais destacam-se a Grande Stupa de Sanchi, o Chaitya de Karli, do início do século II.

A partir do século V, a marca da arquitetura indiana, que aparecem talhados nas rochas, formam as sanefas. Os exemplos mais importantes estão na colina de Parasnath, em Bihar; no monte Abut, em Abu Rajasthan; e em Strunjaya, em Gujarat.

A influência islâmica na Índia vem desde o século XIII até os nossos dias. A ela pertencem o famoso mausoléu de Gol Gundadh, de 1660, em Bijapur a torre Qutb Minar, do século XII. Na fase mongol do estilo indo-islâmico, entre os séculos XVI e XVIII, eram utilizados materiais luxuosos, como o mármore. Um exemplo desse estilo é o mausoléu do Taj Mahal, em Agra, uma das maravilhas do mundo.

Os murais das cavernas de Ajanta estão em destaque entre as pinturas indianas. É destaque também a cova de Jogimara, em Orissa, que pertencem a dois períodos: ao século I a.C. e à época medieval. A fase clássica conserva-se um Kalpa Sutra - manual de liturgia religiosa - do ano 1237, ilustrado em folha de palma. A pintura, de maneira geral, era de imagens religiosas, feitas no interior dos templos. Algumas eram em miniatura. Influenciadas pelas técnicas persas, são especialmente famosas as do século XVII e XVIII, com suas cores e detalhes mínimos. Cabe lembrar que, com o declínio do Império Mogol, os ingleses se tornaram a força dominante entre as nações européias que passaram a estar presentes na Índia, influenciando inclusive, em suas expressões artísticas.

Eis um mosaico da Índia, enfim.

Fonte: Revista Sociologia