sábado, 16 de abril de 2011

Sobre as origens da História

Existem interessantes polêmicas sobre se a origem da História teria se dado a partir de um desdobramento da Filosofia ou de um desdobramento da Poesia. Charles Norris Cochrane (1889-1945), por exemplo, em seu ensaio Cristandade e Cultura Clássica (1944, cap.12), irá conceber a História proposta por Heródoto como um desdobramento do desenvolvimento da filosofia grega (ele acredita ser possível propor a hipótese de que Heródoto havia sido discípulo de Heráclito; e, de certa maneira, não seria mesmo possível encontrar tutor filosófico mais apropriado para esta ciência do devir humano). Por outro lado, a Mitologia autoriza a encetar uma aproximação entre a História e a Poesia. Ambas – Clio e Erato – eram musas, e filhas de Mnemosine (a “Memória”). É também na mesma categoria que Aristóteles dispõe a tarefa do Historiador e a tarefa do Poeta, pois ambos teriam seus olhos e sensibilidades voltados para a Práxis – isto é, para as “ações humanas” – e cada um a seu modo teria por responsabilidade fazer perdurarem estas ações. Sem o historiador e o poeta, capazes de assegurar a recordação dos grandes feitos e a presentificação das belas ações através da invenção poética, tudo aquilo que se refere ao mundo da Práxis deixaria de existir no instante imediato à realização das ações, sem deixar quaisquer vestígios. Desta maneira, tanto a História como à Poesia teriam por referência este mundo das ações humanas, ao contrario da Filosofia, que se volta para o mundo da Theoria (contemplação das coisas que pairam acima do homem).

Hannah Arendt, aliás, desenvolve uma brilhante digressão sobre o tema: antes mesmo de Heródoto, a História aparece como uma realidade imaginada no interior da poesia grega. “Poeticamente, seu início encontra-se no momento em que Ulisses, na corte do rei dos Feácios, escutou a estória dos seus próprios feitos e sofrimentos, a estória de sua vida, agora algo de fora dele próprio, um ‘objeto’ para todos verem e ouvirem. O que fora pura ocorrência torna-se agora ‘História’” (ARENDT, 2009, p.74)


__________________________________________________________________________________________________

Este pequeno trecho foi extraído de uma nota do primeiro capítulo do 'Volume II' de Teoria da História (p.32). No primeiro volume da série (capítulo 1), também é desenvolvido um capítulo mais extenso que principia por discutir a formação dos campos disciplinares, de maneira geral, e que toma a História como um dos exemplos (BARROS,José D'Assunção.Teoria da História, volume I: Princípíos e Conceitos Fundamentais. Petrópolis: Editora Vozes. 2011, p.17-40).

Fonte: Rede Histórica, em 10/04/2011.

A África teria sido berço de toda linguagem humana...

A língua se expandiu junto com o ser humano, sugere estudo.
Pesquisador aplicou na linguística um conceito da genética.

Tadeu Meniconi Do G1, em São Paulo
 
Uma pesquisa publicada pela “Science” mostra que a origem da língua falada está na África. Já se sabia que o homem moderno surgiu no continente e, com este estudo, vem a hipótese de que existe uma relação entre os dois aspectos.

“As línguas se espalharam da mesma maneira que nós expandimos, essa é a conclusão do artigo. Não levamos só os nossos genes, levamos a língua também”, afirmou ao G1 Quentin Atkinson, professor da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, autor da pesquisa.

“Uma hipótese para por que conseguimos expandir tão rapidamente a partir da África é que a língua complexa foi uma inovação, uma vantagem real para nós, permitindo que cooperássemos e nos coordenássemos em grupos, mais que qualquer outro hominídeo”, explicou o cientista. Embora não possa afirmar com certeza, ele calcula que as línguas complexas tenham surgido entre 50 mil e 70 mil anos atrás.

A pesquisa não consegue precisar de que lugar na África vêm as línguas faladas, consegue precisar apenas que é na África Subsaariana. Por outro lado, as línguas consideradas mais recentes são as da região da Polinésia e as originais da América do Sul, como o Tupi e o Guarani.

"Efeito fundador em série"
Para rastrear as origens da língua falada, Atkinson aplicou na linguística um conceito da genética chamado “efeito fundador em série”.
“Quando há uma expansão, uma população pequena se separa e vai para outro território. Quando ela faz isso, leva junto apenas uma parte da diversidade da população original. Isso é chamado de ‘efeito fundador’”, explicou. “Isso pode acontecer muitas e muitas vezes, e é chamado de ‘efeito fundador em série’”, completou, em sua definição.

Em vez de genes, a pesquisa analisou fonemas. As línguas que apresentassem maior diversidade de sons, fossem eles vogais, consoantes ou tons – variação de fala que não existe em português e é usada, por exemplo, no mandarim. De acordo com o conceito do “efeito fundador em série”, as línguas que apresentassem mais diversidade estariam mais próximas do ponto de origem, e vice-versa.
Na pesquisa, foram analisadas 504 idiomas. Segundo o pesquisador, foram amostras selecionadas com critérios geográficos, já que há mais de 6 mil línguas no mundo.

Fonte: G1
15/04/2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Islã- Parte 1

pamella.piva | 15 15UTC abril 15UTC 2011 at 12:16 AM | Categorias: Maomé; islamismo; | Categories: História Medieval | URL: http://wp.me/p1iFmg-3O
 Islã - Parte 1 - Princípio

Península Arábica
O Islã tem local e data determinados de surgimento: a Península Arábica no século VII.  Apesar de ser uma região predominantemente desértica, há uma paisagem variada que foi habitada por muitos povos diferentes, entre eles os árabes.  Nem todos os habitantes eram beduínos (nômades e pastores); predominava no oásis a agricultura; havia ainda pequenos centros urbanos. A sociedade era organizada de forma tribal e seguia o estilo de vida beduíno; sua cultura era oral e enfatizava, na forma de poesia, o próprio clã; e os árabes, apesar do contato com culturas monoteístas como o cristianismo e o judaísmo, eram politeístas.



Maomé
A história do islâmismo começa com a Revelação de Maomé. Antes disso, o período é denominado, pelos muçulmanos, de jahiliyyah (período de ignorância e cegueira). Foi nesse período que Maomé, ou Muhammad ibn'Abdallah ibn'Abd al- Muttalib (seu nome completo em árabe), nasceu na cidade de Meca em 570 d.C. Sua família - Banû'Abd al-Muttalib- pertencia ao clã dos Quraysh (coraixitas), um dos mais poderosos de Meca, que dominavam a cidade e guardavam seu antigo santuário. Ele foi criado como mercador, e casou-se aos 25 anos com Khadija, uma rica viúva de 40 anos que o empregou e lhe propôs casamento.

Por volta de 610, Maomé recebeu a "Revelação", por meio do arcanjo Gabriel (Jibril, em árabe) que lhe revelou a palavra de Alá, mandando-o recitar os seguintes versos:
"Lê em nome de teu Senho que tudo criou;
Criou o homem de um coágulo de sangue,
Lê que teu Senhor é generoso,
Que ensinou o uso do cálamo,
Ensinou ao homem o que este não sabia." (Alcorão, sura 96: 1-5)

Alá, de acordo com o anjo, o escolheu como o último mensageiro. Continuou a receber revelações que falavam de um Deus único e onipotente, e que todo o ser humano deveria submeter-se a ele e venerá-lo. A palavra "islã" significa submissão. Maomé, incentivado por sua esposa, assumiu o papel de Profeta. As primeiras revelações exortavam-no a pregar e a converter os compatriotas; depois elas o guiaram como organizador de uma comunidade de crentes. Em muitas de suas revelações, o arcanjo Gabriel ditava-lhe os versículos do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Sua missão era ensinar aos árabes que Alá criara o mundo, que Ele era todo-poderoso e misericordioso, e que todos os humanos deveriam seguir seus mandamentos e respeitar Suas proibições. Os deveres se resumem em cinco pilares do islã:
1. Shahada ou testemunho - é a confissão que efeua a conversão. O converso afirma a unidade de Deus e aceita Alá, na fórmula "Não há outro Deus e Maomé é seu Profeta";
2. Salat - é a oração que se faz cinco vezes ao dia voltado para Meca.
3. Zakat ou esmola - entrega de uma parcela da renda para fins sociais.
4. Ramadan - é o mês do jejum, entendido como purificação e ascese a Alá.
5. Hajj - peregrinação a Meca ao menos uma vez na vida.

A princípio, o pequeno grupo que se converteu era mínimo, mas suficiente para incomodar a elite local. Maomé foi ignorado, depois motivo de zombaria e por fim combatido, já que a nova religião ameaçava a existente. O islamismo era visto como um insulto para o culto de seus ídolos e desrespeito aos seus ancestrais.

Nesse momento, Maomé e essa pequena comunidade de conversos fugiram em 622 para Iatreb (Medina), esta fuga é conhecida como hijra (hégira) e marca o início do calendário muçulmano.  Em Iatreb, Maomé também encontrou oposição, mas os muçulmanos se impuseram militarmente, e pode ser reorganizado uma sociedade baseada nas leis muçulmanas, os antigos habitantes foram expulsos, exterminados ou convertidos. Dessa forma, Maomé transformou-se em líder político e militar, o que levou a um número crescente a se  converter a nova religião. Meca só começou a se converter ao islã em 630, quando Maomé destruiu com as próprias mãos os ídolos da Caaba e instaurou o culto exclusivo a Alá. Porém, a jihad, ou guerra contra o infiel foi muito importante para a permanência da nova religião.

É importante levar em consideração que o motivo do grande sucesso da religião, foi que ela estabelece uma unidade entre as diversas tribos. Maomé conseguia se colocar no lugar do outro e prever as diversas reações, e instruir o homem a evoluir. Seu poder era usado com moderação.
Em 632 Maomé falece, e inicia-se uma nova fase no islã.

Obs: Aqui foi escolhido como categoria do post  História Medieval. Estamos levando em consideração a datação no Ocidente. No Oriente, o nascimento do islamismo data da História Antiga. A idade média no Oriente vai do século XI -XV.

Fonte: Educação sem Homofobia - Nuh/UFMG

quarta-feira, 13 de abril de 2011


AO MESTRE COM CARINHO...

 Luiz Vitorino Filho, o "Garotinho"

            Atrás de muitos rostos juvenis “esconde-se uma história pedindo para ser contada”.
            Apesar do tempo (ainda não conhece os efeitos da idade) e caminhando para o encerramento (aposentadoria) da atividade profissional, Luiz Vitorino Filho (um catador de sonhos e talentos...) então encara a tarefa que, no começo, se revelou difícil como algo  prazeroso, que lhe traz alegria, que lhe agrada.
            Descobri então o motivo pelo qual “Garotinho” exalt tanto a vida, como é carinhosamente chamado, que é o prazer de ensinar.
            Há uma expressão naquele olhar, mesmo cansado depois de um longo dia de exaustivo trabalho (exposto ao sol causticante, à falta de estrutura adequada: quadra, campo etc) não se encontra desanimado.
            Em silêncio, o mestre Luiz é contemplativo, busca na liturgia dos Textos Sagrados (é comum, aos bons observadores, vê-lo lendo artigos e mensagens sobre a cristandade) removerem bem os entulhos do pensamento.
            Durante suas aulas o que se vê é a celebração da coletividade triunfante, partilhando com seus pupilos essa felicidade enfim descoberta.
            Quando é possível (por que a pressa da vida diária nos impede de termos um contato com mais frequência) uma boa prosa, ele, atento aos reclames do cotidiano, acalenta um projeto de viver juntos, onde todos compartilhem um mundo mais humano, fraterno e ético.
            Diante desse homem, esconde-se um ‘garoto’ com um olhar súplice, que não perde a oportunidade de ensinar uma lição preciosa: transmitir um ensinamento pintado com cores alegres.
            Ao longo do dia, os meninos entusiasmados esperam pela atividade esportiva, muito necessária ao desenvolvimento cognitivo e motor do(a) aluno(a), mas do viver em grupo, do aprender se relacionar com o outro. Em Luiz não é possível encontrar um educador relapso e de ar insolente (nem tão pouco arrogante, orgulhoso, impertinente e nem procede de maneira ofensiva).
            Nas segundas, quartas e sextas-feiras divido com o Luiz no espaço físico da escola, quando é destinado a nós o horário para o almoço (professor também é boia-fria...). Ai, normalmente, isto oportunizará uma reflexão sobre a dimensão filosófica da condição humana, do imaginário cotidiano, o que possibilita um alargamento do horizonte cultural das pessoas.
            Garotinho é adepto da “pedagogia do afeto”. Está aqui, para quem quiser ver. Com todos os detalhes.
            Não é surpresa, portanto, quando se percebe que sua prática educativa se fundamenta em benefício de uma vida mais livre, mais descontraída.


Por Lima Júnior...

Do Quintal da Minha Esperança, 13 de abril de 2011.

sábado, 9 de abril de 2011

A volta ao mundo em 89 minutos

Há 50 anos, a bordo da nave Vostok 3KA, o soviético Yuri Gagarin tornava-se o primeiro homem a viajar até o espaço

1960 – Grupo de cosmonautas com alguns dos seus instrutores e esposas. Yuri Gagarin é o quarto, na primeira fileira, da esquerda para a direita

1960 – Grupo de cosmonautas com alguns dos seus instrutores e esposas. Yuri Gagarin é o quarto, na primeira fileira, da esquerda para a direita - Divulgação/ESA
“Não tenham medo. Sou um soviético como vocês. Vim do espaço e preciso telefonar para Moscou!” —Yuri Gagarin, ao voltar à Terra, dirigindo-se a uma fazendeira e sua filha
"Não fosse a determinação soviética para colocar um homem no espaço, os EUA jamais teriam financiado uma missão à Lua" —Gerard DeGroot, historiador
Às 11h05 da manhã de 12 de abril de 1961, um homem de macacão laranja e capacete branco pousava de paraquedas em uma propriedade rural no Cazaquistão, então parte da União Soviética. Ele acabara de dar a volta ao mundo em 89 minutos a bordo de uma pequena espaçonave chamada Vostok 3KA. Enquanto recolhia o paraquedas, o russo Yuri Gagarin dizia a uma fazendeira e sua filha, que o observavam atônitas: “Não tenham medo. Sou soviético como vocês. Vim do espaço e preciso telefonar para Moscou”. A cena pitoresca marcou o desfecho vitorioso de um daqueles raros momentos na humanidade em que as fronteiras do desconhecido são deslocadas adiante: a primeira viagem do homem ao espaço.
Gagarin foi lançado ao espaço dentro da cápsula Vostok a partir do mesmo lugar em que os russos lançam seus foguetes até hoje, o Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão. Durante o voo, na conversa entre Gagarin e o centro de comando na Terra, o cosmonauta - o equivalente russo para astronauta - relatava o tempo todo o que estava sentindo. “Estou ótimo”, dizia, à medida que dava uma volta na Terra a uma velocidade de 27.400 quilômetros por hora. Assim que subiu o suficiente, deparando-se com uma vista espetacular, jamais contemplada por um ser humano até então, só teve palavras para o óbvio: “Vejo a Terra!”.
Saiba quem foi Yuri Gagarin e como foi o primeiro voo espacial

Primeiro passo - Após o fim da II Guerra Mundial, poucos eram os motivos científicos que estimularam o envio de um ser humano ao espaço. Um deles era saber se o ser humano seria capaz de sobreviver em um ambiente de baixíssima gravidade e se altitude afetaria o corpo de alguma maneira. “Eram conquistas políticas, mais do que científicas”, afirma David Williams, pesquisador da agência espacial americana, a Nasa. “A corrida espacial mostraria ao mundo qual sistema — o capitalismo ou o comunismo — era mais avançado”, disse em entrevista ao site de VEJA. A queda de braço estimulou rapidamente o desenvolvimento da tecnologia necessária para colocar homens e máquinas no espaço e ampliar as fronteiras do conhecimento.
“Os seres humanos são exploradores”, diz Williams, lembrando a chegada de desbravadores europeus ao continente americano, mais de 500 anos atrás, em travessias com poucas chances de sucesso. Hoje, toda a superfície da Terra está devidamente mapeada. “O voo de Gagarin abriu as portas para que o homem explorasse o universo além da Terra”, afirma.

Novas tecnologias - Não fosse a determinação soviética para colocar um homem no espaço, os Estados Unidos jamais teriam financiado uma missão à Lua, na opinião do historiador Gerard DeGroot, autor do livro Dark Side of The Moon (New York University Press). Em um artigo publicado pelo jornal inglês The Daily Telegraph, DeGroot defende que, apesar da aparente falta de propósito científico, os soviéticos “puxaram o governo americano pelo nariz” até a Lua. “Antes de Gagarin, os americanos não tinham uma política espacial definida”, escreveu. Para o historiador, o sucesso soviético "mexeu com as pessoas, engajou a comunidade científica e inspirou governantes." Oito anos depois, o astronauta americano Neil Armstrong dava as primeiros passos no solo lunar.

Missões espaciais tripuladas estimularam o desenvolvimento de tecnologias que hoje fazem parte da nossa rotina. É o caso dos computadores. A inclusão de seres humanos em foguetes fez com que os engenheiros quebrassem a cabeça para fazer com que os componentes ficassem menores e mais leves, e o espaço útil, maior. As técnicas de miniaturização do maquinário serviram de impulso para que, décadas mais tarde, fossem desenvolvidos os primeiros computadores pessoais, os celulares e os tocadores de música portáteis. 
Novas fronteiras - O voo de Gagarin também foi o marco inicial de um objetivo “inevitável”, nas palavras do presidente da Space Exploration Technologies (SpaceX), o sul-africano Elon Musk: a colonização de outros planetas. Otimista, Musk acredita que será possível levar o homem a Marte em dez anos, uma década e meia antes do que espera a Nasa e a agência espacial europeia (ESA). As maiores agências espaciais do mundo têm se movimentado para tornar a empreitada possível. No dia 7 de abril, ocorreu em Washington a conferência “Explore Mars”, para discutir como os americanos irão organizar missões a Marte, inclusive tripuladas. Além disso, no dia 15 de abril, a Nasa e a Roscosmos, a agência espacial russa, irão se reunir para discutir o desenvolvimento de uma espaçonave movida a energia nuclear. A ideia é criar um motor que supere a tecnologia atual.

A ambição de levar o homem ao planeta vermelho levou a ESA e a Roscosmos à criação do Marte500, uma simulação na Terra de uma missão até Marte, com todos os detalhes. Seis voluntários estão enfurnados desde junho de 2010 em uma cápsula simulando o lançamento, viagem de ida, estadia em Marte e volta para casa. A missão, prevista para acabar em novembro, tem como objetivo estudar os efeitos do isolamento humano durante o tempo que se imagina durar uma missão a Marte. O planeta é o destino mais provável por ser o que mais se parece com a Terra. Vênus e Mercúrio são quentes demais, e os que estão além de Marte, gelados e distantes demais. Outro destino para missões tripuladas, apontado pelo presidente dos EUA, Barack Obama, é o cinturão de asteroides que fica entre Marte e Júpiter.

Legado - Enviar seres humanos ao espaço é realmente importante? Embora resultados os imediatos não sejam evidentes, Williams diz que a história sempre foi generosa com a vontade humana de tornar familiar aquilo que uma vez já foi desconhecido. Na opinião do cientista, praticamente tudo o que está escrito em livros de ciências foi aperfeiçoado pela persistência das missões espaciais. “Se não tivéssemos tido a coragem de enviar o homem ao espaço, jamais teríamos ampliado o conhecimento que temos sobre a nossa existência”.


Quem foi Yuri Gagarin?

Yuri Gagarin
Piloto soviético, primeiro ser humano a fazer uma viagem tripulada ao espaço a bordo da cápsula Vostok 3KA, em 1961

O piloto soviético Yuri Alekseyevich Gagarin se tornou mundialmente famoso após realizar o primeiro voo espacial tripulado em 1961, a bordo da cápsula Vostok 3KA. O soviético nasceu no dia 9 de março de 1934 em uma fazenda comunitária na cidade de Gzhatsk (hoje a cidade se chama  ‘Gagarin’), a 166 quilômetros de Moscou.
Depois da II Guerra Mundial, Gagarin mudou-se para a capital e aprendeu a pilotar aviões em um aeroclube. Em 1957 graduou-se na Força Aérea Soviética. Foi escolhido como o primeiro cosmonauta em 1961. Se tornou uma celebridade após ir ao espaço. Visitou várias cidades ao redor do mundo, inclusive Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Em março de 1968, durante um voo de treino na base aérea de Chkalovsky, morreu aos 34 anos em um acidente de avião nunca esclarecido.

Clique para ver o infográfico

Fonte: Revista Veja, março de  2011.

O bê-á-bá para conviver com a diversidade







Depois de discutir com uma colega na aula de Educação Física, Alecks- Batista foi abordado dentro dos muros do colégio particular onde estudava pelo pai da menina. “Ele me chamou de bichinha, viado e aidético”, lembra, que na época tinha 16 anos. A diretoria do colégio de classe média alta de Curitiba, no Paraná, não se manifestou sobre a agressão. “E eu me vi ali sozinho.” Hoje com 20 anos, estudante de Ciências Contábeis e gay assumido, Alecks ainda se lembra da sensação de isolamento, das piadinhas e da discriminação praticada pela maioria dos professores e alunos durante o Ensino Médio. Na sua época de escola, Alecks não era convidado para festas ou para jogos de futebol – na maior parte do tempo, circulava acompanhado apenas de amigas mulheres ou com dois outros colegas, também gays.

A situação vivenciada por Alecks não é exceção – investigações realizadas pela Unesco e também pelas ONGs Reprolatina e Pathfinder demonstram que há forte presença da homo-lesbo-transfobia (discriminação contra gays, lésbicas, transexuais e travestis) dentro das escolas brasileiras. Publicada em 2004, a pesquisa da Unesco revelou, por exemplo, que um quarto dos estudantes entrevistados não gostaria de ter um colega homossexual na mesma sala. De acordo com a pesquisa qualitativa realizada pela Reprolatina em 2009 em 11 capitais brasileiras, evasão escolar, tristeza, depressão e até casos de suicídio são observados entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) como consequência de um ambiente escolar homofóbico. “O ambiente escolar é em geral hostil para o exercício da diversidade sexual. Os professores não estão preparados e não têm compreensão maior da sexualidade e da homossexualidade”, explica a pesquisadora responsável pelo estudo, Margarita Díaz.
Diante do quadro, o Ministério da Educação, em parceria com entidades ligadas aos direitos LGBTs, produziu um kit de material educativo que será distribuído oficialmente para os professores de 6 mil escolas públicas a partir do segundo semestre deste ano. O projeto – batizado informalmente de “kit anti-homofobia” – é uma das ações do programa federal Escola sem Homofobia. Polêmico, o assunto já vem causando celeuma, principalmente na internet, onde grupos se manifestam acaloradamente a favor e (principalmente) contra o material, chamado de “kit gay” pelos seus opositores.

O kit
Destinado ao Ensino Médio, o kit é composto de caderno, pôster, carta ao gestor da escola, seis boletins (boleshs) e cinco vídeos. “É um material para a promoção dos direitos humanos, com o objetivo de fazer da escola um espaço de todas as pessoas, onde se possa aprender a conviver com a diversidade”, justifica Maria Helena Franco, uma das coordenadoras de criação do kit de material educativo. Considerado peça-chave do kit, o caderno é um livro de 165 páginas, no qual o educador encontra referências teóricas, conceitos e sugestões de atividades e oficinas para se trabalhar o tema da diversidade sexual nas escolas. “O caderno ensina como fazer um projeto político-pedagógico a ser assumido pela escola como um todo sobre esse enfrentamento da violência homofóbica”, conta Maria Helena. Escritos em linguagem jovem e acessível, os boletins seriam distribuídos entre os estudantes e também tratam da temática da diversidade sexual, com jogos, depoimentos e sugestões de filmes.
Entretanto, o objeto de maior polêmica é a parte audiovisual do kit, que inclui três pequenos vídeos produzidos especialmente pela ONG Ecos, que trabalha com o tema desde 1989. Produzidos com diferentes estéticas – teledramaturgia tradicional, animação de fotos e desenhos – os vídeos abordam de forma coloquial temas específicos como lesbianidade, transexualidade e bissexualidade. “São temas muito estigmatizados e pouco compreendidos”, explica Vera Lúcia Simonetti Racy, uma das coordenadoras da criação do kit do material educativo.

Criado por uma equipe multidisciplinar, o kit completo levou cerca de dois anos para ser pesquisado, construído e validado. Apenas o roteiro de um dos filmes, sobre o namoro de duas meninas, demorou oito meses para ser aprovado.

Ousada e polêmica, a proposta do material educativo atende a uma demanda das entidades que lutam pelos direitos LGBTs e também dos educadores – que não encontravam subsídios para trabalhar o tema em aula – além de estar articulada com políticas públicas de combate à homofobia de maneira geral. “O que a gente quer é que o professor esteja atento a essa situação de homofobia. A escola precisa ser um espaço de respeito e de formação cidadã.”, conclui Carlos Laudari, presidente da ONG Pathfinder.

Preconceito velado
Realizada em Manaus, Porto Velho, Recife, Natal, Goiânia, Cuiabá, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba, a pesquisa da Reprolatina procurou investigar qual era o conhecimento e a atitude prática de educadores e alunos a respeito da homofobia nas escolas. Foram entrevistadas 1,4 mil pessoas, desde secretários da Educação até pessoas que fazem parte do cotidiano da escola, como merendeiras e porteiros, passando por diretores, coordenadores, professores e estudantes.

Foi detectado um ambiente altamente homofóbico – resultado semelhante em todas as cidades – uma realidade, porém, em geral negada pela comunidade escolar. Segundo Margarita Díaz, quando perguntados sobre a existência de homofobia na escola, a resposta dos participantes da pesquisa era quase sempre negativa. Entretanto, quando se começava a discutir sobre o que acontecia quando havia a presença de um menino gay ou uma menina lésbica na escola, os relatos mostravam muitas piadas e atitudes potencialmente ofensivas. Tais reações não eram catalogadas como homofobia. “Elas são enxergadas como brincadeiras. Na verdade, essa ‘brincadeira’ é, sim, uma reação homofóbica, mas ela está muito naturalizada”, explica Margarita.

A ausência de aulas sobre educação sexual que contemplem a diversidade também é apontada como um dos fatores que contribuem para a permanência da homofobia nas escolas. Segundo especialistas, a educação sexual disponível para a maioria dos estudantes é essencialmente heteronormativa, ou seja, reproduz um modelo que coloca a heterossexualidade como norma, o que acaba classificando outras manifestações de gênero, amor e sexualidade como desvios. “É uma educação sexual baseada no senso comum da sociedade, e não uma educação sexual antenada com as políticas públicas”, conta Margarita Díaz. Outro ponto percebido durante a pesquisa era o desconhecimento pelos educadores da existência de políticas públicas voltadas ao combate da homofobia.

Evasão escolar
Além de casos de violência física, uma forma quase invísivel de violência nas escolas – que inclui o isolamento, rejeição, brincadeirinhas e piadas – também costuma marcar os jovens homossexuais para a vida toda. “Especialmente na adolescência, a gente quer se enturmar. Quando você é rejeitado pelos seus pares, é um sofrimento horrível”, conta a terapeuta especializada em diversidade sexual e questões de gênero, Edith Modesto, que também é fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) e do Projeto Purpurina, que atende jovens de 14 a 24 anos. “Eles falam da escola com muita mágoa, lembram da discriminação, do desprezo e da rejeição.”
O quadro é ainda mais grave quando se analisa a situação de estudantes transexuais e travestis. Segundo especialistas, não há espaço para eles na escola. Além de o preconceito ser maior, questões como o uso do nome social na chamada ou até mesmo situações prosaicas como qual banheiro o jovem travesti deve usar pesam e acabam contribuindo para o abandono da escola. “Existe uma porcentagem dos nossos jovens que está sendo socialmente discriminada e forçada a assumir um papel sexual que não é dela”, lamenta Carlos Laudari. “A gente pretende que a escola seja uma escola cidadã, em que o aluno brasileiro aprenda a viver com a diferença.”

“Outro aspecto importante da necessidade de esse tema estar na escola é que certos jovens acabam saindo, porque o sofrimento é tão grande e o ambiente é tão agressivo que a criança ou o adolescente acaba desistindo de estudar. Os índices de evasão escolar são significativos para essa população”, explica Vera Lúcia. Segundo ela, o papel mais importante do kit anti-homofobia é informar e contribuir para erradicar a violência e o preconceito. “Na medida em que você trabalha esse tema na escola e consegue criar uma convivência melhor e mais respeitosa, isso acaba se refletindo nas relações sociais como um todo.”

Artigo produzido por Tory Oliveira em 23 de março de 2011.

Fonte: Revista Carta Escola, 2011.

domingo, 3 de abril de 2011

Ditaduras e Democracias na América Latina e nos Países Árabes


 Chavez e Kadafi


Maurício Santoro, doutor em Ciência Política (IUPERJ) e professor de Relações Internacionais da FGV-RJ, é o articulista convidado do Café História para falar sobre as semelhanças e diferenças entre as atuais ditaduras do mundo árabe e as ditaduras militares latino-americanas do século XX

Por Maurício Santoro*

As revoltas democráticas nos países árabes, iniciadas com a Revolução de Jasmim na Tunísia, em janeiro de 2011, são um dos mais importantes acontecimentos da política internacional contemporânea. Representam a chegada ao Oriente Médio e norte da África de uma onda de democratização como a que atravessou a Europa e a América Latina nas décadas de 1970-1980. Latino-americanos compartilham com árabes desafios sócio-econômicos, mas partem de experiências distintas com relação à natureza de seus regimes autoritários.

As Ditaduras na América Latina

Ditaduras têm sido constantes na América Latina, desde a criação dos Estados nacionais da região, a partir do início do século XIX. Vamos nos limitar aos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, para fazer a comparação com os países árabes que tornaram-se independentes nessa época. Nesse período, os governos não-democráticos na América Latina foram majoritários no continente e dividiram-se em três grandes categorias.

As ditaduras militares foram a forma de governo mais comum na América Latina entre as décadas de 1960-1980, intervindo países instáveis nos quais líderes populares preconizavam reformas sociais, que no contexto de polarização ideológica da época eram equiparadas ao comunismo, ou vistas como favorávei à sua ascensão. Tiveram feição burocrática-tecnocrática na Argentina e no Brasil e personalista no Chile e na América Central. Quase sempre foram ideologicamente de direita, mas no Peru, Equador e até certo ponto no Panamá houve governos militares de esquerda, com agenda de mudança social, em especial reforma agrária.

Os autoritarismos de esquerda foram implementados por revoluções em Cuba e Nicarágua, e por governos a elas simpáticos, por breves períodos, no Suriname e em Granada. O regime cubano começou como um programa de reformas sociais e nacionalistas de esquerda, que abraçou a ideologia marxista e a aliança com a União Soviética diante do confronto político e da intervenção militar dos Estados Unidos. O sandinismo nicaraguense foi uma frente ampla de forças progressistas, semelhante ao início da revolução em Cuba.

Ditadores civis foram raros nesse período da América Latina. O regime do Partido Revolucionário Institucional que se seguiu à Revolução no México já foi chamado de “ditadura perfeita”, mas a caracterização não é precisa, pois embora o governo recorresse a intimidações e fraudes em momentos de crise, havia pluralismo político no país, sobretudo nas universidades e instituições culturais.

A presidência de Alberto Fujimori no Peru (1992-2000) é que se enquadra de maneira mais confortável nessa categoria e foi implementado a partir do combate às guerrilhas de extrema-esqueda (Sendero Luminoso e Tupac Amaru).

As Ditaduras nos Países Árabes

As culturas árabes têm longa e orgulhosa histórica, com impérios importantes que governaram de Bagdá, Damasco e Cairo, mas nos últimos 500 anos viveram sob controle de estrangeiros: otomanos, britânicos, franceses e italianos. O domínio colonial começou a ruir na década de 1920 e terminou após a Segunda Guerra Mundial. Os países que surgiram das antigas colônias variam entre nações com sólida identidade própria (Egito, Marrocos) a construções frágeis traçadas pelas ex-metrópoles para atender a seus aliados políticos (Jordânia, Líbano, Iraque). Os novos governos foram de caráter autoritário e oscilaram entre três grandes correntes.

As monarquias estão presentes no Marrocos, na Jordânia e nos Estados do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Kuweit). Aliadas das ex-metrópoles coloniais da Europa e dos Estados Unidos, apresentam-se como opções moderadas politicamente. Em alguns casos, lograram substanciais reformas econômicas, como no Catar, cujo soberano criou a célebre emissora Al-Jazeera, ou nos Emirados Árabes Unidos, com Dubai virando um centro internacional de negócios. O caso saudita é peculiar, pois após os choques do petróleo os recursos financeiros do Reino tornaram-se uma das principais fontes de apoio a movimentos fundamentalistas na Ásia Meridional, ao mesmo tempo que o país é o principal aliado dos Estados Unidos entre os árabes.

As ditaduras militares surgiram como rejeição a monarquias corruptas, dependentes dos aliados ocidentais, no Egito e Líbia, ou como a consequência da disputa de poder que seguiu-se à independência na Tunísia, Argélia. Vêem a si mesmas como instrumento de modernização e da realização de reformas sociais, críticas das elites de seus países, e de forte teor nacionalista, pan-árabe. Embora perseguissem os comunistas internamente, estabeleceram alianças ocasionais com a União Soviética, visando sobretudo à auxílio militar contra Israel. No Iêmen do Sul, houve uma ditadura militar comunista nas décadas de 1960-80.

Os regimes autoritários do Partido B´aath – Renascença, em árabe – foram estabelecidos na Síria e no Iraque na década de 1960, em substituição às ditaduras militares que governavam aqueles países (no caso iraquiano, após os generais deporem e assassinarem o rei). Esposam “socialismo árabe” parecido com o das ditaduras militares, mas o controle do sistema está com a elite política civil, ligada por fortes vínculos étnicos e religiosos, como os al-Tikrit no Iraque de Saddam Hussein ou a seita alauíta na Síria da família Assad. Foram os aliados mais constantes da União Soviética na região.

O Líbano e os territórios palestinos foram exceções, porque o alto grau de fragmentação religiosa do primeiro (cristãos, muçulmanos xiitas e sunitas), e de divisões políticas dos segundos (mais de uma dúzia de movimentos na OLP, o Hamas), e da presença de exércitos estrangeiros (Israel, Síria) entre ambos impediram a criação de uma coalizão estável para impor um governo autoritário. O que existe neles são alianças cambiantes, que com frequência se transformam em choques armados ou mesmo guerras civis. Propiciaram um ambiente público mais plural do que outras nações árabes, embora a vida política seja marcada pela violência.

Transições

As transições democráticas na América Latina ajudam a compreender perspectivas e limites para as mudanças nos países árabes. Democratização é contagiosa e se espalha rapidamente, mas não é total, nem irreversível. Depois da Guerra Fria, Cuba continua a ser um Estado autoritário, o Peru o foi por uma década e fraudes eleitorais em larga escala ocorrem nas disputas presidenciais no México. Houve golpes, ou tentativas, em Honduras, Equador, Paraguai e Venezuela. Grupos guerrilheiros ou paramilitares dominam parcelas expressivas da Colômbia.

Lidar com os traumas do passado, como as violações de direitos humanos, também tem se mostrado difícil. Os países da América Latina avançaram bastante em valorizar a memória das lutas contra os regimes autoritários mas condenações em grande escala dos repressores ocorreram somente na Argentina e no Chile, embora punições contra os líderes daqueles regimes tenham sido realizadas também no Peru e no Uruguai.

Contudo, as democracias da América Latina sobreviveram mesmo à turbulência econômica e foram capazes de formular políticas sociais eficazes no combate à pobreza, na universalização do ensino básico e em certos campos da saúde. Tais experiências e “saber-fazer” são contribuições importantes que a região pode compartilhar com as democracias nascentes nos países árabes.


*Jornalista, doutor em Ciência Política pelo IUPERJ. Professor do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Autor do livro “Ditaduras Contemporâneas” (Editora da FGV, no prelo). É criador do blog “Todos os Fogos o Fogo”, que aborda temas relativos às relações internacionais, estudos sobre o desenvolvimento, políticas públicas, direitos humanos, cinema e literatura.
Acesse e confira: http://todososfogos.blogspot.com/

Fonte: Café História